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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

O baldinho: o invencível


Não sou especialista em psicologia/psicanálise infantil; por isso mesmo, não atendo crianças. Dito isso, sempre me chamou a atenção quando pessoas (também não necessariamente especialistas) reclamam de as crianças de hoje estarem mais voltadas para tablets ou afins do que para brincar na rua, por exemplo, com outras crianças. Fala-se de perda de sociabilidade e também de outras perdas que, ao menos para mim, não ficam muito claras.

Às vezes, parece-me que há uma ponta (de um iceberg) de nostalgia (que já abordei brevemente em outro texto “A vida segue...”) nisso, tipo: “no meu tempo era melhor”, como se os filhos devessem fazer as coisas que deixaram os pais felizes (ou, mais ainda, saudosos). Tem muito a ver com o narcisismo dessa relação, que já foi tão bem explicado por Freud há mais de 100 anos. Os tempos mudam. Como exigir que uma criança de hoje brinque da mesma maneira que se brincava há trinta anos? É outra geração, consequentemente com outras qualidades, habilidades e necessidades: é normal uma criança já saber procurar seu desenho preferido em um tablet sem ainda nem saber falar, é um dote natural que crianças da minha geração não tinham (por motivos óbvios). “Ah, mas ficar só no tablet ou videogame prejudica a socialização, traz perigos, etc.”. Ok, pode ser, mas eu penso que tudo depende de como isso é feito, assim também como o contexto no qual se brinca na rua, afinal, dependendo de onde se mora, pode não ser a alternativa mais segura (como era no passado). E também, não sei se a internet criou novos perigos de fato, acho que ela certamente os ampliou com toda a revolução que causou: os perigos sempre existiram, utilizam-se das formas vigentes (e aumentaram com o nosso “desenvolvimento”). E mesmo nessas novas tecnologias, brinca-se realmente sozinho? Critica-se que os contatos virtuais não são reais (há teorias que contestam isso!), mas não há nessa crítica um pouco de uma geração que só se correspondia à distância por carta? Eu também acho uma carta, escrita à mão, algo mais pessoal, mas quem escreve carta assim hoje em dia? Só em situações muito específicas... Aliás, muitos terapeutas (que já foram até contra o contato pelo celular!) aderiram rapidamente ao atendimento virtual quando a realidade (financeira também) obrigou, e, diga-se de passagem, não vão voltar totalmente ao presencial (simplesmente porque seu público não voltará!). Estou começando uma digressão, por mais importante que possa ser (talvez para outro texto). O que estou dizendo é que as coisas mudam, e se nós não mudamos com elas... Ainda assim, isso não significa, de maneira alguma, que o antigo seja eliminado; nada é. Tudo permanece, passado e futuro, coexistindo. O baldinho é o maior exemplo.

Eu já disse que adoro morar no Rio de Janeiro. Apesar de tantas coisas boas a se fazer aqui, ir à praia é a melhor: talvez seja a mais suprema aula prática de sociologia, antropologia, biologia, psicologia, pedagogia, qualquer “ia” que queiram pensar. Procurando lugar para morar aqui quando me mudei, este talvez tenha sido o único objetivo estabelecido: a praia (afinal, tem de se tirar vantagens ao vir morar no Rio, né?). Não adianta: a praia é o melhor programa. Inclusive, dou um conselho para quem vier passear no Rio: faça todos os passeios turísticos que tiver vontade (Pão de Açúcar, Cristo, Jardim Botânico, o que for!) antes de ir à praia pela primeira vez; porque depois disso, seu único programa será ir à praia. A não ser, claro, que você seja uma pessoa que não goste de praia (e se for, porque raios está visitando o Rio de Janeiro?). Pois, desde que vim morar aqui, muito há a se falar deste “mundo praiano”, mas eu quero me ater a um fenômeno que nunca deixa de me fascinar: o baldinho.

É absolutamente encantador ver as crianças brincando com o baldinho e a pazinha na praia. Elas têm um prazer e um alegria sem limites, pura, ao brincarem na areia. Não me canso de olhar. Tento não ficar olhando tanto, para não parecer estranho... mas é difícil.

Em dias de praia cheia, como os domingos de sol (que eu não gosto de ir), já se pode ver pelas calçadas as famílias indo em direção à praia, e as crianças todas devidamente equipadas com seus baldinhos, como se fosse (e é!) uma profissão. Talvez seja a atividade mais simples que existe: ir no mar coletar água, colocar areia no baldinho, botar a água, tirar a areia misturada com a água mexendo com a pazinha, etc. Não há (aparentemente) muito mais que isso. E elas adoram! É um enorme prazer! Além das gargalhadas de divertimento, é tão importante quanto notar a concentração e gravidade que a ocupação com o baldinho e a pazinha proporcionam. Winnicott mostrou isso magistralmente: a importância que o brincar tem para a criança equivale ao trabalho para o adulto. Na verdade, é muito mais! O trabalho para o adulto é importante para a sua subsistência, pode ser uma obrigação, uma necessidade; para a criança, a brincadeira nunca é assim, é sempre prazerosa, esgota-se em si mesma (coisa que o trabalho não faz muitas vezes...), é espontânea. Não se pode obrigar uma criança a brincar (já o adulto a trabalhar...) e é ponto essencial para o desenvolvimento, de todos os tipos. Uma vez, debatendo sobre essas coisas em sala de aula, uma aluna me contou que chegou em casa exausta um dia, e desabafou ao se entregar ao sofá: “ah, tô cansada”. Nisso, sua filha (de uns 4 anos se bem me lembro) desabou da mesma maneira no sofá dizendo: “ah, eu também”. A mãe, surpreendida, perguntou: “cansada de que? Tu não fazes nada!”. Ao que a menina, quase ofendida, respondeu firmemente: “eu brinco!”. Não há exemplo melhor, isso diz tudo.

O que sempre me impressionou (e continua impressionando) é: pode-se ter qualquer evolução tecnológica que as crianças já nasçam com elas, pode mudar a geração, os costumes, mas o baldinho na praia continua invencível! A brincadeira mais simples que se pode imaginar. Engraçado é que os adultos que reclamam dos comportamentos das crianças de hoje, como falei acima, são os que vão para à praia com celular e o escambau tecnológico; para os pequeninos, o baldinho e a pazinha já são mais que suficientes. Então, como que não brincam mais brincadeiras de “antigamente”? Afinal, o que “antigamente” quer dizer?

Parece-me que tem mais a ver com uma nostalgia narcisista, como já referi. É querer que as coisas permaneçam as mesmas? Atualmente, temos exemplos abundantes de como este é um caminho desastroso. Para além de o baldinho nos lembrar de como algumas essências permanecem, ele também nos lembra que permanecem mudando, não há contradição necessária entre o novo e o antigo, nem entre o passado e o futuro, desde que possamos nos descolar do pensamento temporal linear (ou circular, que é tão ruim quanto). Afinal, o baldinho é eterno, já saiu dessa temporalidade há tempos. Por isso a importância do brincar na terapia, mas não estou falando de atendimento infantil: brincar no entendimento adulto mesmo. É claro que é uma brincadeira diferente, não estou me referindo a contar piada ou jogar algum jogo com o analisando (ainda que, dadas as circunstâncias, isso não é um problema), mas às essências do brincar, as winnicottianas de criatividade, expressão livre, espaços pontencias, estas não podem ser esquecidas, pois muito se perde quando ficamos adultos (“O pequeno príncipe” demonstra isso lindamente; pena que Winnicott nunca fez uma análise desse livro né...). Como o psicanalista inglês sabiamente disse: se um paciente (adulto) não pode brincar, ele deve ser instruído nisso para que o tratamento possa começar; se o analista não sabe brincar, ele não está apto para ser um analista (a citação é de memória, mas o sentido é este). Ou seja: algo muito simples, como o brincar com o baldinho (eu sempre achei, e continuo achando, que o simples é o mais difícil de se dizer/fazer). Mas agora, sinto que já estou indo para outro assunto...

De todo o modo, com todas as modificações sociais desde que começamos a ir à praia como lazer, são as crianças que mantêm uma tradição ao longo dos tempos, inovando-a, justamente porque são crianças; nenhum (pensamento) adulto é capaz de fazer isso. Apesar de “antigo”, é de criatividade que estamos falando. E de esperança e liberdade também, não? E viva o baldinho!



Como (quase) sempre, há uma música vinculada... Nesta, eu sinto muita liberdade, esperança e espontaneidade, como uma brincadeira é (escolhi uma versão com tradução, que nunca é perfeita..., pois a letra é significativa - ainda mais com os acréscimos de Beatles e Bowie no fim!).



O BALDINHO - O INVENCÍVEL
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