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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

O bebê


Todos nós já tivemos dias ruins. Eu mesmo já tive vários! Sinto-me mal em falar do que irei. Não é pela exposição, importava-me muito mais com isso quando era mais novo. É porque “vozes na minha cabeça” estão dizendo: “tu estás falando de um dia ruim vivendo na zona sul e indo na praia, quando pessoas estão morrendo de fome (e de outras coisas), sofrendo para valer, ralando o cú para trabalhar (e isso se conseguirem um trabalho), etc.”. E eu concordo com as vozes. Concordo muito, você não tem ideia de quanto. Eu sou homem, branco, heterossexual, nascido no sul do país, criado em uma família estruturada e com condições financeiras. Nunca sofri nenhum tipo de violência ou discriminação por causa de quem eu sou, nunca tive preocupação alguma de andar por um shopping ou supermercado (ou mesmo na rua!). Ou seja, eu não poderia escrever sobre nada de qualquer sofrimento se pensarmos assim. É tipo sofrimento de rico (o que eu estou muito longe de ser – rico, no caso). E este pensamento não é errado. E ao pensar nisso, sinceramente, eu sinto vergonha das minhas histórias.

É que a historinha que vou contar toca nisso: o triste que vai para a praia. Eu tenho noção disso. Já entrando nesse nível que você pode achar detestável, uma vez eu reclamei muito para minha mãe porque, por vários motivos, não havia conseguido ir para a praia no “meu ponto” em Ipanema, lugar que eu amo, e acabei indo aqui em Copacabana. Ela disse: “quem diria hein, tu que cresceu indo na praia em Tramandaí reclamando por ir em Copacabana”. (Tramandaí é praia do Rio Grande do Sul... não vou entrar em detalhes). É verdade. E aí vem, novamente, o que acabei de falar: tanta gente que nem na praia pode ir e este ****** reclamando... Eu sei. De qualquer forma, vou contar essa história.

Eu fui no “meu lugar” em Ipanema, posto 10, quase na divisa com o Leblon, e a “minha barraca”, da Marceli, não estava lá. As que ficam do lado, também não estavam (não era verão). Eu que, como já ressaltei no início, não estava muito bem, quase fui atropelado ao atravessar a Vieira Souto para largar a bicicleta: confundi o sinal de pedestres com o de carros... o que uma pessoa alienada faz. Um cara de moto (o que quase me atropelou) gritou contra mim e fez gestos obscenos; respondi da mesma forma, mas sabia que ele estava com a razão (por dias foi muito assustador essa lembrança – não os gestos obscenos, mas o iminente atropelamento). Não estava um clima (interno) bom, do que eu acho, para ir à praia. Mas eu fui. Fui na reta da rua de onde consegui largar a bicicleta. Estava horrível. Pudera: alguém nesse estado não deve ir para a praia, praia é para ser leve, para aproveitar (ou para melhorar, mas eu não estava com esse objetivo). Todos na minha volta eram adolescentes (ponto mal escolhido). Cada vez chegavam mais, todos alegres, enérgicos, festejantes, enfim, adolescentes. E eu ali: sozinho, velho, barrigudo, meio deprimido. Não combinava nada com o ambiente. Eu tentei. Fiquei algum tempo, mas aquilo não estava bom. Então, pensei: praia não é lugar para deprimidos, vou embora! E fui. O sol estava alto ainda (e era um dia lindo).

Tive sorte de não ser atropelado na volta. Quando larguei a bicicleta numa estação aqui onde eu moro, em Copacabana, hesitei em voltar para casa. Ao mesmo tempo, eu pensava: mas vou fazer o que nesse estado? Tipo, não deu certo a saída, aceita e vai embora! Mas não fui. Pensei: vou beber então! (É uma vantagem aqui no Rio que a qualquer hora do dia se pode beber e ninguém te julga). Fui, portanto, ao quiosque já tão familiar de tomar uma cerveja no fim de tarde. Só que, apesar de já ter pedido uma cerveja, pensei: eu estou todo suado e morrendo de calor, estou de sunga e tudo, vou pro mar né! Olhei em volta: havia um casal em uma mesa perto, extremamente animados, dançando desastrosamente a música de merda que tocava no quiosque. Havia umas 16 garrafas de cerveja na mesa deles, deviam estar completamente bêbados. Tipo de gente que eu confio. Perguntei se poderia deixar minhas coisas com eles para ir ao mar (e para olharem minha cerveja na mesa, o que parecia ser o pedido mais arriscado); responderam basicamente com gestos que pareciam dizer: “deixa aí”. Confiei plenamente.

Um banho de mar não é, como muitos pensam, refrescante (ok, é um pouco...). Eu já perdi a conta das vezes que saí do mar com sérias dúvidas se estava com a água do mar escorrendo pelo corpo ou se já estava suando de novo. Ao menos para mim, refrescar-se no mar não é uma solução (deve ser por isso que ar-condicionado foi inventado). O banho de mar é revigorante. Não se deve tomar banho de mar quando se está com calor, mas quando se está cansado. (Deprimido, não sei, pois há o risco de se afogar... ainda que o mar do Rio não te afoga, ele te humilha: então, ser derrubado e cair de costas com os pés ao alto por uma onda que te pegou no rasinho, talvez até ajude em uma deprê, que se possa dar risada, já que todo mundo cai – ou afunda de vez). Dessa forma, saí do mar de Copacabana reanimado, com se nascesse de novo, estava até meio feliz. Não sei se tem a ver com o Forte de Copacabana e a praia terminar aqui, mas sempre a água é mais turva do que no meu lugar em Ipanema (e no resto da praia de Copacabana). Ainda assim, dá para ver peixinhos algumas vezes (quando não está cheio de lixo na água), ou seja, é um sonho perto do chocolatão de Tramandaí (só quem já foi vai saber – e quem não foi.... não precisa ir).

O banho de mar me fez tão bem que eu quase me juntei a dançar com o casal que “guardou” minhas coisas na volta. (Mentira, claro que não me juntaria). Minha cerveja já estava na mesa, comecei a beber, mas eu já me sentia bêbado do mar, energizado. Eu havia visto antes algo que me chamou a atenção (eu fico muito observando as coisas): uma mulher que atravessou a avenida Atlântica em direção à praia com o seu bebê no colo. Não exatamente no colo: ele estava em uma daquelas coisas que pendura o bebê na frente da mãe, de modo que ela não precisa ficar segurando (depois, alguém me disse que se chama “canguru”, nome apropriado). Não sei exatamente o que me chamou a atenção: ela estava vestida de forma diferente de alguém que vai na praia, com roupas mais longas; o canguru me chamou a atenção também. Também acho que foi eles serem de descendência asiática. Ambos eram muito bonitos, principalmente o bebê.

O bebê era um encanto! Era lindo! Toda essa curiosidade que me despertou, juntamente com minha bebedeira do mar, fez com que eu ficasse olhando. Ele tinha um ano ou pouquinho mais, no máximo; era muito pequeninho! Tanto que a brincadeira dele na areia, perto da água, era colocar as mãozinhas no chão, rolar desajeitadamente na areia, basicamente isso (não tinha nada de baldinho! Ele não estava nesse nível ainda! Querido).

Eu estava, como sempre procuro ficar, sentado em uma mesa em frente a uma barraca de praia (que alugam cadeiras e guarda-sóis, vendem bebidas em geral). Quase sempre se acaba tendo alguma conversa ótima. O Rio é famoso por passar para trás os turistas, e isso realmente acontece, mas quase todas essas pessoas que trabalham na praia, barracas ou ambulantes, são trabalhadores do mais alto nível, trabalham muito mais do que a maioria de nós. E são pessoas magníficas. Por isso, gosto de falar com elas. Não sei, parecem pessoas mais de verdade. Se a gente sai da paranoia (que até tem sentido) de que vai ser roubado no Rio e começa a conversar com essas pessoas, temos muito a ganhar (afinal, a gente sabe o preço das coisas para não ser logrado, não viemos da Suécia né!).

Mas então, estava eu naquela posição no quiosque e, para minha surpresa, a mãe do bebê era amiga do pessoal da barraca. Veio ali falar com eles antes de ir embora. Não pude resistir de ficar admirando (tentando não dar na vista) o filho dela. Só que, em determinado momento, ele começou me olhar também! Acho que ele ficou confuso, pois o ouvi falando “papa” (não, eu nunca tinha visto a mãe dele). E aí, começou a me abanar! Aquele abano maravilhoso: sem a mínima coordenação, só mexendo a mãozinha de um lado para o outro. Claro que eu abanei de volta. Mas não parou por aí. Ele começou a me mandar beijos! Botava a mãozinha na boca e a abria oferecendo para mim. Todos em volta na barraca riram de ele estar fazendo isso comigo. Óbvio que eu devolvi os beijos! Acho que foi a primeira vez na vida que fiquei mandando beijos com a mão assim, à distância; e estava muito bom! Fiquei com o sorriso até as orelhas.

Não tive contato com ele, nem com a mãe, nem com ninguém; pouco depois disso, fui pra casa. Eu não estou falando nada do tipo “dias ruins podem ficar bons”, nada desse tipo de moral ridícula. Mas aquele bebezinho querido salvou o meu dia. Voltei para casa me sentindo muito melhor do que quando saí, por causa dele. Ele fez eu me sentir especial.


Março, 2023.


O BEBÊ
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