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Gente ruim (o golpe)

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • 3 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Gente ruim e, por consequência, golpes sempre existiram. Assim como as coisas boas, vão evoluindo conforme novas ferramentas vão surgindo. Hoje em dia, há uma profusão de golpes virtuais obviamente; também são abundantes os avisos para nos protegermos. Algumas artimanhas são muito bem elaboradas mesmo; outras, nem tanto. São com essas últimas que eu sempre me irritei. Até recentemente, quando uma notícia de jornal fez eu perceber algo claro (e que eu já sabia).

Uma vez eu vi, talvez você tenha visto também, o caso de uma mulher que perdeu bastante dinheiro, até a sua casa, para um golpista que conversava com ela por aplicativo se passando pelo Arnold Schwarzenegger. Minha indignação sempre foi: como alguém pode, por algum instante, acreditar que está, de fato, conversando com o Exterminador do Futuro? E que ele está pedindo dinheiro! Como? Eu ficava até com raiva! Ainda: não tem absolutamente ninguém por perto dessa pessoa para alertar que talvez isso seja um golpe? Claro, você deve saber disso antes do que eu, há explicações.

Outra vez, li sobre uma mulher, com um bom grau de instrução e de esclarecimento sobre as coisas, que foi enganada por um infeliz que ela havia conhecido em site de relacionamento: ficou perdidamente apaixonada, deixou-se levar. Esse caso me impressionou: como ela dá dinheiro para alguém que ainda está conhecendo? Eu nunca faria isso! Ali, eu tive o vislumbre do que eu, de certa forma, negava: quando se deseja muito alguma coisa (como um apaixonamento), cega-se para fatos que seriam muito evidentes em outras circunstâncias. Aquele tipo de situação que depois se fica pensando: “como que eu não vi isso antes? Estava tão claro...”. Compreendi e parei (um pouco) de julgar. Contudo, foi a notícia de jornal que anunciei que fez com que eu mudasse finalmente de posição.

A reportagem contava a história de uma mulher que perdeu R$ 26 mil para um vigarista que dizia ser Elon Musk. Agora, se eu já achava um absurdo acreditar que o Schwarzenegger precisava de dinheiro, o que dizer sobre o bilionário de caráter altamente duvidoso (e loucura sem dúvida alguma)? Só que, dessa vez, foi diferente para mim. A vítima, de 70 anos, disse que queria um amigo. Relatou que tinha apenas o cachorro como companhia depois que pessoas próximas morreram, sentindo-se sozinha. Nas palavras dela: “sinto necessidade de falar com as pessoas, então é pela internet que converso e brinco com alguns joguinhos”. Nossa, isso me matou. A dimensão da solidão certamente, mas mais ainda quando ela fala “brincar com alguns joguinhos” para lidar com o estar sozinha. Isso me tocou profundamente.

Eu acho que porque os jogos (de videogame, mas também os de tabuleiro) têm um significado infantil de grande importância para mim, logo, de algo muito íntimo e especial. Tão pessoal que eu tenho dificuldades para me expressar. Então, ler ela dizendo que recorre aos joguinhos nessa situação de estar aterradoramente sozinha, isso me quebrou. Além do que, juntou com a necessidade que faz com que se passe por cima de percepções explícitas que temos, mesmo sendo inconscientes ou, nesses casos talvez até mais, pré-conscientes, com o intuito de fazer de conta que não existe. Enxergar a verdade significa abrir mão do que se quer tanto. Às vezes, isso não é possível, pois não é um simples sonho, algo que “só” se quer: é algo que se precisa mesmo, para poder continuar vivo.

Novamente,[1] para a supressa de zero pessoas, “O pequeno príncipe” vem em nosso auxílio. Basicamente, o principezinho tinha apenas um objetivo em suas viagens, conforme o próprio piloto o descreve: “era uma vez um principezinho que habitava um planeta um pouco maior que ele, e que tinha necessidade de um amigo...”. O próprio narrador também relata, bem no início, que viveu só, “sem um amigo com quem pudesse realmente conversar”. Por sorte, ambos se encontraram, e foi o pequeno príncipe quem ensinou a importância de se ter um amigo (de verdade!). Mesmo quando ele vai morrer (ou voltar para o seu planeta), ele destaca a importância da presença verdadeira de outra pessoa, e que esta se mantém mesmo após a separação. “É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer”. Acontece que esse encontro é raro; parece mais comum cair na enganação.

Dessa forma, temos um paradoxo, no melhor estilo winnicottiano. Entende-se plenamente os motivos para se entrar nessas roubadas, são nobres. Você já necessitou de algo desesperadamente, com a sua vida dependendo disso? A gente não pode julgar levianamente as atitudes do outro se não conseguimos empatizar verdadeiramente com a experiência e a realidade alheia.

Por outro lado, esse tipo de confiança na realização do desejo tão esperado também é, como eu sempre pensei, uma atitude burra, pois está fadada a dar errado. Eu odeio gente burra, e a burrice, como eu a entendo, não é não ter graduações acadêmicas ou grande erudições; é não ter noção! Não saber das coisas quando você é cerebralmente bem constituída não tem desculpas. A questão é que esta “burrice” que estamos falando agora é provocada justamente pelo desespero do desejo. Alguns burros, até se dão bem; nessas situações que estou abordando, sempre se perde. No caso da senhora, R$ 26 mil; porém, inclusive no caso dela, tenho certeza, perde-se algo muito mais valioso: a necessidade tão premente.

Vive-se o desejo, mas não só é uma vivência falsa como é curta (e eu não estou falando de contagem linear do tempo, não acredito nisso). Parece um beco sem saída: não consigo continuar sendo sem esse “algo”, mas ao conseguir, estou sendo de forma mentirosa, o que não adianta, visto ser uma vida oca. Veja que já não estou mais falando de golpe com Elon Musk ou mesmo por pessoas desconhecidas: ele pode acontecer, o que é ainda mais cruel, com pessoas consideradas “íntimas”.

O golpe está aí. Cai quem quer. Ou quem precisa?

 

 

Setembro, 2025.





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