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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

As datas


Eu acho que todos temos, talvez você também, alguma relação especial com datas comemorativas. Raro ter isentos de verdade quanto a isso.

Eu já conheci e convivi com gente de tudo que é tipo. Pessoas que amam seu aniversário, e outras que se escondem; as que renovam sua vida no Ano-Novo, e as que acham uma besteira; as que encaram o Natal como momento de união familiar, e as que somente enxergam uma grande festa do consumismo sem nenhum sentido. Por aí vai. Existem muitas outras datas, inclusive as “alheias” a nós, como o aniversário daquela pessoa, ou a marca de um evento que não mais nos pertence. Eu tenho minhas posições, que foram nômades boa parte da minha vida: já fiz festa de aniversário e também já me escondi, era uma coisa muito do contexto. Hoje em dia, eu normalizei numa (falsa) isenção: não dou bola, seja para aniversário ou qualquer outra data. Só fico furioso quando sou obrigado a fingir sobre isso, mas, geralmente, ninguém me obriga mais a nada (foram anos de luta para isso!).

Não, eu não vou analisar a personalidade de quem gosta disso ou daquilo. Isso seria o que Freud chamou de “psicanálise selvagem”, e eu não faço esse tipo de coisa (ou tento não fazer pelo menos); e também, estou pouco me lixando para o que as pessoas gostam ou não gostam nesse sentido, afinal, não é da minha conta! (Já há fiscais de cú o suficiente nos dias de hoje né!). Como sempre, eu estou pensando mais em mim: por que não dar bola para datas? (O que, por consequência, leva-nos ao “dar bola”).

Espere só um pouquinho, “respondo” isso no fim (você sabe que o mistério faz parte aqui, né). Antes, é importante frisar que o não dar importância para datas não significa ser contra elas, ou muito menos contra quem as celebra. Eu, particularmente, até acho bonito. Todas elas. Acho uma convenção social “simpática”, algumas até muito bonitas. Então, nada contra as celebrações das datas que destaquei acima. O carnaval, por exemplo. Eu acho lindo! Tudo. As músicas, as pessoas se divertindo (mijando na rua, nem tanto). Eu passei alguns carnavais no Rio (e estou falando do carnaval “pra valer”, o de rua). Nossa, a cidade literalmente para. Lá pelas tantas, eu me incomodava um pouco, pois são vários dias: há o antes (com os ensaios) e o depois (tipo de “bota-fora”), e realmente atrapalha, a gente tem de ficar sempre atento onde vai ter bloco para planejar a locomoção pela cidade. Mas mesmo assim é sensacional, pois faz parte do combo: o Rio de Janeiro respira o carnaval, está nas entranhas da cidade, e eu gosto disso. Eu cheguei a ver, à meia distância, alguns blocos pequenos. Uma vez, pensei em ir na Banda de Ipanema, bloco histórico que desfila desde 1965 (é citado por Gilberto Gil em “Aquele Abraço”). Pensei porque é bem perto de onde eu morava e era à tarde naquele ano (no ano anterior havia sido de manhã, têm blocos que iniciam às 7 da manhã! Aí é pra matar, né). Cheguei até a animar. Aí eu vi que se juntavam umas 100 mil pessoas. Não né. Nem pensar! Claro, como qualquer coisa, eu acho que sempre depende do contexto, mas o meu na ocasião era: nem pensar! Eu ia dizer que não tenho mais idade para isso (o que seria uma besteira, pois o carnaval do Rio é democrático – ou é para ser), mas a verdade é que nunca tive (mas, de novo, a conjuntura já me traiu várias vezes...). Então, não tenho o carnaval na alma (meu tipo de festa é outro...), o que não impede que eu admire muito, goste e até me divirta (do meu jeito né).

Há outras datas, das quais quero destacar dois tipos. Primero, têm as esdrúxulas. Vamos combinar, né? Tem um vereador aqui de Porto Alegre (não vou me dar o trabalho de procurar o nome de um indivíduo desses), já cassado, que entrou em polêmica por propor o “dia do patriota” na data que aqueles coitados cabeças-ocas invadiram o Congresso. Mas nem é isso que quero dizer. É que, no seu mandato, basicamente o que ele fez foi propor a criação de datas comemorativas (mais de 200). Quais? Veja só um exemplo, e só este basta: dia municipal do milk-shake. É triste, mas é verdade isso. Porra. Cara eleito pelo povo (povo burro do caralho né – mas sabemos que é um projeto de o povo ficar assim), ganhando muito bem, fica propondo datas? E desse tipo? Ah, então eu vou ser vereador também: garanto que eu sugeriria datas muito mais significativas.

O segundo tipo, não tem a ver com as datas em si, são nobres, mas com os comentários que vemos. Exemplos: dia da mulher e dia da consciência negra. Não sei você, mas eu sempre acabo lendo coisas do tipo: “não deveria ter dia da mulher, dia da mulher é todo o dia”, “tem dia da mulher, mas não tem dia do homem então?”, ou “não tem que ter dia da consciência negra, mas sim da consciência humana, afinal, somos todos iguais”, e ainda “isso é preconceito: por que não tem dia da consciência branca também?”. Eu sei que, como já ressaltei, há um projeto histórico a favor da ignorância no nosso país, também sei que algumas dessas pessoas são bem intencionadas (o problema é outro), e também acredito que quem tem a sorte, como eu, de sair desse esquema, tem o dever de contribuir com a educação (até escrevi uma crônica sobre isso[1]). É que eu também acho que há algo a mais, num nível moral e humano mesmo (bem dessas pessoas que querem o dia da “consciência humana”). Por isso, faz um tempo que eu tenho uma preguiça gigantesca de tentar debater com quem chegou atrasado na distribuição de cérebros.

E eu? Eu estou, corajosamente, apartando-me dos idiotas, ainda que todos nós sejamos em alguma medida também. É que tem gente que força a barra, né? Uma vez eu ouvi um provérbio (que era para ser francês, não sei se é) que dizia que “a mãe dos idiotas está sempre grávida”. É bem verdade. O meu “não dar bola” para datas, que não foi de sempre, tem muito relação com a concepção temporal da psicanálise que venho desenvolvendo e que, como parece não deixar de ser qualquer coisa que nos apaixona, vai além disso.

Todas as datas que comemoramos, mais especificamente as de aniversário, Ano-Novo, etc., servem para marcar o tempo de forma arbitrária. O ano de 365 dias, nosso “aniversário” a cada um deles, tudo isso são invenções para se medir o tempo, e muito justas: servem para nos situar, assim como os dias e as horas que contamos nos relógios (ou, hoje, celulares). Isso é fundamental. Uma das chamadas “agonias primitivas” que Winnicott postula se relaciona com a perda da orientação temporal: a experiência, por exemplo, da prisão solitária como vemos em filmes é uma das maiores torturas para um ser humano, ele perde a noção de tempo. Fato é que, por outro lado, por essencial que seja, a noção temporal é inventada, ou seja, é algo criado para nos guiarmos. O que quero dizer é que, por este prisma, não faz o menor sentido atribuir valor real de que alguma mudança aconteça porque o “ano mudou”, ou porque estamos “um ano mais velhos”. Nós sabemos que no inconsciente não funciona assim; a questão é como funciona.

Fiquei chato agora, né? Mas por isso falei do carnaval: ainda que eu pense assim, não sou o desmerecedor de datas, e admiro as pessoas que investem nas comemorações; dependendo, eu também participo! Não vou esconder que já me diverti horrores no Réveillon dos fogos de Copacabana que é absolutamente lindo (ainda que não fosse pela mudança de ano – mesmo que seja difícil escapar disso, afinal, nós vivemos nesse tempo arbitrário, né). Eu acredito que se pode gostar de datas por qualquer motivo, como do próprio aniversário por adorar abraços e nesse dia se ganhar muitos (ainda que algumas pessoas merecessem mais um tapa do que abraço por terem nascido, né); eu acho isso lindo. Se você me achou um idiota pela minha posição sobre as datas, também não me oponho; até posso concordar. Mas pelo menos eu não exalto o milk-shake para ser comemorado.



Outubro, 2023.




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