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Crime... e o pior dos castigos

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Não faz muito, eu li uma das notícias mais engraçadas da minha vida. Dei gargalhadas! Mito Bolsonaro está preso, todos nós sabemos. É cômico, ou, no mínimo, uma ironia do destino o apoiador que dizia que era um absurdo bandido reclamar das condições da cadeia, que tinha de parar de mimimi e encarar as coisas como macho, agora choramingando que não tem manteiga no seu lanchinho (talvez para ele performar novamente aquele show grotesco de falar com a boca cheia depois de molhar seu pão no café para mostrar que era “do povo”). Ainda que isso seja burlesco, não foi o motivo da minha crise incontrolável de risadas.

Eu li sobre uma lei, a qual eu desconhecia, que um condenado pode abonar sua pena lendo livros! De um máximo de doze livro por ano, apresentando uma resenha que seja aprovada, cada livro lido pode diminuir quatro dias do tempo de prisão. E não é que, prepare-se: Bolsonaro estava disposto a realizar a tarefa em nome da remição de sua pena! Isso é chocante! Eu pensei: vai ler o primeiro livro da sua vida! Entretanto, ainda não foi isso que explodiu o meu riso (perplexidade talvez seria a melhor palavra para este momento). Não se escolhe qual livro ler, há uma lista já estabelecida (não fosse assim, talvez pudesse ter alguma leitura que o agradasse, Mein Kampf ou coisa do tipo). E a lista... ah, a lista... eram só livros de questões sociais importantes (aquelas desses esquerdistas comunistas, chamados assim por quem não tem a mínima ideia do que é comunismo), das que o mito criou sua imagem justamente por as desprezar raivosamente. Mas a cereja do bolo ainda estava por vir: um dos livros era Crime e Castigo, de Dostoiévski. Aí não deu mais para segurar só um sorriso, estourei num acesso de riso que demorou para passar, daqueles de endurecer a barriga de tanto rir.

Você consegue imaginar Bolsonaro lendo Crime e Castigo? Isso vai além do melhor roteiro de Além da Imaginação!!! (ou Black Mirror, se você preferir: como eu sou antigo, eu tenho mais atração por The Twilight Zone!). Se você ainda não leu o grande romance, leia, não vai se arrepender: terá o enorme prazer de ler um dos maiores livros já escritos, daqueles que dá arrepios (em mim deu!), e, como bônus, vai entender exatamente do que estou falando e poderá dar gostosas gargalhadas também! Será que Bolsonaro seria influenciado pelo tormento de Raskólnikov e desenvolveria alguma consciência e um sentimento de culpa? Ou será que ele pensaria (o que já seria um feito extraordinário: pensar) Raskólnikov como um frouxo, um maricas que fica de frescura só por ter assassinado alguém e não aguenta o tranco como homem? Mas aí, como ficaria a sua reclamação por não ter almofadinha colorida em sua cela? Se surgisse contradição naquele cérebro de enfeite, já seria um estupendo avanço.

Para além da piada pronta (porque, vamos combinar, é né!), eu fiquei pensando na lei em si. Fiquei dividido em dois sentimentos.

O incentivo para se adquirir o hábito da leitura e as maravilhas que essa atividade proporciona, o enriquecimento anímico que se ganha, isso é ótimo. Eu costumava obrigar as alunas a lerem um livro nas minhas aulas. Boa parte não gostava, algumas me odiavam por isso, ainda que depois embarcassem na leitura (e, com certeza, muitas continuaram odiando, mas aí, por freios sociais, nunca me disseram). Eu sempre escolhia um livro que “tivesse a ver” com o conteúdo para que associações pudessem ser feitas, muito mais do que as malfadadas interpretações de obras de arte que tantos psicanalistas parecem gostar (e ver “proveito” nisso).[1] Por trás, havia outro propósito que eu tinha como ainda mais importante: apresentar um tipo de literatura que a maioria não estava acostumada (eram sempre livros clássicos) e, mais abrangente ainda, tentar desenvolver o gosto pela leitura nas que não o possuíam, para que, talvez, a partir dali pudessem encontrar suas próprias preferências. Enfim, não era tanto sobre o que ler, mas muito mais que se lesse!

Dessa forma, toda e qualquer iniciativa que envolva a celebração e o incremento do hábito de ler e da relação com a literatura (assim como com todos os outros tipos de arte) sempre será aplaudida por mim. Contudo, ao mesmo tempo, a lei da qual Bolsonaro ameaçou fazer o esforço hercúleo para se beneficiar me causou um grande desconforto de forma bem mais ampla.

O fato de existir essa permuta, dias de pena abatidos por livro lido, escancara esta realidade do Brasil: não lemos. Ou, no máximo, lemos muito pouco. Se pensarmos na população carcerária, que é composta basicamente de pobres e pretos, de pessoas que tiveram alijadas suas possibilidades de acesso ao estudo e cultura já na saída, nós entendemos, apesar da tristeza: isso está na raiz de como a nossa sociedade foi construída. Só que há uma realidade pior do que essa, e que justamente está na base desse funcionamento: mesmo as pessoas que tiveram todas as oportunidades de educação cultural, como o nosso ilustre detento Bolsonaro (e toda a sua família especial), também são apartadas da literatura em sua maioria. Nesse caso, por conta própria, o que é tão trágico quanto a impossibilidade: é uma escolha pela ignorância.

É uma verdade abominável: a nossa elite (da qual Bolsonaro não faz parte – e nem eu ou, acho, você) é burra e iletrada. Acredito que uma coisa venha da outra, mas há algo macabro junto desse fato: por ser burra e iletrada, ela tem um plano maquiavélico de que a população nasça e permaneça assim também, com uma grande diferença: eles são burros iletrados com muito dinheiro (que é uma combinação perigosíssima), enquanto os outros lutam desesperadamente para ter o que comer, sendo, assim, facilmente dominados.

Historicamente, são criadas narrativas: o povo é preguiçoso, não gosta de trabalhar, só quer saber de festa (por isso o carnaval é uma perda de tempo...), não consegue uma vida melhor porque não se esforça (tal da “meritocracia”), só quer vida boa... Você tem orgulho de trabalhar como um condenado (não como Bolsonaro, esse nunca trabalhou), acreditando que está fazendo parte de um todo, quando só está pegando os restos para sobreviver enquanto outros poucos estão ficando com tudo. Enfim, muita gente compra de olhos fechados essa conversa fiada. E compra porque não lê, não se educa culturalmente, e assim não aprende a ter pensamento crítico, e sem isso fica desconhecendo a construção e funcionamento da sociedade onde vive. Veja bem: pensamento crítico não é (sentir a “obrigação” de) opinar sobre absolutamente qualquer assunto que não se tem o mínimo conhecimento; isso é falta do senso de ridículo. Pensamento crítico é se questionar, e a partir disso, buscar conhecimento para ter ideias próprias e com fundamento. E não é buscar isso com o tiktoker canalha ou com aquele seu tio pedófilo que (obviamente né!) defende a família, e aí ficar repetindo como um papagaio esquizofrênico os disparates que esse bando de debiloides diz. E se achando inteligente! Ainda mais nos dias de hoje: acredita-se piamente em qualquer coisa que se lê em grupos de idiotas no WhatsApp ou no que se ouve daquele “influenciador” que igualmente é um imbecil e está pouco se lixando com elaboração de conhecimento ou questionamento, ele quer é ganhar dinheiro em cima de gente ignorante (e ele encontra um vasto público). E aí, como disse Kafka no fim de sua derradeira (e minha preferida) obra, tudo permanece inalterado. Por que eu lembrei de Kafka? Porque eu leio, caralho!

E segue o baile. Segue com adultos que não conseguem interpretar texto, pois, claro, não conseguem pensar. Uma horda de alfabetizados disfuncionais. São várias gradações nisso. Por exemplo, eu já vi pessoas num nível de pós-graduação discutindo ferozmente sobre um livro que nenhuma delas tinha lido (nem a professora)! É uma outra faceta, a fachada do conhecimento que não se tem, que aparece de inúmeras formas. Talvez se parta do pressuposto (não de todo errado) de que ninguém sabe de tal livro, então dá para se colocar como um “especialista”. Como eu sei que ninguém leu aquele livro? Porque eu li!

Apesar do eventual estímulo à leitura que já mencionei, é um sintoma grave que ela seja usada como um tipo de permuta ocupando o lugar de objeto punitivo, quando seu cerne e seu valor estão na imaginação, no prazer, no lúdico. Livros são usados assim com as crianças desde o início, e o processo vai se repetindo até a vida adulta, mesmo para os que vivem em liberdade. Não é universal, há situações diferentes, é claro; porém, é forte a presença do livro como castigo. Eu acho mais desesperador ainda quando isso se aplica também aos acadêmicos. Não estou falando da leitura/estudo técnico (ainda que até aí alguns ofereçam resistência), daquilo que se lê para a sua profissão, estou falando sobre romances, literatura em geral. Não é este grupo que é para ser a parte pensante da comunidade? Frase famosa atribuída a Mário Quintana: “os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas; os livros só mudam as pessoas”. Se as pessoas não leem, mais ainda as que seriam responsáveis pelas transformações, que tipo de mundo teremos? Será por isso essa onda gigantesca conservadora, inclusive entre os jovens? É engraçado: a juventude que foi sempre símbolo da inquietação, do questionamento e da mudança, agora quer viver na Idade Média...

Uma sociedade na qual o livro é um fardo e/ou uma punição está em sérios apuros.

 

 

Fevereiro, 2026.



[1] Aqui eu desenvolvo uma discussão sobre arte e psicanálise, e também sobre a atividade interpretativa da arte: https://youtu.be/rRtMfmnuzAM






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