Dez anos de falta...... (A estranha "passagem" do tempo)
- Juliano Corrêa

- há 22 horas
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Neste ano, comemoramos dez anos da morte de David Bowie. Ele morreu dia 10 de janeiro do abençoado ano de 2016.
Como a notícia do seu falecimento foi de manhã, eu estava dormindo, pois estava de férias (mesmo sem férias, se eu não tiver um compromisso, estarei dormindo!). Quando acordei, algumas pessoas haviam me enviado mensagens cuidadosas, perguntando se eu “já tinha visto”. Assim que li essas mensagens, pensei: “puta merda”. Porque ninguém vai te escrever esse tipo de coisa por algo bom, como “tu já viu que ganhou na mega-sena?”. Não, claro que não, era alguma coisa ruim. É engraçado: parecia que elas se endereçavam a mim como se alguém próximo a mim tivesse morrido. E, se for pensar, elas estavam certas.
Liguei a TV e a notícia estava em todos os canais. Marcou-me muito uma repórter da Globonews, correspondente em Nova York (não lembro o nome), que ao entrar ao vivo para falar do caso, respondeu o “bom dia” da apresentadora daqui dizendo: “nenhum dia pode começar bom quando ele começa com a notícia da morte de David Bowie”. E ela disse isso de uma maneira tão sincera! Fiquei emocionado. Daí, foi uma enxurrada de matérias e revistas sobre o grande artista; eu comprei várias (Rolling Stone, Time, Veja com várias capas, em uma sacada muito boa), e li muitas reportagens. Uma delas, que tentei muito, mas não consegui reencontrar para deixar o link aqui, é sobre uma rádio (dos Estados Unidos eu acho) que pediu que os ouvintes contassem suas histórias com David Bowie, do impacto que ele teve em suas vidas. Era uma história melhor que a outra.
Desde encontros casuais com o astro na rua, passando por elaboração de traumas até a coragem para assumir a sua sexualidade, todas as histórias tinham um fio em comum. As pessoas viram nele um modelo para serem quem realmente eram, ou quem queriam ser, para uma liberação de seus verdadeiros selfs (bem no sentido winnicottiano), independentemente se era considerado feio ou errado pela maioria: ele transformou a minoria em algo sensacional. Um verdadeiro gesto espontâneo proliferado que inspirou tantas pessoas a aceitarem e atuarem os seus, para, como Winnicott destacava, viver uma vida sentida como real, uma vida que vale a pena ser vivida. É muito lindo, de chorar todas essas histórias.
Uma dessas: um cara vindo do interior para uma cidade grande dos Estados Unidos (não lembro qual era) se sentia sozinho (obviamente) e deslocado. Em uma noite, foi a um bar na esperança de conhecer pessoas e tal; não deu certo. Voltou para casa sozinho e meio triste; colocou “Suffragette City”, de um dos maiores álbuns de rock já feitos, The Raise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de 1972, para tocar. Em pouco tempo, ouviu uma batida na parede do apartamento do lado. Ficando ainda mais desanimado, gritou: “ok, vou tirar”. E ouviu uma resposta do outro lado da parede: “não! Nós queremos que você aumente o volume!”. Acabou se reunindo com as pessoas do outro apartamento para ouvir David Bowie, e fez uns amigos naquela noite. Não estava mais sozinho.
Rob Sheffield escreveu uma “biografia de fã” muito boa sobre David Bowie: além de trazer fatos e curiosidades sobre a sua vida, parece mais uma homenagem e um prazer de escrever sobre quem se gosta, o que fez com que eu me identificasse muito. Ele lembra que quando Bowie, no derradeiro show de sua persona Ziggy Stardust, no Hammersmith Odeon (hoje Eventim Apollo, em Londres), canta “me dê as suas mãos, você não está sozinho, você é maravilhoso” no fim de Rock ‘n’ Roll Suicide, enquanto pega nas mãos das pessoas na plateia (como documentado no vídeo clássico com o mesmo nome do disco), ele está fazendo um pacto inquebrantável com todas as pessoas que o adoravam, uma aliança que nunca se romperia e da qual ele foi responsável para sempre. Ele personificava que não tinha problema ser diferente, ser estranho, não se encaixar nos padrões; não só não tinha problema como era cool, e poderia ser maravilhoso. Talvez este seja um dos motivos pelos quais ele mudou tanto e criou tantos personagens: ao dar conta de todos os “seus eus”, ajudava mais pessoas do que podia imaginar a se identificarem.
O mesmo autor contou de como foi para ele quando Bowie morreu. Era madrugada (na Inglaterra) quando ele ficou sabendo, estava trabalhando tarde, e sua mulher já dormia no quarto. Ambos tinham em Bowie um ponto especial na relação, com músicas marcantes para o casal (é legal isso, né!). Ele escreve que pensou em a acordar para dar a triste notícia, mas desistiu: pensou que ela merecia viver ainda um pouco mais em um mundo onde David Bowie estava vivo.
Eu me lembro quando Bowie lançou seu penúltimo disco, The Next Day, em 2013. O anterior tinha sido Reality, em 2003. Ele teve problemas de saúde e praticamente não fez aparições públicas durante esses dez anos. Eu achei muito interessante o comentário de uma jornalista quando o disco de 2013 saiu, de que era surpreendente que David Bowie estivesse afastado há dez anos, pois nós não sentíamos, parecia que ele estava sempre presente, tamanha a sua força na cultura. Eu também atribuiria isso aos seus vários personagens: Bowie se tornou uma ideia, um patrimônio imaterial da humanidade. Igualmente, é bem estranho pensar que são dez anos desde a sua morte. Ele está sempre conosco.
Eu acho que o motivo disso (um dos!) é que ele nos mostrou e nos deu permissão para uma coisa que talvez seja a mais vital para um ser humano (e que eu acredito ser o objetivo central, geral e crucial de uma psicanálise): ser quem se é no instante (tanto quanto quem se quer ser, quem se pode ou se poderia ser), e que é um instante, quer dizer, sempre está e se estará se transformando, pois essa é a essência da vida (e da saúde mental!). Além disso, que se tem (pode-se ter) uma aceitação, um verdadeiro sentimento de pertencimento. O compromisso é com nós mesmos, com o nosso gesto espontâneo que, por mais estranho e inadequado que possa parecer ou ser, é verdadeiro e real. E pode ser extraordinário! É sobre isso que David Bowie não deu aula sobre: ele mostrou, atuou esse fato, para deixar bem claro que isso é possível.
Exemplo. Eu li uma entrevista dele do início da década de 1980 na qual ele dizia que nunca havia sido homo ou bissexual: ele só achou que era uma coisa legal, e uma coisa a se fazer naquele momento, início da década de 1970 com todas aquelas influências do New York Dolls (a androgenia de Ziggy Stardust), do glam rock em geral. Eu pensei: “nossa, vão cair em cima dele com acusações de falso, aproveitador, etc.”. Procurei sobre isso e, para a minha surpresa, não tinha nada, bem pelo contrário. Vi uma entrevista de um coordenador de algum desses movimentos (não me lembro qual) que dizia que não havia nenhuma mágoa com essa declaração de Bowie, pois o que ele tinha feito pela comunidade gay, de “ter libertado” tantas pessoas, era uma contribuição inestimável! Que pessoa famosa recebe esse tipo de reação depois de falar uma coisa dessas?
Talvez só se morra realmente quando se é esquecido, quando, parafraseando o grande Neil Young, se enferruja, desaparece. É por isso que muita gente morre em vida (que é a pior morte). Winnicott faz um relato, muito curto e muito emocionante, em “Medo do Colapso”, de uma paciente sua que se matou. Ele diz que o suicídio não é ato de coragem (ou de covardia como poderíamos pensar) da forma como geralmente é tratado: o suicídio é quando uma pessoa envia para morte um corpo de uma mente que já morreu. Forte né! Ele ainda conta que sua paciente (que sofria de esquizofrenia), ficava pedindo para que ele a ajudasse a se matar pelos motivos certos; ele entende que sua falha foi esta: não ter lhe dito que sua mente já havia morrido. Se ele tivesse dito isso, ele conclui, talvez ela pudesse ter adiado a morte do seu corpo para um processo natural, e vai saber o que teria acontecido até lá...
Nesse sentido, também se vive para sempre, e David Bowie é um dos melhores exemplos, ele nunca fica velho! (Como o título da música que eu adoro de Reality) Eu coloquei o título desta crônica de “Dez anos de falta”: não significa que desapareceu (eu lembro muito bem daquele ano......), só não há mais atualizações.
Por isso que também falei no início que “comemorávamos” dez anos da sua morte. Pode parecer estranho né? É porque nós celebramos a vida dessa pessoa tão extraordinária que nos deu a oportunidade de fazer as nossas vidas tão verdadeiras e extraordinárias também. E, acima de tudo, nossas.
2023... – Fevereiro, 2026.
