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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Encontrando um analista


Não, é claro que isto aqui não é nenhum guia sobre como encontrar o profissional ou mesmo a psicoterapia perfeita; tal coisa não existe: nem o perfeito, nem o guia. Tanto que o título original desta crônica era “como encontrar um terapeuta?”, mas achei que dava mais ainda a impressão de manual, e tenho o costume de fazer títulos que dão a ideia errada do texto (e é muito interessante como um escrito vai se criando/modificando no que vai sendo produzido, como se tomasse vida própria...).

São apenas algumas reflexões sobre este tema (tão vasto que acaba nos levando para outros lugares) que pensei que podem ser importantes neste momento e, aí sim, podem evitar algumas decepções por concepções equivocadas (na minha opinião) que podemos ter eventualmente. Eu também falo com base na experiência de quem já fez algumas indicações (engraçado como até hoje me procuraram pouquíssimas vezes para pedir indicação, minhas colegas devem achar que não encaminho porque não confio...), já foi procurado tantas vezes para tratamento e já fez suas próprias escolhas de analistas.

Antes de qualquer coisa: se você é/quer ser psicólogo clínico/psicanalista, ou seja, quer oferecer psicoterapia para as pessoas, você tem de se tratar. Ponto final! Não há, absolutamente, nenhum tipo de discussão sobre isso. Então, podemos começar por aí, pois terapeutas, em geral, em formação têm uma diferença em seus tratamentos. Por exemplo: se você é/deseja ser um clínico que trabalha com psicologia cognitiva, eu penso que é inevitável que você se trate com alguém desta linha/área. É que o tratamento, nesse caso, tem o caráter formador também, é a única (e necessária) oportunidade que você tem de ver ao vivo como o tratamento que você irá oferecer funciona. Falei um pouco dessas questões em outra crônica.[1] Tirando isso, não vejo a tal linha teórica como algo essencial, nem mesmo para estudantes de psicologia, até porque são poucos os que se tornarão clínicos.

Tomo eu mesmo como exemplo. Durante a faculdade, eu me tratei com uma psicóloga que eu não faço ideia (até hoje!) que “linha” seguia, só sei que não era psicanalista (já chegarei aí). (Interessante como eu não dei a mínima bola para a linha teórica dela... parece que, mesmo sem saber, eu já estava muito mais interessado na relação estabelecida desde aquele período). Ela foi exatamente o que eu precisava naquele momento. Muitas vezes pensei que se, naquela época, tivesse procurado alguns dos que foram meus analistas posteriormente, dificilmente teria funcionado. Pois foi ela que, depois de alguns anos, quando eu já estava bem no fim da faculdade, falando sem parar da minha animação com os estágios (nos quais eu tinha supervisoras psicanalistas), disse-me: “tu pareces tão feliz com isso, falas com tanto entusiasmo, nunca pensaste em te tratar com alguma dessas pessoas [psicanalistas]?”. Nossa, fiquei ofendido, como se ela “não me quisesse mais”. Logo, entretanto, percebi, e debatemos isso, que ela estava totalmente com a razão: se eu queria ser psicanalista, teria de me analisar com um. A sua posição, “perdendo um paciente”, e a sua percepção (antes mesmo de mim!) que eu queria ser um psicanalista, foram de uma clareza e de uma ética que eu nunca esqueci (e levei comigo). Até hoje sou grato a ela (não só por isso, claro).

Então, ainda pensando em estudantes de psicologia, mas de forma geral, já que, como já destaquei, muitos não serão clínicos, eu acho importante que se tratem, não importa a linha teórica, mas sim que seja alguém bom; mais tarde, se for o caso, como foi comigo, faz-se uma “correção de rota”. De resto, alguns gostarão mais de um jeito de trabalho do que outro, mas isso só poderá se saber experimentando.

É sim importante ter as referências da terapeuta a se procurar, o complicado é que, hoje em dia, qualquer zé bunda se “autoenche” de referências mirabolantes nas redes sociais. Uma das melhores saídas é pedir indicação para uma pessoa que você conhece e confia (e também saiba das referências dela!).

Outro ponto relevante e talvez até polêmico, é o dinheiro. São muitas questões envolvidas, vou abordar só algumas que têm a ver com meu ponto principal. Primeiro de tudo: se você realmente não tem dinheiro, não há o que fazer, ainda que as faculdades de psicologia e as instituições psicanalíticas ofereçam tratamentos por preços bem abaixo ou até de graça (ou seja, dá para se tratar!). Agora, eu cheguei a sublinhar o “realmente” acima porque você deve ser sincero consigo mesmo: é normal, e não só com psicoterapia, nós “não termos dinheiro” para coisas que preferiríamos não fazer (e veja, em nenhum momento eu estou negando que análise é super cara!). É que, tirando os sonhadores, a gente se trata porque sofre! (Eu sei que esta palavra talvez seja um exagero, mas já falei aqui no site que eu sou mesmo dramático. Tudo bem, pode-se buscar análise não por um “sofrimento extremo”, mas é para resolver alguma dificuldade, melhorar alguma questão, lidar com alguma situação, mudar algo em nós, quer dizer, é sempre para enfrentar algum problema. Quanto ao entendimento de se analisar para “se conhecer melhor”, como um tipo de “filosofia de vida”, essas coisas, sempre fui e continuo sendo contra. Procure budismo, talvez dê melhores resultados). Ou seja, é uma necessidade (a crônica que já coloquei em rodapé, “Por que fazer análise?”, fala disso também; parece que temos uma sequência aqui).

Eu não quero usar aquele chavão de “você gasta com tanta coisa que não é imprescindível durante o mês, mas não quer gastar com a terapia” (ops, já usei!). Tem lógica, mas, ao mesmo tempo, não faz sentido: a gente gasta com o que não é indispensável porque dá prazer! Não é exatamente o caso do tratamento psicoterápico. Eu sei, por certo, dos ganhos de se tratar, mas aquelas pessoas que falam que amam se tratar e adoram sua terapeuta... ah, ou você está muito no iniciozinho ainda, ou, desculpe a sinceridade, você não está fazendo terapia (ou, ainda, há um elemento masoquista importante aí). Repetindo: você se trata porque sofre, infeliz! Após os ganhos, ok, mas como o processo pode ser assim tão “maravilhoso”? É doloroso sim! E você ainda paga por isso! Vou usar outro exemplo batido.

Você (não sei se exatamente você, mas muita gente) paga academia mensalmente sem se questionar, mas não quer pagar a terapia. Eu sei que um mês de academia é bem menos caro do que um mês de análise... mas a questão não essa. O que quero dizer é, sejamos sinceros: a gente se sente bem depois de um exercício; com o tempo, gostamos do resultado, seja para a saúde ou para a estética, mas você fica super animado para ir para a academia? Fica super animado para sofrer com todos os exercícios? Não dá nem um pouco de preguiça da hora de ir? Ok, talvez eu esteja falando por mim mesmo, mas acho que há uma relação aí. A gente meio que se força no exercício físico porque é bom e a gente precisa (e até tiramos prazer disso eventualmente); não sei se a análise é tão diferente. Não é algo prazeroso (no momento), muitas vezes temos vontade de não ir, mas o combo final, como a academia, parece bem vantajoso. Eu já atendi pessoas (que pagavam bem caro) que acabaram por considerar a análise assim, como o gasto com a academia (ou qualquer outra coisa não obrigatória que inserimos em nossas vidas), ou seja, algo que elas nem se questionavam em cortar; tornou-se um hábito. Eu sei que é um “longo e sinuoso caminho” para se chegar nesse ponto...

O dinheiro é sim algo importante, não é só simbólico como muitos analistas acham que é; a psicanálise não pode se descolar da realidade. Mas não desista previamente de um tratamento por causa disso: além do que já disse de não ter de fato dinheiro, você não pode saber se vale a pena pagar antes de conhecer a pessoa que possivelmente vai lhe atender; e o provável terapeuta também não pode saber os limites da negociação financeira (para os que negociam) até lhe conhecer, moranguinho dourado! Há uma coisa fundamental para o atendimento psicológico: o encontro! Dependendo do encontro, quer dizer, você gostar do terapeuta, e o mesmo ter desejo de lhe atender, a combinação financeira pode acontecer, às vezes até de forma natural. Muitas vezes, quando alguém me manda uma mensagem perguntando quanto eu cobro, eu simplesmente respondo; porém, não me sinto muito bem, parece que faço isso quando estou cansado. Por que? Justamente porque eu não sei se posso combinar outro valor com esta pessoa, pois eu não a conheço! Assim como ela não me conhece para saber se algum valor, qualquer que seja, vale a pena para se tratar comigo. A minha resposta, simples e direta, pode impedir nosso encontro e, assim, eliminar todas possibilidades que poderiam surgir a partir daí.

(Uma pequena nota sobre isso quanto aos psicoterapeutas em formação que falei acima, pois penso haver diferenças aí também. Eu já ouvi pessoas, iniciantes, discursando sobre valores bem elevados que iriam cobrar visando a “valorização do nosso trabalho”. O curioso é que estas mesmas nunca tinham se tratado! Curioso né? Você quer receber muito pelo tratamento que disponibiliza, ser valorizado, mas não se dispõe a gastar um tostão no seu próprio tratamento que é o decisivo para o que vai oferecer? Tem algo errado aí, não?).

É por isso que, na psicanálise ao menos, nós temos algo muito importante chamado entrevistas iniciais (no plural). Serve para o analista poder avaliar seu potencial analisando no sentido dos caminhos do tratamento e de suas ações, assim como para a pessoa que quer se tratar poder ter um vislumbre de como as coisas funcionam com aquele terapeuta. Ou seja, é um momento para que ambos possam se conhecer e decidirem se irão embarcar na aventura de uma análise (épico isso, hein!). Então, é uma escolha mútua, ambos se escolhem (isso mesmo: não é só você que escolhe, o terapeuta também escolhe você, última bolachinha!), mas a gente só pode escolher o que conhece, mesmo que este conhecimento seja no nosso desejo. A partir disso, as combinações são feitas para o início da análise, inclusive as financeiras, que envolvem o valor a ser pago. Temos de entender que estamos lidando com algo diferente. Ainda que os valores de uma sessão de análise possam se equiparar a alguns valores de uma consulta médica ou odontológica, são coisas distintas em sua natureza. Claro que é desejável uma boa relação com o médico, mas não é decisivo como no tratamento psicológico. Em relação ao dinheiro, dá-se o mesmo. Por exemplo: ao saber que o dentista cobra X, você não pergunta se pode ser não é? Claro, é que, salvo caso de boca podre crônica, não se vai ao dentista semanalmente por anos. Dessa forma, havendo o encontro, talvez haja um esforço recíproco e sincero das partes para que possível entrave financeiro seja superado.

Acredite em mim, isso pode acontecer (eu sei que há os profissionais que não negociam os valores sob hipótese alguma, no que não há problema algum também). Por isso, não desista de procurar um analista porque ouviu dizer que ele cobra isso ou aquilo: vá falar com ele! Como uma querida amiga da faculdade dizia: “a tenteada é livre”! Vá, tente: não tens nada a perder.

Tratamento psicoterapêutico é uma coisa muito séria: é muito caro (em todos os sentidos, não só do dinheiro!), temos de escolher bem. Indivíduos que nos dão conselhos, dizem para a gente fazer isso ou aquilo, confie em mim: não são psicoterapeutas! (Não sei você, mas eu tenho amigos que fazem isso – algumas vezes não muito bem, ok – de graça pra mim). São falcatruas que só vão foder (no pior dos sentidos) com você. “Mas, Juliano, o zé cú me fala tudo o que eu tenho de fazer, sinto-me tão bem com isso”. Claro! Alguém te dando as respostas, o caminho. Isso não existe! Psicoterapia não é isso! Uma análise é mais um processo de “libertação”: que a pessoa (o tal “paciente”) possa tomar as rédeas da sua vida, tomar as decisões por si só, não porque o psicólogo disse (pois ele não diz), mas porque, através do processo analítico, isso passou a fazer sentido (ou não) e a pessoa vai seguir o rumo de vida que ela vê como melhor. Afinal, nós (analistas) não temos a mesma concepção do que é bom ou ruim de quem a gente atende, né?

Ainda mais que isso tudo, se você se sentir desconfortável, por qualquer motivo que seja, para falar da sua vida (sim, eu sei que existe resistência, mas não é sempre isso!), procure outra pessoa! Não é a questão da “linha teórica” o importante (salvo para os casos de terapeutas em formação, como falei), mas a pessoa que você procura: pode ser o melhor profissional, mas vocês podem não se encaixar (pelo motivo que for!), o que é crucial para uma análise; não há problema nisso. Siga! Procure outro. Você não namora (espero!) qualquer um, não é? Por quê com um analista, com quem se estabelece uma relação tão íntima, seria diferente?



Agosto/Setembro, 2023.




Este clássico do David Bowie foi escolhido por vários motivos. O talvez menos importante, é que, no fim das contas, parece dizer sobre coisas que acontecem em um (ou após!) tratamento psicológico, né! Além, claro, de ser linda. Peguei este vídeo que está com a tradução.





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