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Eu te escuto...

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • 24 de abr.
  • 7 min de leitura

Outro capítulo do meu histórico de faísca atrasada. Eu já falei que eu sou um tipo péssimo para debates, pois tenho uma impossibilidade de pensar respostas na hora.[1] Em cima dessa minha dificuldade, vou desenvolver alguns pensamentos que vêm disso.

Eu odeio vários tipos de pessoas. Um desses tipos, provavelmente por causa dessa minha lentidão, são aquelas pessoas que exigem sempre um posicionamento sobre seja lá o que for que estiverem falando. Algumas vezes, é claro, eu tenho reações, intervenho com minhas opiniões; porém, em muitas ocasiões eu simplesmente não tenho o que dizer porque eu preciso de tempo para absorver ou pensar sobre o que eu ouvi! Só que, mesmo sem ter o que dizer, tem uma coisa que parece que é desconsiderada e é tão importante: eu estou genuinamente te escutando. Isso não vale nada? Porque eu acho isso o que há de mais precioso.

Já faz uns 20 anos que eu desenvolvo atividades de compartilhamento do conhecimento: seja em sala de aula universitária, seja nos grupos de estudos particular (este próprio site e meu canal no YouTube/Spotify também se encaixam nesse modelo, mas aí são sem as interações “em tempo real”). Em todas as situações, eu habitualmente assumi uma postura que muito me agrada: eu sempre tive a prioridade de incentivar a fala e prestigiar qualquer coisa que os participantes dissessem. Intuitivamente, isso foi de importância primeira para mim desde o início. Por vários motivos.

Eu também já fui aluno de faculdade, já fiz grupos de estudos (posso ainda fazer, claro, só é mais difícil para mim porque eu fiquei muito chato!), eu sei como é ruim falar alguma coisa nessas situações, às vezes tendo de tomar coragem para o fazer, e se sentir falando uma besteira (justamente quando o medo de fazer a colocação era esse!) ao ter suas ideias desvalorizadas. Às vezes, eu brincava, na tentativa de deixar todos o mais à vontade possível, dizendo uma verdade: “eu sou um psicanalista, o que quer dizer eu estou interessado em absolutamente qualquer coisa. Então, por favor, falem, perguntem, observem absolutamente o que quiserem porque sempre vai ter valor, nós sempre vamos aproveitar algo disso”. Ora, além disso, uma clara alusão ao conceito de associação livre, o acaso é o meu tema, é claro que eu acredito que qualquer coisa dita pode nos levar para caminhos imensamente ricos! (Além de que: um encontro com perguntas e participações é muito melhor do que um em que apenas se expõe o conteúdo).

Mas ainda há algo mais essencial... é que eu realmente acredito (e aí certamente é identificação com a minha história) que qualquer ideia pode ter valor, até porque creio que falta muito, nos dias de hoje, um refresco na psicanálise, uma inovação. E temos de ter voz, temos de poder falar, falar muita besteira, com certeza (eu mesmo falo várias!), para que talvez possamos, daqui a pouco, estar começando a criar algo novo. Eu sou muito convicto disso. Afinal, se não há espaço para falar livremente, não tem discussão, e aí como se vai começar a pensar por conta própria e ter confiança nos seus próprios devaneios?

Não é que eu sempre tenha achado tudo o que dissessem ouro, bem pelo contrário, mas havia o mais importante: a capacidade de pensar e dizer o que se pensa, mesmo que fosse atrapalhado ou, à primeira vista, sem sentido. Não são assim que as ideias originais nascem? E eu escutava com muito interesse, de verdade. Eu penso que também seja sobre gostar de escutar alguém falar, o que significa gostar deste alguém (e aí pode ser gostar no sentido de respeitar ou de amar, vai tudo pelo mesmo caminho). Mesmo que o que tu digas possa não me interessar inicialmente, eu gosto de ti, logo, tenho o maior interesse em escutar o que tu tens a dizer. Eu acho isso edificante.

Aqui, podemos nos valer da batida, mas importante em certas ocasiões, diferença que todo o estudante de psicanálise já deve ter visto: entre ouvir e escutar. Ouvir é um ato fisiológico, não exige atenção ou disposição, simplesmente se ouve, mesmo que não se queira. Se o aparelho auditivo está em boas condições, você ouve, passivamente, ponto final. Já escutar é diferente: é uma ação ativa, demanda interesse autêntico de realmente se inteirar do que é dito. Nós ouvimos, por exemplo, um alarme de carro. Não é necessário esforço para isso, simplesmente ouvimos, e nem agradável é. Tanto que, muitas vezes, passa a nem ser mais diferenciado depois de um tempo, torna-se mais um som do ambiente (só nos damos conta quando para e percebemos o alívio que traz), ou seja, é automático. Dessa forma, podemos tranquilamente ouvir uma pessoa sem, de fato, escutá-la. A escuta pede envolvimento, há uma relação, mesmo que momentânea, estabelecida que talvez possamos chamar de empatia, ou até mesmo de amor. É uma grande prova de respeito e de cuidado.

Eu acredito que uma das frustrações mais dolorosas da vida é não ser escutado. Porque a escuta verdadeira significa, muito além de qualquer compreensão (que muitas vezes não é o mais importante), reconhecimento. Reconhecimento de quem se está sendo, de quem se pode ou se quer vir a ser. Eu lembro de quando fui assistir ao primeiro Avatar, de James Cameron: para além da revolução do cinema em 3D e das belíssimas imagens, fiquei muito tocado com a saudação usada pelo do povo Na’vi: “I see you” (eu vejo você). Muito além do que um simples “oi”, e também muito mais do que uma percepção, esse cumprimento condensa um sentimento de aceitação plena, de reconhecimento profundo. Com isso, o entendimento do que se escuta está em segundo plano, até por ele ser uma consequência desse tipo de relação que se estabelece. Apenas entender sem que se veja “mais fundo” quem a pessoa está sendo não vale de absolutamente nada.

Nas supervisões de estágio, quando alunas ficavam muito nervosas com o primeiro atendimento, sobre o que fazer e o que dizer (a ansiedade geralmente é no sentido de “mostrar trabalho”), eu sempre aconselhei: escute a pessoa. Escute com interesse sincero o que ela está dizendo. Muitas vezes, quando não se sabe o que dizer, o melhor é ficar quieto (era algo que eu dizia muito também, e que hoje poderia ser estendido para a população em geral!). Pode não parecer nada, pois dá a sensação de inutilidade, mas é, muitas vezes, o que a pessoa nunca teve na vida: alguém que a escute de verdade e sem julgamentos. Eu acho que temos o impulso quase natural de tentar ajudar, de fazer alguma coisa quando alguém nos coloca um dilema de qualquer tipo; porém, não são poucas as vezes nas quais a pessoa não está procurando por um conselho exatamente, mas sim por simplesmente ser escutada de verdade. “Só” isso. É simples. E é muito difícil de fazer e muito revolucionário de receber.

Quando falo desse acolhimento respeitoso e carinhoso que a escuta fornece, estou pensando em quando Winnicott fala da “alegria de estar escondido e o desastre de não ser encontrado”, um de seus tantos paradoxos.[2] Ser encontrado não é ser exposto, mas ser reconhecido. Essa premissa é central na sua teoria do desenvolvimento emocional: o acolhimento do gesto espontâneo pelo ambiente que permite que o indivíduo crie uma vida própria e pessoal e, assim, verdadeira. E esse processo se torna possível justamente porque nós, como psicanalistas, esperamos.[3] Talvez essa possa ser a “arte” da psicanálise,[4] a arte de esperar a hora adequada para falar e o que falar, a fim de que não se agrida ou invada a essência tão preciosa da pessoa intervindo cedo demais, tarde demais, ou simplesmente demasiadamente. Seguindo uma linhagem da psicanálise ontológica, termo cunhado por Thomas Ogden, vivenciar junto (onde o escutar dessa maneira é um pilar) é muito mais importante do que entender para decifrar significados.

Nesse sentido, vemos uma unicidade do trabalho do psicanalista: o estabelecimento de uma relação única, especial. A pessoa se encontra, muitas vezes, exausta de falar ao vento, naquela situação em que só falta desenhar para que alguém a compreenda. Ser compreendido é algo extremamente raro, pois estamos falando de ser escutado, ser reconhecido nas suas questões mais íntimas sejam quais forem, não do entendimento intelectual ou dos desvelamentos de verdades inconscientes de desejos escondidos tão exaltados na psicanálise que Ogden chama de epistemológica. E é aí que esta pessoa encontrará na vivência analítica com o seu psicanalista uma experiência inédita e, a partir disso, transformadora. Mas olhe que interessante: não é transformadora exatamente por entendimentos e/ou descobertas de traumas ou seja lá o que que estão escondidos; é revolucionária por ser um espaço onde ela poderá ser ou vir a ser quem ela é ou está se tornando baseado na sua realidade.

 

Aglaia conta ao príncipe Míchkin (“O Idiota”, do grande Dostoiévski) que quer fugir, mas não só de casa: “eu quero ser corajosa e não ter medo de nada. Não quero ir aos bailes deles, eu quero ser útil... Eu nunca vi nenhuma catedral gótica, quero ir a Roma, quero olhar todos os gabinetes dos cientistas, quero estudar em Paris... li todos os livros proibidos... quero mudar inteiramente a minha condição social”. Ela propõe que os dois juntos podem ser úteis, e que ela não quer ser a “filha do general”. Ela quer mudar de vida, ela quer descobrir quem ela é, ou até talvez ela queira ser quem ela sente que é, mas o ambiente/sua família a impede de criar. Ela faz seu pedido ao príncipe: “Eu não quero, eu não quero que lá em casa vivam eternamente me fazendo corar. Não quero corar nem diante deles... nem diante de ninguém, e por isso eu o escolhi. Com você eu quero falar de tudo, de tudo e até do mais importante quando me der vontade; por sua vez, você não deve esconder nada de mim. Ao menos com uma pessoa eu quero falar de tudo como se falasse comigo mesma”.

Quem acha alguém assim, que oferece colo incondicional para a fala que permite a pessoa existir a partir disso, ganhou na loteria. É muito raro. Deve ser cultivado e valorizado com carinho e cuidado.

 

 

Março/Abril, 2026.









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