Noites, estradas e estrelas
- Juliano Corrêa

- 29 de mai.
- 7 min de leitura

Vou falar apoiado em um tema que não me convém: a pintura. Eu não entendo nada de artes plásticas e nunca tive interesse nelas. É claro que existem exceções: há obras que eu gosto, acho belas, ainda que não me causem a afetação emocional que, por exemplo, uma música ou um livro podem me causar. Dentre essas poucas exceções, está Vincent van Gogh. Seus quadros produzem algo forte em mim (como não tenho conhecimento técnico, não sei dizer o que é, mas talvez não precise, pois não se trata disso, não é?). Tanto isso é verdade, que eu tinha três quadros dele (não originais, por certo!) no meu antigo consultório: na sala de espera, havia um da sua série de girassóis (que é o que menos me agrada...); na antessala, o “Terraço do café à noite”, que me provoca um impacto muito profundo (por ter um bar e ser à noite, já vou chegar nisso); por fim, tinha o seu quadro mais famoso, “A noite estrelada”, na parede onde o divã ficava encostado. Este último talvez seja o meu quadro preferido (ainda que eu goste das pinturas surrealistas): é de uma força e beleza extraordinárias, faz sonhar. Deixarei imagens dessas pinturas no fim desta crônica; ainda não cheguei no quadro que me faz escrever agora.
Eu já li que não existe esse papo de ser naturalmente uma “pessoa noturna”: nossa espécie, o homo sapiens, é biologicamente diurna, é feita para estar ativa sob a luz do sol, ou seja, acordar quando há luz e dormir quando fica escuro. Porém, a ciência também nos diz que há uma predisposição biológica para se estar mais ativo em determinadas partes do dia, o cronotipo, e, desta forma, temos as pessoas de cronotipo vespertino, também chamadas de “corujas”. Bom, eu sou, sem sombra de dúvidas, extremamente coruja!
Se eu tenho, como tantas vezes na vida, compromissos (geralmente profissionais) que me obrigam acordar super cedo e tal, eu consigo fazer. Agora, sempre foi muito claro para mim que eu só começo a funcionar mais 100% lá pelo meio da tarde; à noite, eu estou com tudo! Eu lembro no ambulatório onde estudei psicanálise: minhas colegas reclamavam dos atendimentos no fim de tarde: estavam cansadas e queriam ir para casa; já eu, estava no meu pico. Seguindo nesse exemplo, não tenho o menor problema em atender à noite, até mais tarde da noite; por outro lado, sempre foi praticamente inviável para mim atender (ou ser atendido!) cedo da manhã. A vida inteira eu falei para as pessoas que não adianta entrar em contato comigo pela manhã: eu vou estar dormindo, e se estiver acordado, acordei por obrigação para fazer algo, então, estarei ocupado.
Eu não sei, mas eu sempre me senti mais à vontade e com vontade à noite, a partir de quando começa a escurecer (talvez eu seja um vampiro e ainda não saiba!). Tirando tomar banho de sol, eu tenho dificuldade em pensar em algo que eu prefira fazer durante o dia. Então, eu sempre fui atraído pela lua, pelas estrelas, pelo céu à noite. Isso foi um elemento essencial, desde criança, para o desenvolvimento das minhas curiosidades e ideias, algumas das quais eu me ocupo até hoje, agora de forma “séria”. Sempre fiz o meu trabalho (que não envolva outra pessoa) de forma muito mais produtiva à noite (inclusive, podes ter certeza de que esta crônica está sendo escrita à noite, provavelmente bem tarde da noite!). Há algo misterioso e bonito na noite. Enfim, não vou começar a romancear, mas eu simplesmente tenho mais prazer em viver de noite do que de dia. Agora sim, voltemos a Van Gogh.
Não faz muito tempo que descobri um quadro dele que eu não conhecia: chama-se “A estrada de Provence durante a noite” (ou também “Estrada com cipreste e estrela” ou “Estrada rural em Provence à noite”), e é a imagem que ilustra esta crônica. Eu achei a pintura maravilhosa! Há uma relação desta com “A noite estrelada”, pintada um ano antes: ambas retratam paisagens noturnas da mesma região, Provence, na França. Só que esta da estrada de Provence me tocou de uma forma diferente. Eu acho que porque nesta aparecem os caminhos. O caminho à noite. Há uma carruagem com pessoas, há dois caminhantes, há, já destacada no título, a estrada. E há a lua. E uma estrela. E é à noite. Talvez a imagem tenha me capturado tão forte e instantaneamente desde a primeira vez que a vi por uma combinação de fatores. As pessoas caminhando na estrada à noite (e com aquele céu!) me provoca algo muito profundo.
Eu acho que o mais básico é que o quadro me remete aos caminhos que tomamos, ou seja, as escolhas que fizemos. Há uma só estrada na pintura, mas, de alguma forma, o clima todo dela me remeteu aos vários caminhos que surgem, às vezes até imperceptíveis, nas nossas vidas e que, mesmo sem querer e mesmo sem nem saber em certas ocasiões, escolhemos um para seguir. Você já deve ter ouvido a ideia de que quando fazemos uma escolha, automaticamente abrimos mão de todas as outras possibilidades. Isso pode ser discutido, já que eu acho quase todos os ditos populares uma besteira,[1] mas traz sua parte de verdade, então deixemos assim por agora. De uma maneira ou outra, eu sempre fui fascinado por aquilo que poderia ter sido, e é ao espírito disso que me remete a pintura de Van Gogh.
Eu não estou em referindo a um sentimento nostálgico (do que não foi!)[2] ou melancólico (do que se “perdeu”). Eu estou falando sobre uma temporalidade que na psicanálise foi sempre desmerecida, geralmente vista (quando vista) como algo a ser “superado”, uma resistência ou parte de um sintoma, mas que tem uma importância talvez até maior do que o presente ou mesmo o passado, tão querido dos psicanalistas (o futuro, via de regra, não importa). São brechas bem pequenas que temos como base para isso, mas as temos. No seu estupendo (e curto!) artigo “Medo do Colapso”, em um item intitulado “vazio”, Winnicott escreve que o vazio que algumas pessoas precisam vivenciar (em análise) é do passado, mas um passado no qual não havia maturidade, então não pôde ser experenciado. Isso, ele explica, não decorre de um trauma, mas de nada acontecendo quando algo poderia ter acontecido. Ele repete: é mais fácil lembrar de um trauma do que nada acontecendo quando poderia ter acontecido: nada é experenciado, exceto notar que algo poderia ter sido. Poderia ter sido... O destaque não é para o passado ou para o presente, é para o futuro do pretérito composto.
Brevemente, eu chamo a atenção para dois pontos. O primeiro, é que Winnicott não fala sobre algo que deveria ter acontecido, como uma fase necessária do desenvolvimento ou algo do tipo, ele diz sobre o que poderia ter acontecido, ou seja, passa a impressão, para mim, de algo mais aberto, mais flexível ou adaptável, mais ao acaso. A segunda coisa que quero ressaltar quando Winnicott trata desse passado que ainda não ocorreu (porque o paciente não estava lá para vivenciar) e, assim, não pode ser lembrado, fazendo com que a única “solução” seja experenciar o colapso no presente (na transferência com o analista), é que ele diz que essa coisa passada e futura se torna uma questão do aqui e do agora (e que será vivenciada pela primeira vez). O que vemos aqui é uma superposição (e eu diria emaranhada!) de passado, presente e futuro (e, sobretudo, o futuro do pretérito composto) que permite pensar em uma derrocada da temporalidade linear tão cara para a psicanálise (mesmo com noções como a duvidosa “regressão”) em favor de uma temporalidade integral, que seria algo próximo ao que Thomas Ogden tratou como tempo sincrônico.[3]
Com esta temporalidade integral, a análise dos nossos caminhos fica mais incrementada e mais próxima da realidade. Com tudo fazendo parte (o que aconteceu, o que não aconteceu, e o que poderia ter sido), rompe-se a simples ação de causa e efeito (que muitas vezes se mostra altamente infrutífera) e se inicia um relacionamento muito mais profundo com a experiência do paciente, o que nos propicia uma verdadeira vivência em conjunto.
E, no fim das contas, não é (ou deveria ser!) este o objetivo de uma psicanálise? Que cada um possa encontrar o seu caminho, ter o seu lugar no mundo. Isso é o mais fundamental e, muitas vezes, precisa-se de uma companhia nesta estrada, alguém, na expressão que eu adoro de Winnicott, que está lá sem fazer exigências, ou seja, que acolhe e reconhece quem a pessoa está sendo. Ou quem ela poderia ter sido, que é tão importante quanto.
Uma escolha, agora podemos pensar assim, muito mais do que a perda das outras possibilidades, é um encontro com o novo. Um encontro de caminhos muitas vezes inesperados, que faz com que acabemos por trilhar por estradas nunca antes imaginadas, talvez até desejadas somente em sonhos, o sonho “comum”, não aquele de desejos inconscientes. E para mim, como bom coruja, parece que sempre essas escolhas de caminhos, as “encruzilhadas da vida”, se dão à noite. Talvez por isso também que o quadro de Van Gogh tenha me tocado tanto.
Aquilo que não se escolheu não se perde, o que chega a ser uma obviedade. Lavoisier (lembra das aulas de química do colégio??) dizia a famosa frase sobre a sua Lei da Conservação das Massas: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (eu só discordo dele quanto ao “nada se cria”...). Melhor ainda é a interpretação dos muitos mundos da mecânica quântica: a escolha não feita não desaparece, mas cria outro universo com as consequências dela, tão real quanto este, só que virtual. Assim, no nosso caso, o caminho não trilhado fica sendo o que poderia ter sido, e é parte essencial tanto quanto o que aconteceu, o que está acontecendo ou o que vai acontecer. São os eventos da nossa vida que estão todos, ao mesmo tempo, fazendo de nós que somos agora.
E à noite as coisas acontecem.
Dezembro, 2025... – Maio, 2026.
[3] Neste vídeo, eu exponho o capítulo do livro de Thomas Ogden no qual ele desenvolve suas ideias sobre o tempo analítico: https://youtu.be/i-E162TqfzY

"Café no terraço à noite", pintada em Arles, na França, em 1888.

"A noite estrelada", pintada em junho de 1889.

Alguns dos Girassóis. São duas séries de pinturas que totalizam onze quadros. Uma série produzida em Paris (quatro quadros), e outra produzida em Arles (as outras sete pinturas).


