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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

O tal movimento punk


Esta é a legítima "crônica anunciada" (mesmo que ninguém tenha lido o anúncio). O livro “Mate-me por favor: uma história sem censura do punk”, de Legs McNeil e Gillian McCain, em dois volumes, foi uma das coisas boas (tinha de ter alguma coisa boa né!) que tive no isolamento da pandemia. Eu gosto muito de ler livros sobre história (em geral) da música, de ver documentários e entrevistas, até de gente que não gosto, e este livro foi um dos mais deliciosos. Ele é todo escrito através de trechos de entrevistas das pessoas que vivenciaram o “movimento” punk. Ficava sempre pensando no enorme trabalho que deve ter dado juntar todos os excertos de maneira a formarem uma história inteligível para o leitor, pois o resultado é ótimo! Claro, quem é mais conectado com esse tipo de som, tem algum conhecimento dos artistas/músicas falados, vai ter mais prazer; porém, mesmo para quem não conheça, as histórias são sensacionais! É de se ficar impressionado por Iggy Pop ainda estar vivo, por exemplo. Ainda que já tenha morrido, o mesmo vale para Dee Dee Ramone: como ele durou até 2002? Dá sim vontade de ficar só contando as histórias, mas eu acho isso, geralmente, bem chato para quem ouve. Dentre tantas possibilidades, há uma coisa que quero falar sobre o punk.

Coloquei o título de tal movimento punk, e o “movimento” entre as aspas acima por uma razão muito simples: o punk não foi, de forma alguma, um movimento. Só depois, afastando-nos, é que o consideramos assim por todas as óbvias razões. Em si, nunca foi. Isso é interessantíssimo para o nosso “projeto” sobre o acaso, esta denominação retroativa, ou seja, encontra-se, neste caso, um movimento olhando para trás, que é como muitas pessoas “eliminam” a possibilidade do acaso, sem nem terem vergonha da besteira que estão falando... Por que eu afirmo tão absolutamente que não foi um movimento? Qual diferença para outros?

Eu não procurei estudar o que caracterizaria um “movimento”, então, é um entendimento meu. Mas o movimento hippie, por exemplo, tinha objetivos, que talvez possam ser condensados na ideia de liberdade: mudar o mundo e os costumes, sonho de paz – e amor. Inimigos estavam bem definidos (começando pelos próprios pais que simbolizavam o conservador). Assim como tinham heróis libertários e eram contra a guerra. Havia ideais pelos quais lutavam, o que não queriam e não concordavam e, por causa ou consequência disso, tinham um estilo próprio que foi criado por se coadunar com suas metas. O punk não tinha nada disso. Era completamente anárquico.

Sexualmente também. Enquanto os hippies pregavam o amor geral, que tem a ver com uma tão significativa liberdade sexual para ser quem se é, os punks queriam gozar, algo que lhes era negado. Não era experimentar ou expandir sua sexualidade. Há relatos disso: o cara não era homossexual, mas era mais fácil gozar com um homem, então, está tudo ótimo! Talvez possamos ver origens disso em David Bowie, que “posou” de bissexual sem nunca ter sido, mas porque era legal e, mais ainda, importante mostrar que o ser diferente também poderia ser aceito e magnífico. Mas isso já é outra conversa.

Inclusive, o movimento hippie foi uma das causas do punk. Aquelas pessoas que estavam usando drogas, vivendo de amor, esse tipo de coisa, tinham saído da casa dos pais para viver esta experiência. Porém, começou-se a ver uma diferença, principalmente quando a mobilização deu sinais de que poderia ruir. Muitas daqueles indivíduos vinham de famílias estruturadas, talvez ricas, rebelaram-se contra os pais porque fazia parte do pacote; já outras, entraram naquela onda porque realmente eram odiadas pelos seus pais, tinham problemas graves em casa. Ora, o primeiro grupo poderia tranquilamente voltar para a casa dos pais quando aquela curtição terminasse; já o segundo, não: simplesmente não tinham para onde ir. Então, já nessa época, fim dos anos 1960, começou-se a ver certa dissidência, um grupo que perambulava pelas ruas, mostrando-se perigoso e violento, com um comportamento mais “punk”.

A questão, muito séria, era das pessoas que não tinham em que ou em quem se espelhar. Com vidas/famílias disfuncionais, não tinham futuro (se você lembrou da música dos Sex Pistols, ok, chegarei aí). Daí que veio o “faça por você mesmo”: não era um estilo, mas uma necessidade. As bandas/estilos que os punks odiavam não tinha a ver com aquela coisa (que eu até concordo) de que para se fazer o novo há de se destruir o antigo, era uma questão de sobrevivência. Um exemplo: o Led Zeppelin era uma das bandas execradas por eles (assim como também era todo o rock progressivo). Por que? Era a maior banda do mundo, mas o Led Zeppelin “inventou” o chamado “rock and roll lifestyle”, um estilo de vida glamoroso, com todos os excessos imagináveis (e os inimagináveis também), completamente alienados do mundo, tudo isso bancado por quem tem muito dinheiro. Ainda, os quatro membros eram virtuoses e demonstravam isso (muito bem, por sinal!). Mais para o fim da banda, que durou 10 anos, o virtuosismo passou a incomodar um pouco os próprios fãs, com músicas durando 30, até 45 minutos devido aos longos solos ao vivo! Como que uns fodidos que não tinham nem dinheiro para comprar um instrumento iriam se identificar com isso? Se tal coisa era para ser alcançada, ou seja, impossível, o que restava? Tanto que Iggy Pop disse uma vez (os Stooges talvez foram a primeira banda punk de fato), perguntado qual era sua maior contribuição para a música: “eu ajudei a acabar com os anos 60”. Por isso se juntaram os degenerados. Muitas daquelas pessoas, a começar pelo Velvet Underground, são descritas como marginais, arruaceiros, cometendo delitos mesmo (as histórias mostram isso). Joey Ramone, vocalista dos Ramones, era esquisito, solitário, com diagnósticos psiquiátricos e passagem por hospício: isso era considerado legal por aquelas pessoas, tinha um valor.

O “fazer por si mesmo”, muito mais que uma “rebelião contra o sistema”, quer dizer: já que não tenho modelos, eu mesmo tenho de fazer algo que me represente! Houve um local central que, por puro acaso, acolheu essa gente, o bar CBGB em Nova Iorque (na foto desta crônica, sou eu na frente de onde era o bar; o famoso toldo – e só ele – ainda continua), onde essas bandas poderiam se apresentar e esse público podia curtir com (extrema) liberdade. E foi um celeiro maravilhoso: Talking Heads, Blondie, Ramones, são apenas algumas das bandas que tiveram seu lugar no mundo por causa daquele bar, isso sem falar, posteriormente, nas que tiveram sua primeira chance nos Estados Unidos lá, como The Police, que falei um pouquinho em outra crônica.[1]

Houve, tão importante quanto, uma revista! Qual era o nome da revista? Punk! Legs McNeil, que, não por acaso, escreveu o livro, era um dos criadores/editores e foi quem cunhou a expressão “punk”, que não era corrente na época como é hoje, foi uma inovação. O objetivo da revista, segundo ele, era falar sobre caras “legais como nós”, que “gostavam de hambúrgueres” e de “música boa”. Com qual publicação aquelas pessoas iam se identificar? Com a Rolling Stone? Por um desses acasos magníficos, eles conseguiram, no CBGB, uma “entrevista” com Lou Reed, que foi a capa do histórico primeiro número. Logo ele: símbolo do “pré-punk”, com o Velvet Underground, e famoso por odiar entrevistas (e constranger entrevistadores). Na verdade, ele fez piada com aqueles meninos, mas, como o próprio McNeil falou: o que importa? Temos Lou Reed para a capa da nossa revista!

Não sei se você também, mas eu, durante muito tempo, achava os Sex Pistols como, se não criadores, mas o auge do punk. Não, eles foram o fim! A Inglaterra (onde eu também achava que punk tinha nascido) foi o fim daquilo que não teve exatamente um começo, pois não foi um movimento. Malcolm McLaren, personalidade tão proeminente nessa história, trabalhava com moda e se associou ao maravilhoso New York Dolls, grande precursor do punk lá nos inícios dos anos 1970. Sabedor do que estava acontecendo nos Estados Unidos, anos depois, em Londres, criou sua própria banda punk. Eu gosto muito dos Sex Pistols, não me entenda mal, é só que nesse sentido que estou abordando, foi uma banda montada, em vestimentas, atitudes e música (McLaren exigiu a composição de músicas paralelas ao que tinha visto nos Estados Unidos), para determinado objetivo. Não é que os punks de Londres fossem falsos, acredito que muitos compartilhavam das mesmas angústias, mas já era uma coisa do tipo “tenho de me vestir assim, me comportar assado para fazer parte deste grupo”.

Originalmente, os punks se vestiam daquela maneira desgrenhada porque era o que tinham para vestir! Com os precursores, havia muito glitter, purpurina e homens em roupas de mulher (como New York Dolls ou David Bowie); já o punk mais “puro” tinha as jaquetas de couro, as calças (e roupas em geral) rasgadas, os tênis esfarrapados. Ora, isso não era um estilo escolhido como foi depois os cabelos espetados londrinos, onde as pessoas se vestiam assim porque era assim que aquele grupo se vestia (como os estudantes de direito usam gravata e as psicólogas usavam echarpe!), mas na cena punk de Nova Iorque era assim porque eram as roupas que se tinha! Boa parte deles nem tinham onde morar, faziam biscates (prostituindo-se, inclusive) para conseguir algum dinheiro para ter o que comer (ou se drogar mais comumente). A roupa era a que conseguiam! O “estilo” foi algo construído posteriormente. Entende esta diferença? Há relatos de pessoas de Nova Iorque que estiveram em Londres naquela época e ficaram apavoradas (com a violência também), dizendo que não se tratava daquilo. O “movimento” estava desvirtuando. Tanto é verdade que depois de Londres houve o “pós-punk”, a new wave, etc. O punk em si terminou ali.

Aquelas “regras” musicais do punk (eu pelo menos sempre soube disso) de solos serem proibidos, das músicas serem curtas, etc., tudo isso também foi algo posterior, nesse momento mais “artificial” que falei. Havia, claro, a ideia de se distanciar do rock progressivo e esse tipo de coisa (como o Led Zeppelin), mas falta de solos era também por alguns nem saberem tocar direito, o que não deveria inviabilizar que se fizesse música (que era como se sentiam); porém, tinha sim (qualidade): ouça “Marquee Moon”, do Television, composição de 10 minutos com um longo e maravilhoso solo. A questão não era essa, mas sim compor algo que os representasse, pois era o que sentiam falta. Acabou sendo desse jeito de forma natural, não havia esse pressuposto originalmente. Talvez a maioria dos movimentos não tenham, mas o punk continuou a não ter; quando teve, terminou.

Richard Hell foi uma figura muito importante na cena punk. Guitarrista do início do Television, saiu da banda por discordâncias com Tom Verlaine, seguiu a carreira com os Heartbreakers e, depois, com os Voidoids. Esta última banda foi a primeira de rock a tocar no CBGB, inaugurando a casa como lugar do punk. A música que dá nome ao seu primeiro disco também poderia resumir aquela geração de acordo com as ideias que venho falando: Blank Generation, uma geração em branco. É dele também que veio o título do livro que me fez escrever esta crônica. Hell tinha uma camiseta com um alvo desenhado e escrito “please kill me” (por favor me mate). Richard Lloyd, o outro guitarrista do Television, resolveu usar a camiseta. Então, ele conta, alguns fãs, com um olhar psicótico e alucinado, perguntaram se era sério o que a camiseta dizia: eram os maiores fãs, relataram, e ficariam felizes em obedecer! Claro, ele nunca mais usou a camiseta.

Essa energia toda, furiosa e vingativa, gerou aquela música poderosa e apaixonante, aquele comportamento genuíno: encontravam-se pessoas desgarradas que tinham, finalmente, algo em comum. E o que era?

É o que já disse: a cena punk não lutava a favor ou contra nada (talvez por isso tenha terminado do jeito que terminou). Eles queriam um lugar para si no mundo. É a maneira que eu entendo, e está de acordo com tantas crônicas que já escrevi (seguindo o pensamento de Winnicott). Os hippies ou outros não queriam? Acho que sim, mas os punks tinham uma necessidade de sobrevivência, estavam como que lutando literalmente por suas vidas, ou, melhor, por poderem simplesmente ter (direito a) uma vida, não só uma vida melhor ou algo do tipo. Citando novamente a blank generation, talvez o pior seja passar a vida em branco, no sentido de não viver de fato, um falso self por assim dizer; eles fizeram, do jeito deles, o que era possível para estarem vivos. Esse era o “objetivo” da cena punk. Tentavam, da forma mais drástica, ter um futuro.

“No future, no future for you!”

 

 

Outubro, 2023.



Este vídeo é da música desta crônica (no Instagram). Não poderia ser outra. Em primeiro lugar, porque talvez Iggy Pop seja a figura mais icônica do punk (não por acaso, é chamado de “padrinho do punk), aquele que praticamente inventou o stage dive (quando o vocalista se joga em cima do público), mas de maneira muito mais extrema: Iggy se cortava e sangrava no palco, assim como também vomitava em cima do público! No livro, há um relato de uma pessoa (não lembro quem) que, lá naqueles anos, falou com ele no camarim, antes de um show num bar, e ficou encantado (como todos eram por ele): disse que era uma pessoa amável e encantadora, parecia um anjo! Essa pessoa disse que ficou apavorada quando ele subiu no palco. Havia se passado apenas vinte minutos (ela pensou até no que ele tomou nesse tempo), e Iggy subiu ao palco completamente alucinado!

Em segundo lugar, este vídeo dos Stooges sendo introduzidos no Rock and Roll Hall of Fame, em 2010, é, ao mesmo tempo, totalmente constrangedor e absolutamente fabuloso, o que eu acho que exprime o que foi o punk. Como é isso? É que a apresentação é, como não poderia deixar de ser, punk, mas o público não! Quando Iggy desce do palco, sem camisa, e tenta incendiar a plateia (gritando "agora eu quero ser o seu cachorro"!), é muito embaraçoso os olhares e sorrisos amarelos: aquele pessoal, de gravata, vestido longo, pele, não faz ideia do que está vendo (primeira vez que vi, fiquei com medo que ele fosse subir e/ou se jogar numa daquelas mesas, cortar-se com os copos, aquela coisa toda que ele fazia 40 anos atrás!). Só que aí, quando ele volta para o palco, Billie Joe Armstrong, do Green Day, aparece tocando guitarra, Iggy diz que uma criança subiu no palco. Com a temperatura subindo, ele (e Billie Joe também!) começam a chamar todo mundo para o palco; Eddie Vedder, do Pearl Jam, é um dos que sobe enlouquecido. Iggy, então, começa a chamar “não famosos” também, dizendo coisas formidáveis, tipo: “vamos colocar umas garotas ricas aqui em cima, vamos colocar alguns garotos ricos aqui em cima”, “me mostrem que vocês não são ricos demais para serem legais”, e ainda “vamos colocar um pouco de Upper East Side (bairro rico de Manhattan) aqui no palco”. Finalmente, umas poucas dessas pessoas sobem ao palco, desajeitadas e parecendo não pertencer naquele ambiente, mas curtindo e felizes! É um soco no estômago; como o punk sempre foi.


E aqui o "God Save The Queen", dos Sex Pistols. É um clássico.


Por último, para quem tiver interesse (e entender inglês), a apresentação dos Stooges no Rock and Roll Hall of Fame. É Billie Joe Armstrong que, notadamente emocionado, dá uma visão bem precisa do tamanho desta banda (citando, já na abertura, o livro que fez eu escrever esta crônica), falando como Iggy mudou a maneira de se pensar o rock com sua extrema poesia crua e violenta, e citando uma lista muito grande de bandas que existem por causa da personalidade dos Stooges e, digo eu, do punk. A fala de Iggy Pop, como não poderia deixar de ser, é memorável. A começar, logo de início, com gesto mandando todos se foderem! O reconhecimento dos Stooges era, nas palavras de Iggy, como a submissão de Woodstock ao punk: "nós vencemos! Não vencemos muito, estamos começando agora"; "aqui estamos, na barriga da besta, muito dinheiro e poder aqui neste salão, é uma grande indústria"; "é hora de acordar este lugar, nós vamos tentar musicalmente"; "música é vida, e vida não é um negócio"; "todas as pessoas pobres, que de fato começaram o rock, são legais". Tudo com um sorrisinho irônico (e com a sua mulher deslumbrantemente linda na plateia, pois Iggy Pop, além de lindo, é realmente um cara cool!). Quando os outros membros da banda vão falar, ele já está abrindo a camisa para a sua performance kkkkkk. Uma pessoa extremamente necessária. Como eu fiz este site para falar das coisas que eu gosto, está aí este vídeo!



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