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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

O texto vivo


Há pouco, eu publiquei uma crônica[1] na qual, bem no início, por causa de uma simples mudança do título inicial que eu havia pensando, comentei como era interessante a sensação de que um texto vai assumindo vida própria, modificando-se e tomando seus próprios rumos, alheio à nossa vontade e/ou planejamento, como se se produzisse por si só. Isso não é, por certo, nenhuma novidade, eu mesmo já ouvi várias vezes escritores falando, cada um a sua maneira, desse tipo de coisa. Eu só vou refletir sobre, pensar nos caminhos por onde isso vai, e também pensar no oposto: o texto morto.

Ainda que eu esteja ciente de diferenças entre um escrito literário e um acadêmico (mesmo que não concorde com muitas delas), penso que qualquer composição seja semelhante se pensarmos nessa autonomia que ela adquire. Podemos, então, pensar não em um texto exclusivamente, mas qualquer obra. Seja o que for que estamos criando, geralmente, temos um plano inicial; esse plano, invariavelmente, acaba não sendo seguido à risca. Eu acho que o principal motivo disso é que, no fim das contas, há uma distância entre aquilo que a gente imagina e o que vai ser construído de fato ao se escrever (ou produzir qualquer outra coisa). Parece haver um choque entre a fantasia e a realidade aí, entre o que almejamos e o que se torna possível ou necessário. Enfim, nada demais: é assim que funciona, nós só conseguimos ter noção maior do que estamos realizando quando estamos, de fato, já desenvolvendo. Qualquer um que já fez algum trabalho na faculdade ou mesmo no colégio, já se arriscou a compor algum poema, história fictícia, música, pintar um quadro, enfim, sabe o que é isso.

Até aqui, eu estou falando sobre modificações da ideia inicial que ocorrem, como já disse, por necessidade real, lógica ou até estética: aquilo que havíamos vislumbrado não fica tão bem na prática como parecia na nossa cabeça. Porém, não é isso ainda que faz o texto “ganhar vida própria” como destaquei no início. É que essas mudanças, por maiores que venham a ser, ainda estão meio que sob o controle do autor, ainda são frutos do plano inicial, mesmo transformado. Eu acredito na existência de um instante além.

É difícil descrever o que é sobretudo formado de sensações. Eu sinto (e vejo, por que não?) um limite, por assim dizer, que ultrapassamos e que, mesmo que continuemos a ser nós quem escreve, parece que o texto mesmo tomou as rédeas das rotas, e nós somos mais levados do que ter um lugar de comando que, afinal, talvez não passe de uma ilusão que criamos para fazer o que deve ser feito, seja por obrigação ou por desejo.

Claro, não estou falando sobre uma perda total de controle, nem sei se isso é possível de acontecer nisso que estamos abordando. É um sentimento contraditório que surge: como se o texto não nos pertencesse mais, ainda que seja justamente aí que ele leva mais do que nunca a marca do autor. Só que isso não parece ser um processo natural de qualquer produção. Há um elemento essencial que “permite” que esta independência aconteça. Eu chamo de acaso.

Para todas (forma muitas!) as pessoas que eu orientei em seus TCCs (veja, um trabalho acadêmico, mas reafirmo que vale para qualquer criação), quando estávamos naquele momento inicial de definir o tema, etc., a única “dica” que eu dava era que a escolha deveria ser pessoal. Isso é delicado e complicado de explicar. De forma alguma eu sugeria que o trabalho fosse transformado em tipo de diário ou cruzada pessoal; acredite: é um bilhete para o desastre em um empreendimento com esse. Só que quando optamos por uma temática por motivos alheios a nós (como ser “fácil”), sem que exista envolvimento algum de um tipo de curiosidade ou impulso que vem mais das entranhas, tem-se, ao fim, uma coisa insossa. É aquele tipo de trabalho que está tudo ok, não há nada de ruim para falar sobre, mas tampouco algo de bom: pode-se facilmente dormir enquanto se lê. Não há emoção, não nos move do lugar, entende? Isso é o texto morto. Nos meus tempos de formação, escrevi uma crônica intitulada “psicanálise morta”; ali, eu queria falar da psicanálise sem imaginação, na qual a gente não cria nada, só reproduz, e ainda aquilo que talvez nem seja reproduzível. Eu acho que a gente se fode muito indo pelo caminho da inventividade, mas ainda o prefiro do que o trabalho meramente burocrático (por mais que possa ter o seu valor). Óbvio que encontrar esse ponto exato de inflexão é das tarefas mais difíceis. Até porque se arrisca tremendamente; deve-se estar disposto a pagar o preço (que pode vir a ser cobrado).

Eu entendo esse tipo de envolvimento como o que pode transformar um trabalho comum em algo mais. Sim, não é isso, é preciso também talento, tempo, conjunturas favoráveis, etc.; porém, a relação afetiva é parte imprescindível. Metodologicamente, falando de trabalhos acadêmicos, é o que chamamos de estabelecer uma “relação transferencial” com o texto, em um método psicanalítico. Mesmo em trabalhos não acadêmicos, penso que isso se mantém. Talvez exatamente por causa dessa relação estabelecida, vemos outro fenômeno correlato ao que estou falando: a dificuldade para terminar algo desse tipo, pois não existem revisões suficientes para que achemos “pronto”! O momento em que, finalmente, decidimos (ou alguém decide por nós!) encerrar não significa que está concluído de fato, mas sim que vamos dar vida ao que fizemos, colocando para que outras pessoas possam fazer seus próprios usos do que é tão nosso. Não é o fim, é o primeiro instante de continuação, mesmo que ela não se dê mais pela mente da autora.

Então, surge algo de um paradoxo: ao mesmo tempo que a produção é a mais nossa possível, já não nos pertence mais, pois adquiriu vida própria. E isso que é o bonito! Uma vez eu li de um repórter que comentou com Mark Knopfler (que, basicamente, era o Dire Straits) se ele havia percebido que “Sultans of Swing”, primeiro grande sucesso da banda, funcionava em vários níveis possíveis de interpretação. Ele, autor da música, achou legal, mas ponderou: “não cabe a mim explicar seu significado [da canção], pois isso a arruinaria”. Ou seja, a riqueza da obra é que, por mais do autor que ela seja, ela pode ser também de cada um que se conecte a ela pelos mais variados motivos.

Lembro que no início dos meus estudos psicanalíticos (isto é, há muitos e muitos anos...), eu ficava até indignado com um fato: quando vários analistas colegas de Freud não aceitavam o conceito de instinto de morte. E Freud era tranquilo com isso! Nossa, eu ficava pensando assim: mas como as pessoas que chegaram depois estão “decidindo o que é ou não é”, opondo-se ao cara que inventou esta teoria? Claro, Freud era muito mais evoluído do que eu. Ainda que ele tivesse uma atitude mais despótica no início, tipo “eu criei a psicanálise, então, ninguém pode saber mais dela do que eu”, expulsando quem não concordava com temas capitais, pensamento que eu parecia compartilhar, a partir de 1920 ele assume outra posição, como que entregando a psicanálise para o mundo. Inclusive, com isso ele conquistou uma liberdade ainda maior para seguir na sua produção, ao mesmo tempo em que as outras pessoas ganharam esta liberdade também. Aquele famoso primeiro parágrafo do capítulo IV de “Além do princípio de prazer”, quando ele fala que irá “especular” e autoriza discordantes a não o seguirem, parece exemplar. É como se ele dissesse: “eu vou me deixar levar por aqui, quem não quiser vir, foda-se”. Liberdade. As consequências disso, boas ou ruins, é outra conversa.

Quando conheci, ainda na adolescência, o clássico do Pink Floyd “Wish you were here” (que também dá nome ao meu disco preferido da banda), fiquei encantado com música. Para mim, era sobre um grande amor (perdido) entre um homem e uma mulher, era esse tipo de clima que eu tinha em mente ao me fascinar. Foi uma grande surpresa quando soube que não era nada disso: ainda que a canção tenha um escopo maior, ela é, assim como todo o álbum, sobre a dor pela perda de um amigo, Syd Barret, fundador e veia criativa do grupo que se afastou logo após o primeiro disco por problemas mentais. Eu acho isso lindo, mas fiquei chocado na época. Mesmo assim, eu me perguntava: mas saber da história verdadeira da canção elimina os sentimentos outros que ela me causa? Afinal, eu não era amigo de Syd Barret para sentir essa tristeza!

Então, esta é a riqueza de qualquer produção: o fato de nós podermos ser, até certo ponto, autores também. É a emancipação da obra, que todo o grande autor permite, que possibilita as inúmeras interpretações, os infindáveis tipos de arrebatamentos. Isso pode ter (como qualquer outra coisa) seu lado ruim, mas é o que mantém/faz a obra viva. Por consequência, também é o que nos faz vivos ao apreciar, e o que torna a obra, por assim dizer, imortal.


Setembro, 2023.




Eu não poderia não colocar esta obra-prima aqui em uma crônica em que ela é citada (talvez tenham mais... mas como saber?). Agora você já sabe o significado “real”, mas não dá para pensar/sentir muito além? E dá porque são emoções verdadeiras. Identifico-me com Roger Waters que, ao citar sua própria letra, disse que preferia estar nas trincheiras, num “papel secundário na guerra”, do que num “papel principal em uma gaiola”. Isso é bem significativo.





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