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A elite e a cegueira

Foto do escritor: Juliano Corrêa
Juliano Corrêa
há 3 horas
11 min de leitura

Uma vez, eu vi um professor (acho que era economista, não lembro o seu nome, o que é uma pena) falando sobre ética no antigo Programa do Jô. Para exemplificar seu pensamento, ele citou os jovens que foram para a rua para lutar contra a corrupção quando do processo de impeachment do nosso ex-presidente caçador de marajás Fernando Collor de Melo. Eu era um desses jovens. Contudo, não exatamente... se eu já não sou um adulto convencional, é claro que não fui um adolescente assim também né!

Eu sempre achei que a revolução, seja qual for e para o que for, só pode vir através da juventude (mesmo que boa parte dos jovens de hoje sejam retrógrados;[1] pelo jeito, ir contra o stablishment atualmente é ser conservador... mas isso é outra conversa). Só que aquelas manifestações nunca me pegaram. Eu estava lá: pelo menos os adolescentes do colégio em que eu estudava, estavam mesmo era a fim de não ter aula, de pintar rosto na rua para aparecer e parecer uma pessoa “politizada”. Era um bando que não fazia ideia do que estava acontecendo, e nem pelo que estavam “protestando”. Na verdade, guarda certa semelhança com aquela palhaçada das “manifestações” iniciadas em 2013, que nos colocaram no buraco que estamos hoje. Atos contra a corrupção, né? Ah, vai pra puta que pariu. Era a corrupção mesmo o problema...

Voltando ao Programa do Jô, o professor disse achar curioso ver seus alunos protestando ferozmente contra a corrupção, mas colando nas provas. “Ah, Juliano, mas tu estás dizendo que roubar milhões do povo e colar numa prova universitária é a mesma coisa?”. Então, querida, quantitativamente, claro que não é, pois são atos de consequência imediata de diferenças muito grandes. Agora, qualitativamente, é exatamente a mesma coisa: tu estás trapaceando. Ponto. E se quisermos ir além, pensando em coisas como o efeito borboleta da teoria do caos, que consequências gerais essa tua simples cola no colégio pode ter gerado? Enfim, você percebe que há dois pesos e duas medidas aqui?

Vamos de novo para a onda de “protestos” que começa em 2013. O problema era realmente o que aquela gentinha dizia que era? Porque reclamavam que o dólar estava em três reais (lembra da cria segurando o cartaz que dizia “quero ir pra Disney de novo”?), mas eu não vi ninguém fazendo estardalhaço quando, poucos anos depois, ele chegou a seis (bye bye Disney!). Teve aquela mulher em Caxias do Sul tendo um ataquezinho histérico em 2015 num posto por causa do preço da gasolina, mas não ouvi um pio quando aquele valor havia triplicado. E a corrupção... pelo amor de deus né! Teve alguém daquela gente (que pedia impeachment de uma presidente que não tinha casos corrupção, sofreu um golpe parlamentar) fazendo gritaria na rua pelos casos obscenos que seguiram nos anos seguintes (e seguem até hoje)? Não era sobre isso né! Então, era sobre o que?

Era sobre o que há de mais nojento na nossa pobre espécie. Nosso país estava em um momento, se você forçar a memória consegue lembrar, em que havia uma aproximação única na história. Que aproximação? Vou usar um caso que considero exemplar. Quando eu era criança/adolescente, viajar de avião era coisa de rico. Logo, quando algum de nós viajava de avião, era um acontecimento, de se arrumar para um evento. Gradativamente, ficou mais acessível: pessoas que só viajavam de ônibus (como eu, que mais de uma vez enfrentei 18 horas para ver show em São Paulo!), passaram a ir pelos ares (no bom sentido). Lembra quando chegou a haver uma equivalência no preço das passagens de ônibus e de avião? Pois é, aí que estava o problema: os acostumados a viajar de avião não gostaram daquela “invasão”. Como assim que agora isso não é um privilégio só meu, que agora esses outros que só iam de ônibus estão sentados ao meu lado? Isso que é o insuportável. Não é preço da passagem do ônibus (!), da gasolina, cotação do dólar, ou corrupção: estão se lixando para isso! O que é gravíssimo para essa gente é perder a sua alucinatória posição de superioridade, de que pertencem à elite, quando elas estão muito mais próximas da empregada, do gari que mantém nossas ruas limpas, do cara que te permite receber comida em casa, daquele vive na rua feito um bicho. Mas essas pessoas são completamente cegas para isso, porque isso é o insuportável, elas precisam viver num mundo imaginário.

Uma vez eu vi um vídeo que me causou grande impacto. Uma pilha monstra de bananas era oferecida para uma enorme quantidade de macacos (pequeninhos, não sei quais eram porque não entendo). Eles foram todos com tudo para as bananas, mas cada um deles pegava duas, alguns mais “gulosos”, escondiam uma terceira, mas era isso: pegavam duas ou três bananas, e saíam. Eu tenho na minha memória, que não é tão confiável, que foi Sidarta Ribeiro, mas pode ter sido outro cientista, que disse: se nós olhássemos uma espécie na qual uns poucos pegam toda a comida, muito mais do que poderiam comer, enquanto os outros morrem de fome, nós pensaríamos que há algo muito errado. Porém, parece tranquilo quando isso acontece com nós mesmos, todos os dias, bem na nossa cara. E isso ainda não é o mais assustador.

O que é realmente horripilante é o tipo de pessoa que concorda e produz isso. É a nossa famigerada classe média: todos os branquinhos que estavam na rua naqueles anos, na verdade estavam furiosos porque estava começando a ter um preto ao lado do seu filhinho na universidade, gente de chinelo nos aviões, empregada com carro e com direitos. A corrupção é só um disfarce para o que Jessé Souza chamou de “racismo cordial”. O problema é a mistura de classes! A classe média não tem e nunca teve nenhum problema com corrupção, vive nela (e corrompe na primeira oportunidade!). Aí dá para começar a entender os debiloides dizendo que se um próximo presidente “roubar a gente tira também”. Oi??? Nunca foi sobre roubo, pois foi só voltar um governo que mantém (ou aumenta) a desigualdade social em prol do enriquecimento amoral das elites, que está tudo bem. Foda-se se estão roubando!

Assim, a ilusão de “ser elite” fica protegida. O que eu acho assombroso é as pessoas realmente acreditarem nisso quando elas são, na realidade, mão de obra da elite, e mão de obra barata, bem barata. São marionetes fáceis de manobrar porque não têm cultura e, assim, não tem massa crítica, o que faz com que acreditem que são “parceiros” de quem manda, que estão no mesmo nível porque pode viajar de avião enquanto outros, não; creem piamente que poderão ser milionários com seu esforço, pois têm a esdrúxula ideia de que os milionários alcançaram essa posição assim. Nossa elite também não tem cultura, é iletrada e burra, mas tem dinheiro; aos montes. E é esperta (além de cruel): esse bando todo fica fazendo gritaria sem noção achando que quem manda e, logo, prejudica a sua vida está em Brasília, quando o lugar do poder é na Faria Lima.

Eu acho tão triste a vida só ter sentido quando se sente acima dos outros... O alvo da nossa luta deveria ser em uma ideia que melhorasse a vida de quem não tem o que eu tenho, não em eu ter mais... há uma enorme diferença aí.

Eu gostaria que você me entendesse: eu não estou dizendo, de forma alguma, que não há motivo para reclamar e mudar. Se pegarmos as pessoas mesmas que citei, as que ascenderam de classe e puderam ter mais do que tinham, elas ficaram incomodadas por não poderem ir além, continuar ascendendo, elas ficaram endividadas no processo. Além disso, o campo da esquerda parou no tempo: não produziu novos líderes e, por causa disso também, muito menos novas ideias, acha que o mundo é o mesmo de 25 anos atrás. Também perdeu o seu valor mais essencial: ouvir o povo. Ficou mais isolado ao se acomodar no poder e pensar que se vive só de certa elite intelectual, o que produz uma empáfia que causa rejeição justamente daquele que era o seu público. Ficou velha. Continua analógica num mundo digital. Claro, isso cansa. E eu, particularmente, sou sempre favorável aos movimentos de mudança e renovação, só que é exatamente aí que está o problema: o tipo de mudança que boa parte das pessoas está querendo.

É que parece que se está dizendo assim: “olha só, isso aqui não está bom, não deu certo; vamos tentar o nazismo?”. Exagero? Você viu o que está acontecendo na Alemanha, né? Dá uma estudadinha na história do que houve para culminar na 2ª Guerra Mundial e vê se nada soa familiar. Ou seja, a reação não é para o futuro, para algo novo e diferente; é reacionária. Além disso, e muito mais grave, é de um extremismo estúpido. Como sempre, isso vem com uma multiplicidade de disfarces. Aí, tem toda essa gente super religiosa (e achando que a sua crença deve ser a de todos e que a religião deve comandar o Estado e ditar regras morais... isso era na Idade Média, não era?), mas que joga bem mais para o lado do Coisa Ruim. Ok, eu concordo que Deus, em muito do Antigo Testamento, era um baita pau no cú; mas onde mesmo que diz que Jesus odiava preto, pobre e puta? Que Ele dizia para todos se armarem e estarem prontos para matar os inimigos? Não era “amai-vos uns aos outros”? Ou eu li a Bíblia errada?

Com isso, há uma proliferação de todo o tipo de loucura e de gente maluca. E muito perigosa, pois leva os ignorantes desamparados junto. O que me assusta ainda mais são pessoas jovens completamente ensandecidas e mentirosas, que chegaram com considerável atraso na distribuição de cérebros, como o Chupetinha ou essa psicopatazinha que se elegeu. E a pessoa que só quer uma vida melhor é enredada em toda essa rede que, no fim das contas, não tem nada a ver com ela. São narrativas inventadas para cegar o verdadeiro objetivo: manter a desigualdade para que a elite (a verdadeira, não você ou eu) continue a sua vida boa (é ela que tem vida boa, não o pobre que recebe auxílio, que um monte de gente acha “vagabundo” justamente porque está presa nessa trama). Tem, por exemplo, a “pauta” do tal “banheiro (para) trans”. Amiga, responda com sinceridade: quando que isso foi, de verdade, uma questão na tua vida? Tu realmente acreditas que será atacada por uma pessoa trans no banheiro? Como que isso afeta ou impede a maneira que tu vives a tua vida? Por que as outras pessoas não podem ter o direito de viver com dignidade a vida delas? Tem também toda uma luta contra o aborto porque se é defensor e a favor da vida, certo? Mas por que não há toda essa energia combativa após o nascimento, com as crianças que estão morrendo de fome? A preocupação não é com a vida e a dignidade da vida? “Ah, mas aí os pais que tem de cuidar da criança”. Pois é, minha amada, mas então, se tu não queres te meter depois, por que tu estás te metendo antes de o bebê nascer? Hein, fiscal de cú alheio! Aborto não é tema de debate moral, é tema de saúde pública!!! É sobre meninas pobres morrerem com carniceiros (porque quem tem dinheiro faz aborto o tempo todo de boas, e ninguém fica sabendo e muito menos se “horrorizando”). Ou seja, é sobre pobre se foder, como sempre é! É tão difícil entender isso???

Há uma inversão déspota de valores: liberdade da mulher é odiosa, mas o seu assassinato é aceitável, quer dizer, feminismo é uma grande ameaça, mas feminicídio tá de boa; projeto/ajuda social é um ultraje, são pobres porque não se esforçam, mas temos de “cuidar da economia” (que significa trabalhador ser açoitado e patrão ficar com os pezinhos pra cima) para mante os privilégios de quem vive da exploração. Talvez eu seja ingênuo de pensar que pessoas estão cegas, mas é que eu ainda me recuso a acreditar que toda essa gente é só má, é só ignorante. Que toda essa gente não se importa nem um pouco com a vida dos outros e que, paradoxalmente, ama quem está cagando para a sua. Ao menos uma parte tem de estar cega. (Mesmo a gente sabendo que a mãe dos idiotas está sempre grávida – e essa nunca aborta! Afinal, se arrombado voasse, o céu estaria permanentemente nublado).

Então, que mudança seria esta? Escolher a escória da bandidagem com todas as homenagens e relações com a milícia. Gente que defende a “família tradicional”, mas só se for a deles (e que nem é tradicional né! Múltiplos filhos de múltiplas mulheres...), com mansões e fábrica de chocolate. O pessoal “patriota” que bate continência para a bandeira de outro país (quando não está lambendo as bolas do homem laranja), ou até para um... pneu! Querida, você lembra do terrorda pandemia, né: as milhares de pessoas que morreram sem vacina por causa de um capricho infantil ideológico doido. Tudo o que estou dizendo não é segredo, está aí para quem quiser ver. Novamente, o problema não é a corrupção. E aqui parece ser mais o ódio ao diferente, nomeado ignorantemente como culpado por seja lá o que for, parece ser a necessidade fantasiosa de que um “pai rigoroso” (que, na realidade, é um covarde bunda mole!) resolverá todos os problemas. (Meu deus, Freud deve estar dando pulos no túmulo!).

Isso me lembra o que a garota dos óculos escuros disse no maravilhoso “Ensaio sobre a Cegueira”, do comunistinha (como as pessoas que não fazem a mínima ideia do que é comunismo gostam de chamar) José Saramago: “já éramos cegos no momento em que cegamos”. Ou seja, já havia uma cegueira moral e social, não ver o outro, antes da cegueira física; e com ela, seguiu-se o rumo da desumanização, da barbárie. Eu falei das manifestações de 2013 à 2016, mas o ponto exato em que nós viramos para algo bem diferente foi quando um deputado federal vagabundo, que, assim como seu filhote, nunca apresentou um projeto sequer (é desse que deveriam reclamar por receber auxílio e não trabalhar!), e fã da ditadura, homenageou um torturador em pleno Congresso Nacional e não saiu de lá algemado. Foi é celebrado por muita gente tão escrota quanto ele. Eu vejo aí um símbolo de quando fomos da cegueira para uma livre expressão do ódio, da canalhice e da boçalidade que sempre viveram dentro de tantos seres, e que também é cega porque é burra. Essa é a cegueira tão importante para a elite, que está pouco se lixando para qualidade de vida de todos enquanto seus bolsos estiverem enchendo ainda mais. Se tu és a favor da tortura e da morte de quem está do outro lado, da eliminação de um suposto inimigo, do desprezo completo por quem tem menos, eu não tenho realmente nada a conversar contigo (e te quero bem longe de mim!).

Então, minha amiga, o que nós estamos vivendo não é, como a nossa imprensa insuficiente tenta ficar passando pano e fazendo análises “isentas”, uma grande “polarização direita-esquerda”. Não! isso nós tínhamos na década de 1990 até 2013. O que vem acontecendo há mais de 10 anos é outra coisa: é entre continuar tendo o poder de escolher o que se prefere (de acordo com a sua visão das coisas...) e as trevas. Entre liberdade e submissão (e aí eu não posso deixar de pensar nos psicanalistas, mais ainda se pensarmos em Winnicott, que acham que são psicanalistas apoiando a submissão, que vai contra tudo o que se possa chamar de psicanálise).

É basicamente isso. “Ah, mas então é votar contra alguém, e não em quem eu considero o melhor!”, você pode dizer (como a imprensa corporativa gosta de criticar). E é isso mesmo! Eu acho isso terrível, mas é o estado em que as coisas estão. É isso que vai assegurar que, no futuro, você possa fazer as escolhas de quem é mais qualificado na sua opinião. Agora, é sobre igualdade de direitos, sobre respeito (e aceitação) das diferenças. Não é divergência política, é uma questão de humanidade, de convivência em sociedade. É contra a barbárie. Simples assim.

Esta onda nefasta não é só no Brasil, é mundial, o que me deixa ainda mais triste. É de se pensar em que lado da história vai se querer estar (só que aí, de novo, é necessário pensar, e para isso se precisa de cultura... que é o que mais falta e o que permite que anomalias surjam e sejam festejadas). Como Ozzy cantou no clássico que embala esta crônica, no dia do Julgamento “Satã, rindo, abre as suas asas”. Como essa galera toda diz que acredita nisso, deveria estar um pouquinho mais preocupada.

 

 

Junho, 2025... Outubro, 2026.






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