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A misteriosa genialidade

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Faz bastante tempo que eu não leio Shakespeare, e estou planejando voltar. (Calma: não vou falar sobre isso – ao menos, não agora –, ainda que a intelligentsia ocidental esteja em polvorosa com essa notícia tão importante). Fui, como sempre, pesquisar sobre a peça que estou mirando, e aí... a internet é um círculo do inferno para gente curiosa: uma coisa interessante leva para outra coisa interessante e, sem perceber, a gente está há horas estudando algo quilômetros de distância do objetivo original. Eu caio sempre nisso.

Nessa minha “busca shakespeariana”, eu me deparei com um tema que já tinha tido conhecimento há muitos anos: a teoria de que não foi Shakespeare quem escreveu todas aquelas maravilhas de peças e sonetos. É um assunto muito sério para os estudiosos do “Bardo de Avon”: existem correntes teóricas dos que defendem a sua autoria, e os que não; nesses últimos, há subdivisões de grupos sobre quem seria, então, o autor. Há hipóteses de algumas personalidades (como Francis Bacon) e também de que foi, na verdade, um grupo de autores que escreveu, sendo todas assinadas sob o mesmo nome, William Shakespeare. Quem se adentra na psicanálise está acostumado com esse tipo de divisões e subdivisões, não é? Não vou opinar sobre a (possível) semelhança, mas, ainda que eu reconheça a importância do debate para quem estuda o tema profundamente, para mim, um simples leitor e apaixonado, não faz a mínima diferença. Logo, realmente não me interessa essa discussão. Só que ela me fez pensar sobre outra coisa, principalmente pela série de lembranças que essa querela me trouxe.

De forma geral, o ponto principal que levantou a desconfiança da autoria de Shakespeare foi que alguém, naquela época, sem estudo superior formal (não há documentação sobre a educação de Shakespeare, não havendo evidências de ele ter frequentado a universidade), simplesmente não poderia ter produzido tal obra. Não em relação ao tamanho, mas à qualidade. Para além da possibilidade de essas hipóteses serem verdadeiras, eu fiquei pensando na dificuldade de aceitar que alguém foi muito além, que basicamente ultrapassou os limites inteligíveis da criação. E Shakespeare (ou seja lá quem tenha sido!) não é o único que provoca isso.

Um dos mais antigos exemplos é a construção das pirâmides do Egito, principalmente a Grande Pirâmide de Gizé. Tudo é impressionante e superlativo: medidas matemáticas perfeitas, alinhamentos astronômicos, 2,3 milhões de blocos de pedra calcária com peso médio de 2,5 toneladas (alguns chegando a 80 toneladas!). Como não foram usadas rodas, várias técnicas foram aplicadas para o transporte dos blocos, além de uma imensa força humana: 8 a 12 homens para puxar os blocos “menores”; de 200 a 300 para puxar os gigantescos! Resultado: um monte de teorias dizendo que foram os extraterrestres que construíram, por a matemática ser muito avançada para a época (nós é que somos os superevoluídos) e pela “impossibilidade” da locomoção dos blocos (além da tralha astrológica toda). Imagina um daqueles trabalhadores que suou o topete sabendo disso. Eu ia ficar muito puto.

A ciência também tem os seus casos. Nikola Tesla, um dos maiores inventores da humanidade, concebeu a corrente alternada e, mesmo em investimentos que não deram certo, como a rede elétrica global de transmissão sem fio, criou as bases para tecnologias como o bluetooth e o Wi-Fi (sem o qual muitos morreriam hoje). Era um verdadeiro visionário. Por sua inventividade sem freios (e coisas que ele disse, crenças/desejos de comunicação interplanetária), há todo um pessoal que acredita que ele só teve aquelas ideias porque foi “aconselhado” por alienígenas.

Nas artes, eu sinto que os exemplos são ainda mais abundantes. Robert Johnson concentra uma grande revolução que levou ao modelo do blues e criou as bases do que seria conhecido como Rock and Roll. Ele padronizou o formato de doze compassos para o blues, transformou o uso do slide, inovou a técnica de tocar violão ao desenvolver linhas de baixo ao mesmo tempo que tocava a harmonia e os solos, dando a sensação de haver mais de um instrumento tocando a música. Também passou a usar diferentes afinações que permitiam novos sons. Além disso, suas letras eram mais pessoais e profundas. Isso tudo é básico hoje, qualquer um que aprende a tocar violão já aprende isso naturalmente; naquela época, era impressionante.

O mais impressionante, entretanto, é que Robert Johnson era um músico medíocre, as pessoas não tinham interessem em o ouvir. Então, ele sumiu por um ano e meio, e quando voltou tinha se tornado esse mágico do violão. O que aconteceu? Ora, ele estudou e treinou! Mais especificamente com Ike Zimmerman, talentoso violonista do Mississipi. Mas isso seria suficiente para explicar algo tão fora da curva que ele trouxe? Claro que não: criou-se o mito de que Johnson fez um pacto com o demônio em uma encruzilhada. Após afinar o seu violão, o Sem-Assunto concedeu o talento extraordinário em troca de sua alma. Some-se a isso suas letras que citam o Tristonho (e o blues, por si só, já ser considerado música Capeta – era feita por escravos...). Ainda, diz-se que Zimmerman dava aulas de violão para ele em um cemitério: porque lá havia silêncio e não incomodava ninguém, mas virou um prato cheio para o mito. Alguém tocando um instrumento que parece ser dois ou três violões? É coisa do Diabo! Por fim, Robert Johnson foi o primeiro daquele “clube dos 27”, dos artistas que morreram tragicamente cedo, como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Curt Cobain. Teria bebido um whisky envenenado, provavelmente servido pelo dono do bar por causa de um caso que Johnson estaria tendo com sua mulher (o envenenamento nunca foi comprovado como causa da morte).

Por fim, Mozart. Também morreu cedo, com 35 anos. Só que com 5 anos já estava compondo. Escreveu 41 sinfonias, 22 óperas, 27 concertos para piano, e outras tantas obras totalizando mais de 600 composições. Mais impressionante do que os números, certamente é o seu talento inigualável. Não há dúvidas de que Mozart era um gênio; porém, também se sabe que ele estudou, treinou, teve (e sofreu com) disciplina, muito dela imposta pelo seu pai. Contudo... adivinhe! Logo após a sua morte, iniciou-se uma série de mitos sobre ele, girando, sobretudo, ao redor da sua genialidade e a romantizando: Mozart era retratado como um tipo de enviado de Deus, displicente, nascido pronto e, assim, sem necessidade de estudo ou esforço. Boa parte dessa imagem (que não está de acordo com os dados históricos) é encenada (maravilhosamente, diga-se de passagem!) no filme de Milos Forman “Amadeus”, de 1985, inclusive a fantasiosa rivalidade com Antonio Salieri, que teria culminado na composição do estupendo Réquiem em ré menor (K 626).

Não sei você, mas para mim, tem um lado disso tudo que desmerece imensamente a pessoa. Veja bem: é como se o que ela fez de extraordinário estivesse atrelado a algo externo a ela, mesmo quando se atribui, como a Mozart, a “genialidade”, pois ela se transforma em algo sobrenatural. Eu creio que tem um lado da gente que gosta disso: foi sorte, foi algo de outro mundo. Isso leva para a ideia de que foi até fácil e, acima de tudo, dá certo alento para a nossa própria mediocridade: a pessoa não era tão boa assim! Qualquer um no seu lugar poderia ter feito. Ainda assim, eu não acho que o motivo de todos esses mitos seja mesmo tentar desvalorizar essas pessoas “inventivas” (e vamos combinar: todos esses mitos são deliciosos e, dependemos de como os abordamos, podem até enriquecer as histórias, desde que não se acredite neles piamente...).

Num artigo que eu encontrei há muito tempo, Vinas, escrevendo sobre Mozart, diz assim: “sua precocidade quase sobrenatural, o poderoso encantamento de sua música, tudo contribui para que, ao escrever, se deseje transformá-lo em um anjo decaído que marcou sua trajetória com o estigma da genialidade e o torna estrangeiro às regras sociais e a toda a gente... Perde-se a isenção, instala-se o reinado da pura paixão”. Eu acho que isso serve para todos os exemplos que eu citei (e tantos outros que poderíamos lembrar!).

Ora, a paixão é essencial em qualquer coisa que fazemos, e eu diria que as pessoas que citei eram, cada uma ao seu modo, apaixonadas. Um problema talvez seja a pura paixão: desconsidera-se todo um universo. Só que ainda além disso, eu acredito que está em jogo aqui a nossa grande dificuldade de viver sem explicação das coisas, sem os porquês (não é esse o valor de todas as religiões?). Então, no nosso quase desespero por alguma resposta que acalme o espírito, inventamos uma história mais “plausível”. Você pode me perguntar: “mas um pacto com o demônio é algo plausível???”. Eu acho que não (até porque o demônio não existe), mas muita gente acredita nisso. A vida tem de ter um sentido. Parece que tudo vai para este ponto.

A questão é que nós estamos falando de pessoas que foram tão além, fizeram coisas das quais não conseguimos ter um fundamento completo, então, é normal que se agarre com unhas e dentes em qualquer coisa que forneça uma causa, por mais mirabolante que ela possa ser. A teoria de Bion coloca como é difícil para a mente humana permanecer por tempos prolongados em estados de incerteza, com estímulos brutos e sem sentido. Desta forma, para evitar a angústia e o desconforto maiores do que se tem a capacidade de suportar, podemos criar certezas falsas ou ilusões para fugir do mal-estar.

Eu já estive em discussões desse tipo, algumas das quais (muito dependendo de com quem se está discutindo) são as mais chatas que eu posso imaginar! O exemplo mais fácil: o debate sobre a origem do universo. Existem teorias, mas não há explicação certa e concreta sobre como tudo começou. Aí, recebo a sugestão de que foi Deus... E, esta é a melhor (ou, dependendo do ponto de vista, a pior) parte, vem a “argumentação”: mas então (se não é Deus) como você explica o universo (corpo humano, natureza, seja lá o que for) funcionando tão perfeitamente? Para além de outras coisas (como não funcionar tão perfeitamente assim), não é porque eu não tenho a explicação que eu vou aceitar qualquer uma! (E é uma piada se usar Deus como uma justificativa racional, né!). Eu estou bem tranquilo com o não saber, nunca fui daqueles sujeitos insuportáveis que precisam entender alguma coisa para admirar. A vivência é muito mais bela; e também muito mais complexa. Essa é uma das razões de o acaso não ser aceito de forma geral (não é só na psicanálise!): a maioria de nós funciona na base da causa e efeito. Dá mais segurança.

Ainda há mais. Eu penso que a tendência de criar “histórias” e também conexões que, na realidade, não existem mostra a extrema dificuldade em se deparar e aceitar o que é, de fato, novo. A história nos mostra: nosso Freud foi um grande exemplo disso. Mas essa já é uma conversa para a semana que vem.

 

 

Junho/Julho, 2026.




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