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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Choveu...


Choveu. Eu sempre gostei da chuva. Inclusive, algo que a maioria parece não gostar, de sair: sempre adorei sair em noites de chuva (tenho muitas lembranças), sei lá, coisa minha. Contudo, eu também gosto dos dias de chuva para ficar em casa. Fazer pipoca, qualquer comida gostosa (sopa de capeletti?), beber vinho talvez, ver um filme... Enfim, há uma infinidade coisas boas para se fazer com a chuva....

Mas choveu demais. Muito demais. Só que o problema não foi a chuva! Há anos vem havendo eventos destrutivos de grandes proporções, inclusive no Rio Grande do Sul, e já faz tempo, 30, 40, 50 anos, que os cientistas avisam que aconteceria e que aumentaria rapidamente. Ou seja, eventos catastróficos são uma certeza matemática. Há tempos! Qualquer pessoa de mínimo bom senso sabe disso. E aí está uma das maiores dificuldades (que é a falta de pessoas de bom senso). O que foi feito para evitar o desastre, para prevenir? Na verdade, nada. Não se pode engolir a desculpa esfarrapada de que algo (de proteção) falhou; fosse assim, teríamos algum contratempo, perdas frente ao fenômeno de maior intensidade, mas não um estado inteiro arrasado debaixo d’água. O que “foi feito” foi apenas para constar, mas nunca, em todos os governos de todos os níveis, foi uma preocupação real. O pequeno e sublime vídeo de Carl Sagan que deixo no fim deste texto mostra bem esse tipo de mentalidade (parece ser de 1990... veja só).

Colocar a culpa na chuva pela calamidade é como colocar a culpa no instinto de morte pelas guerras. Nem a chuva nem o instinto de morte são “maus” em si, eles apenas são. Suas consequências são nossas responsabilidades. De todos nós, incluindo eu e você: nós que trouxemos as coisas para este nível nefasto, pois simplesmente achamos que podemos fazer o que quisermos deste pequeno planeta como se fôssemos donos, quando somos apenas moradores temporários e muito recentes. Nós todos provocamos isso. Agora, nós todos também podemos mitigar os efeitos, certo? A gente pode fazer a nossa parte (não sei se você faz, eu mesmo tento, ainda que acho que estou longe de um comportamento totalmente adequado), mas o grande poder de decisão não está em nossas mãos, está nas mãos das pessoas a quem nós entregamos esse poder. E essas pessoas não estão nem um pouco interessadas nisso. Por que? Ora, porque evitar que aconteça não dá dinheiro! Lucra-se muito mais com a tragédia (de novo, veja o vídeo no fim de Carl Sagan), não há interesse real no povo, leia-se, pobres. Há os miseráveis, os superpobres, os muito pobres, uma imensa subdivisão que, olhe que choque, chega até mim e, acho, você: o “povo” que estou falando engloba toda essa gente, pois não somos parte da elite, fazemos a engrenagem andar, mas não nos aproveitamos dela (você aí, se for da tal “classe média”, é pobre nesse sentido também, não se iluda: está muito mais próximo da sua empregada ou do rapaz que lhe entrega comida em casa do que você imagina ou gostaria, afinal, o grande golpe é nos fazer acreditar que estamos mais perto do outro lado... ou que conseguiremos, com o nosso suor, ser parte da nobreza – isso nós, quem dirá quem é pobre mesmo; você já ouviu esse discurso, né?). Você viu algum rico ou banco se dando mal na pandemia? Ao contrário: ganharam ainda mais dinheiro. Quer apostar quem vai perder tudo sem poder recuperar, ou podendo recuperar pouco, nesta desgraça daqui? Desastre e guerra fazem bem para quem manda, para quem tem, de fato, o dinheiro; o resto que se foda! É uma pena que todos nós não vemos, por isso continuamos dando aprovação (e brigando) para que eles se mantenham lá. (Neste ano termos eleições municipais: veja que todos irão falar sobre a importância das mudanças climáticas, mesmo os que sempre falaram que isso não existe...).

Então, os políticos, com uma ou outra rara exceção, não se preocupam com isso por ganho próprio; outros indivíduos, alucinados, como a família aloprada, adoradora da milícia e da ditadura (e que se colocam como defensores da “liberdade de expressão”, o que é enlouquecedor), que governou o país, negam os efeitos climáticos: “estou aqui no meio da neve, como se pode falar em aquecimento global?” Não são “negacionistas”, são burros! Chega de eufemismos, chamemos pelo nome correto. Burro ou mau-caráter (muitas vezes, os dois juntos), simplesmente não há outra opção. Aí, vem aquilo de “não é hora de achar culpados (porque é hora de salvar vidas, etc.)”. Ok, é mesmo hora de salvar vidas! Mas dizem isso porque eles são responsáveis e estão tentando tirar o seu da reta! Quando vai ser a hora? É como o prefeito de Santa Maria da tragédia da boate Kiss que, veja só, ganhou como prêmio do ilustríssimo governador do Estado na época o cargo de Secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul! Isso é de uma crueldade sem tamanho... São uns canalhas; da pior espécie.

E dentre todos esses aproveitadores, há os lacradores, os que querem engajamento, pois assim (surpresa!) ganham dinheiro. Novamente um eufemismo: fake news. Ora, para além da nossa necessidade falar as coisas em inglês (que não é por acaso, já que a maioria das pessoas do nosso país não tem acesso nem ao português), é mentira a palavra certa né! Mentirosos, lucrando com a desgraça dos outros. Uma coisa que achei muito legal, também por ser uma cidade que morei por anos e que amo, foi o Cristo Redentor do Rio de Janeiro vestido com as cores da bandeira do RS. Mas aí têm aquele bando que foi libertado pela internet que reclama (de tudo, na verdade), dizendo que mostram o Cristo, mas não dão dinheiro (mas se dão dinheiro, não dão sei lá o que... extremamente cansativo ler esses “comentários”). O Cristo é um símbolo do país, vai para o mundo inteiro, é uma forma de chamar a atenção (para se poder ter ganhos com isso... preciso desenhar?). Geralmente, quem reclama disso são os que chegaram atrasados na distribuição de cérebros (os outros, como já expliquei, são os cafajestes), são os que ficaram indignados com o show da Madonna (essas reações foram uma das coisas mais loucas que eu já vivenciei), mas adoram uma série de putarias de sertanejos; moral de cueca (ou pelado mesmo) que se chama, né? (É que se a putaria é heterossexual e misógina está tudo bem, mas se é homossexual... nossa, que coisa horrível, é contra Deus e a família!). É essa raça nojenta burra do caralho que acha que tem a obrigação de dar sua opinião ignorante sobre qualquer coisa! Não dá pra refletir um pouquinho sobre o assunto? Procurar se informar com alguém que realmente entenda do que se trata? Estudar um bocadinho? Não vai fazer mal. Eu tenho tanta vontade de falar tanta coisa desta corja... mas eu fico tão cansado... É que hoje em dia faz tanto sentido aquela frase (não lembro de quem é), que é muito difícil discutir com uma pessoa inteligente (e é mesmo!), mas impossível discutir com um idiota.

Muita gente ajudou, de maneiras diferentes, eu acho isso muito legal e, neste caso, todas as ajudas são bem-vindas. “Ah, mas o fulano é uma merda, tá só querendo se promover”. Eu sei, claro que sim! Nunca acreditei em altruísmo, sempre há um ganho por trás. Eu mesmo faço minhas doações regularmente, nunca divulguei (nem vou), você acha que faço por ser bonzinho? Não né! Além da “consciência social”, eu tenho meu ganho narcísico. Agora, eu não tenho aquela ideia infantil (no mau sentido) de que “é o povo pelo povo; somente nós nos ajudamos, pois o governo não faz nada”. Ok, o governo realmente faz, com grandes diferenças de mandatos, bem menos do que deveria, mas esse papo de que “a gente se ajuda”, é o caralho né! De maneira geral, se ajuda porra nenhuma! Aqui mesmo: agora está esta avalanche de doações e tudo mais (que o governador disse que pode ser prejudicial... para um estado que está agonizando... mas nós sabemos os motivos disso, né); vai continuar daqui dois meses? Porque as pessoas continuarão precisando! Quem quer ajudar mesmo, vai continuar depois que água baixar. Irão? Indo além, é curioso uma certa turma estar toda caridosa agora, mas passar reto pelas pessoas dormindo na rua e morrendo de fome, ficando até irritada com elas: “vagabundo! Vai trabalhar ao invés de ficar pedindo!” Não é assim? Estou falando alguma mentira? Não estou, de maneira alguma, desmerecendo as ajudas para esta tragédia que ocorre aqui, mas é interessante que a tragédia do dia a dia, escancarada na nossa frente, não causa sentimento algum, ímpeto nenhum de ajudar. “Ah, mas é que estas de agora perderam tudo por um infortúnio para além delas”. Ok, mas todas as outras pessoas que vivem abaixo da dignidade humana estão ali porque querem? Elas têm oportunidades (como as que eu tive)? Não foram alijadas da sociedade? É de se pensar nisso... só que aí, de novo, há de se ter um cérebro funcional, ou vontade para usar.

 

Eu fiquei bem; muitas vezes tive muito medo, mas fiquei bem. Principalmente se a gente pensar nas tantas pessoas que perderam tudo, não só de forma material (e nem sempre o material dá para reconquistar, como muito se fala), mas de maneira mais interna: perderam suas memórias, suas parcas alegrias, suas esperanças. Sem falar, é claro, das pessoas que perderam suas vidas literalmente. Eu fui privilegiado pela sorte: meu bairro foi um dos mais afetados, mas eu moro numa parte que a água não alcançou. Por dias, quando chovia eu ficava muito angustiado, ouvindo os helicópteros passarem, se a água não chegaria até aqui, seja pelo transbordamento do Guaíba, seja pelos esgotos. Faltou água, como para quase todo mundo (assim como não se tinha mais água para comprar em nenhum mercado), então começamos a armazenar o que tínhamos, para beber (meu filtro de barro foi muito útil) e para usar para outras coisas. Nada disso foi necessário: a água da caixa do prédio não terminou (talvez por todos terem economizado), e o fornecimento voltou. Não faltou luz (o que foi um milagre, pois sempre falta luz aqui). Ou seja, não tive de abandonar minha casa por ter sido destruída pelo alagamento, nem perdi nada, como diversas pessoas perderam.

“Ah, mas então está reclamando de barriga cheia”. No meu caso, pelas possibilidades que sempre tive, acho que sempre se pode pensar assim, e, por um lado, concordo. Mas eu sou daqui, eu me criei aqui, eu vivo aqui, eu sei como a banda toca aqui, eu estou necessariamente (mesmo que não quisesse!) profundamente envolvido com toda esta chuva. E também: eu não estou reclamando de nada que aconteceu comigo! Eu estou só falando da situação horrível em que vivemos e expressando a tristeza de ver a minha cidade em pedaços. Este é o motivo desta crônica.

Eu já escrevi[1] que acredito na relação especial que a gente pode ter com a nossa cidade natal. Odiar ou amar, não faz diferença. Eu sei que o estado inteiro foi devastado, mas várias vezes eu pensava: minha cidade está sendo destruída. Isso me doeu bastante, para bem além dos entraves pessoais que me causou. Eu tenho profundas relações com Porto Alegre, a maior parte das minhas memórias afetivas está aqui, eu gosto daqui. É aquela coisa: eu posso falar mal, mas quando alguém de fora (ou até de dentro) deprecia a minha cidade, eu me chateio. Desta forma, por tudo que já escrevi, um olhar para o futuro não é exatamente algo esperançoso.

“Quando a água baixar”. Uma expressão metafórica que pode ser usada em várias situações e que se torna agora assustadoramente real. É como se uma vida inteira (e não estou falando da minha, pois a minha foram somente partes) tivesse sido postergada e sem garantia para “depois que a água baixar”. Muita coisa veremos, real e simbolicamente, quando a água baixar. Muita coisa terá de ser feita, pessoas não têm mais onde morar, cidades inteiras talvez fiquem inviáveis. Em parte, eu não tenho dúvidas que haverá um ressurgimento, e isso se dá principalmente pela tragédia estar acontecendo no Rio Grande do Sul. Eu acho que, de forma geral, é comum crescerem forças extras para reagir contra agressões tão grandes. Aqui, penso que isso é mais potente ainda, pois há um bairrismo fortíssimo, que eu faço piada muitas vezes: tem seu lado ruim certamente; porém, também há o lado bom, o orgulho de ser daqui, nossas tradições, nossa história insurgente que, apesar das gozações, eu também participo. A identidade de povo corajoso e peleador se infla nestes momentos. Já tem bastante gente aqui prevendo isso. Como diz o nosso hino (você conhece o hino do seu estado? Pois é...): “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

A chuva passa; ela sempre passa (assim também como sempre volta...). Tudo passa, poderíamos dizer, é assim o processo de luto, não é? Só que eu acredito que nada passe de fato, não há retomada em um sentido literal. O conhecido “trabalho de luto” que Freud explicou há mais de cem anos não significa que o tal objeto perdido vira passado nessesentido. Agora, tudo sempre se modifica, e nisso eu creio piamente. O luto, então, é muito mais um trabalho de modificação do que de “passagem”. O “ego livre para amar novamente” não acontece porque o objeto se foi, passou, ele está sempre ali (como a chuva que sempre volta). Só que diferente. E nós sabemos que esse processo não ocorre de uma hora para outra. Ainda vai continuar chovendo. Quando vamos não ter mais medo da chuva?

No texto sobre “A transitoriedade”, que é dos meus preferidos, e sobre o qual já escrevi um texto psicanalítico,[2]Freud fala da sua terra devastada pela Primeira Grande Guerra e projeta o futuro depois da Guerra, destacando o maior apego pela pátria naquele momento, e encerra afirmando: “reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes”. Freud não era um otimista (assim como também não era um pessimista: eu o vejo mais como um realista, de sua época e no seu contexto), mas neste trecho ele se mostra mais esperançoso no futuro. Eu acho lindo.

Porém, quanto a Porto Alegre ou ao Rio Grande do Sul (ou, no fim das contas, ao país e ao mundo mesmo como um todo!), eu realmente não sou esperançoso. Vai ser reconstruído, etc., claro que vai; todavia, a esperança a que me refiro nem é aquela de que iremos nos preocupar dessa mesma maneira de agora com aqueles que sofrem um desastre diário e são invisíveis no nosso caminhar (dessa, eu já desisti), mas a perspectiva de que algo efetivamente será feito como prevenção, como cuidado, pois vai continuar chovendo... e cada vez mais.

Que haverá recuperação, de uma maneira ou outra, maior ou menor, eu acredito que sim; que novamente teremos eventos extremos, é uma certeza. Que estaremos protegidos, ao menos da assolação e do extermínio, eu duvido.

 

 

Maio, 2024.

 





Aqui, o pequeno vídeo que anunciei de Carl Sagan. É autoexplicativo, não preciso falar nada.





CHOVEU...
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