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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Lembranças


Há pouco tempo, eu estive envolvido (por vários dias...) em uma tarefa de limpeza. Não a faxina da casa: limpeza das tralhas que a gente guarda. Talvez você seja uma daquelas pessoas que não guarda nada, de modo que nunca teve de fazer isso, então esta crônica não fará o menor sentido para você. Pule esta, escolha alguma outra. Agora, se você também guarda coisas e num futuro qualquer se depara com elas novamente, talvez possa haver alguma identificação aqui.

Há uma diferença das coisas que guardamos. Têm as tipo de viagens, momentos importantes, etc. Geralmente, essas permanecem intocadas: são objetos físicos de algo vivido. Podem sim ir para o lixo, mas normalmente mantêm seus lugares sem questionamento, até porque, habitualmente, ficam expostas. Existe aquele outro grupo, das coisas que se pensa: “talvez eu precise disso algum dia”. Um exemplo: eu acumulei, ao longo do tempo, uma quantidade bem interessante de cabos (desses que conecta alguma coisa com a TV ou com alguma outra coisa). Após anos, não só eu nunca os usei, como não faço a mínima ideia para que servem; caso eu precise de algo desse tipo, com certeza o cara que virá fazer o serviço (porque não entendo dessas coisas) terá o cabo ou irá comprar, os meus não serão utilizados. Ou seja, tudo isso foi fora! Mas há uma terceira categoria (na verdade, acho que existem muito mais, eu que estou me metendo a classificar cacarecos) que eu acho a mais complicada: é a que vive em nome de lembranças, mas de uma forma mais aleatória, engloba as duas anteriores. Óbvio que não farei um inventário das minhas tranqueiras, mas mexendo nesse passado todo, muitas coisas começaram a borbulhar no meu pensamento.

Ainda que eu não vá fazer inventário, tenho de dar um exemplo para me fazer entender: guardar o jornal que tem a reportagem de um show (ou conquista de título do seu time) que você foi e é importante (é só um exemplo, meus trecos iam bem além disso). Aí que a coisa complica (para gente como eu) para decidir o que vai fora e o que permanece, já que ocupa bastante espaço.

Uma observação importante. Eu sou daquele tipo de pessoa que tem uma (acho que duas até...) caixa de sapato (estou revisando, então talvez essas coisas ganhem caixas melhores e mais bonitas agora) com todos os convites, cartas, e afins que já recebeu. Eu já tive situações de cerimônias importantes, como um casamento, em que me diziam que sabiam que eu não poderia ir (por morar em outra cidade), mas que me enviariam o convite mesmo assim. Eu sempre respondia que era para enviar mesmo, pois eu valorizava muito isso: nada é jogado fora, tudo é guardado com carinho. Eu tenho todos os convites/lembrancinhas e coisas do tipo que recebi para formaturas, casamentos, aniversários. Aquelas que foram feitas especialmente para mim então (havia turmas na universidade muito carinhosas), estão em um lugar especial. Este lugar, na verdade, é o meu coração, quer dizer, poderiam ser jogadas fora que a minha emoção de as receber permaneceria intacta; mas destas eu não me desfaço, não tem nem discussão sobre. Enfim, foi só um parêntesis para que as pessoas que me deram esse tipo de coisa fiquem sabendo publicamente que não gastaram em vão! A quinquilharia que estou falando é a do parágrafo anterior.

Como eu tive de analisar tudo para ver o que permanecia e o que ia, eu ficava pensando (vou colocar aspas no meu pensamento para não confundir): “bah, mas olha que legal isso, que pena jogar fora”. Só que, ao mesmo tempo, eu pensava: “mas eu só lembrei (e achei legal!) dessas coisas agora que estou me obrigando a mexer nelas, talvez eu nunca mais volte a mexer nisso, e ficará aí ocupando espaço pra que?”. Paralelamente, outro pensamento muito importante veio: “mas teve coisas que eu  lembrei porque mexi nisso, então, se jogar fora, nunca mais vou me lembrar”. Viu uma linhagem obsessiva aí? Já está bem menor comprando com o tempo que eu guardei esta tralha toda.

Questão é que comecei a refletir. Interessante guardar algo que não se lembra para, eventualmente (que no meu caso seria quase nunca), tipo quando fosse ver se não tinha um bicho morto lá, mexer para se lembrar, né? Além disso, se eu não me lembro “naturalmente”, qual é o sentido de armazenar fisicamente para me lembrar só quando (de novo, quase nunca) for fuçar lá? Que tipo de “lembrança” guardada é esta? Uma lembrança material que só é acionada quando (mais uma vez, quase nunca) se remexer num amontoado que a gente nem sabe direito o que é? Se eu preciso guardar algo físico para me lembrar, deve haver algo peculiar com esta “lembrança”...

Eu não estou falando exatamente daquele processo de expurgo no qual jogamos coisas antigas fora e parece que nos limpamos por dentro e nos renovamos. Mais ainda se o expurgo for, por exemplo, de materiais de um filho da puta de ex-namorado que ele mesmo deveria ser jogado no lixo; então, dá uma ótima sensação simbolicamente. Na verdade, isso sempre dá leveza: mesmo no meu caso, cada saco gigante que eu levava para o lixo eu sentia, não posso negar, uma sensação de leveza. A internet nos ajuda nisso. Você acredita que eu tinha todos os textos da minha formação em psicanálise guardados? Duas pilhas imensas de pastas com xerox! Eu sempre pensei: “mas vai que eu precise disso algum dia!”. Pois, já se passaram vários anos, o que eu precisei, eu já utilizei e se, por ventura, eu precisar no futuro, não vai ser difícil de encontrar né! Afinal, não tinha ali nada tão fora de catálogo que só pudesse ser encontrado na deep web! Tudo fora!

A lembrança é seletiva, e não por acaso: é afetiva, não é o caso de a gente escolher o que quer se lembrar por ser significativo, etc. Quem dera né! Fosse assim, não teriam tantas lembranças extremamente desagradáveis que invadem nossa mente (como a ex filha puta). Se pensarmos desta maneira, não faz sentido guardar esse tipo de coisa “para nos lembrar”. A gente lembra! Aí, volto a um tema que venho falando em várias crônicas:[1] se não for assim, estamos tentando capturar o incapturável materialmente, ou indo para o caminho da pura nostalgia, estamos querendo continuar a viver como antes, muitas vezes, muito antes! Isso simplesmente não dá certo, né!

“Eu hoje joguei tanta coisa fora”. Deu sim a sensação de alívio, mas nada era pesado para mim hoje (parece que essa sensação é inerente ao feito), foi mais pela liberação de espaço. E as memórias? Elas estão, boas ou más, sempre conosco, os cacarecos, acredite, não fazem nenhuma diferença. Em um ponto, eu acredito que podem até atingir algum nível mais mórbido. Não é “se livrar” do passado, pois ele está sempre aqui, só é complicado se permanecer ativamente ! Filosofei um pouco agora.

Em suma, é como a belíssima canção de Toni Platão, Dado Villa-Lobos e Alvim L. que embala esta crônica, e que não é sobre coisas guardas desse tipo que descrevi: “tudo que vai, deixa o gosto, deixa as fotos, quanto tempo faz? Deixa os dedos, deixa a memória, eu nem me lembro mais”. O que eu escrevi não pode ser, ao invés de cacos, sobre amor?

Se você me acusar de hipocrisia por eu continuar guardando minha caixa de convites/lembranças, eu entendo. Mas também acho que você não entendeu muito bem o que eu estou tentando dizer. Seja como for, livrei-me de várias coisas e continuo com minhas caixinhas. Independentemente, as lembranças seguem selvagens e imortais.

 

 

Outubro, 2023.


[1] Por exemplo:




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