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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Fotografias da alma


Antes de qualquer coisa: adoro títulos bonitos/marcantes, mas nunca fui capaz de os criar; contudo, continuo tentando. Aqui de novo. Neste caso, pode ser desastroso: alma dá uma ideia mais espiritual, e isso não pode estar mais longe do que quero falar. Eu estou pensando no sentido do “aparato anímico” de Freud, Seelenapparat. “Alma” (Seele) não tem essa acepção mais mística e espiritual em alemão como tem em português (então, vai escrever em alemão né!). O que eu tenho em mente, ao usar a palavra alma, é algo muito íntimo, um tipo de essência, um core, que é palavra em inglês, então também não adianta – seria traduzida por “núcleo”, que não me soa exatamente como o que quero (acho que pensei nela porque Winnicott a usa). Mas é isso, uso “alma” no sentido de fundamento mais íntimo, nada místico.

Começando, então, eu sigo, de certa forma, a linha de uma crônica anterior, “A morte de uma cidade”,[1] na qual falei sobre absorver/ser absorvido verdadeiramente pela cidade que se visita. O que me questiono agora é: como se registra isso? Tive essa pergunta num domingo à tarde (nunca mais vou gostar de domingos como no Rio de Janeiro: foi, automaticamente, de pior, para melhor dia da semana quando vim morar aqui!) quando saí para tirar fotos de uma rua específica para colocar na já citada crônica. Como é natural aqui, expandi meu passeio por algumas horas (é tão gostoso! E são tantas surpresas pelo caminho: de repente, a gente esbarra numa festa/feira, com palco, bateria de samba e tudo!) e, como já estava no embalo, fui tirando fotos e fazendo vídeos. Foi então que me veio a questão que, posso dizer, acompanha-me por toda a vida: a vontade de captar momentos únicos materialmente para ter de lembrança, como se isso fosse suficiente.

Eu estou pensando em várias situações da minha vida, em locais e/ou eventos, que eu quis profundamente registar o momento que eu achava tão especial. Assim, coleciono quantidades enormes de fotos e vídeos. Muitas são muito boas e bonitas, mas sempre têm algumas (ou muitas também) que parecem exagero. Eu sinto uma necessidade urgente de guardar o instante, então, todos os registros (fotos ou filmes) não parecem suficientes. É a mesma coisa de ter uma experiência muito boa em algum lugar e querer voltar (o que é normal); porém, fica-se sempre querendo voltar (algo que é totalmente impossível), pois nunca parece o bastante, é como se sempre ficasse algo faltando para esse “registro”, como se houvesse, e já adianto que , algo intangível na vivência. Eu estou falando de repetição: escreverei um texto psicanalítico exclusivo sobre este tema que é tão importante no que quero desenvolver.

Talvez o melhor exemplo do que quero dizer é tirar foto da lua. Você já não tirou uma foto da lua? Daquela lua, linda, que a gente olha e pensa: nossa, tenho de registar isso para mostrar (para quem quer que seja). E qual foi o resultado? Com exceção de quem realmente têm o talento e os aparatos para tirar fotos lindas, foto da lua é o caminho mais certo para a decepção. Eu já tirei várias. Em poucas exceções ficaram bonitas sim, mas porque era um daqueles eventos tipo comenta Halley, que passa a cada 75 anos (eu me reuni com a família para ver na minha infância! Não vimos nada, naturalmente, e eu chorei desesperadamente porque achei que o mundo ia acabar!), ou aquelas luas monstruosas que ficam do tamanho de Júpiter, como a que ilustra este texto e não mostra, de fato, o que foi (e, ainda assim, as fotos boas que tenho foram pura sorte!). Das luas normais, “apenas” lindas, como ficam as fotos que você bate? Eu já vivi isso várias vezes: olhar uma lua majestosa, tirar uma bela foto, e quando olho o resultado: ué? Cadê a lua linda que estou vendo?

Então, há algo incapturável nas nossas experiências, e que talvez seja o principal. Eu não estou falando contra tirar fotos! Eu só acho que as fotografias não registram o instante dessa maneira, elas funcionam diferente. Eu acho que marcam, podem objetivar um momento, mas não o eternizam. Acho até que podem fazer mais, revelando coisas além do que se vivenciou, mas não são o “retrato do instante”. Seja para um lado ou para outro, Neil Young está, como sempre, certíssimo: “there’s more to the picture than meets the eye” (“há mais na imagem do que o olho alcança”). Talvez porque a questão não seja os olhos, mas o coração (como o Principezinho já ensinou...), e com isso, para não cair num melodrama, quero dizer os afetos, as emoções. Isso é o incapturável. É o instante exato, fugitivo, e nem por isso menos importante (ou justamente por isso que se faz tão essencial). Se o evento é único, como falei acima, por ser emocional, não pode ser reproduzido (o que é diferente de repetido), nem mesmo (ou muito menos) em uma fotografia: fica na memória, e nem ela mesma é igual, pois está em constante mudança de acordo com nossas vivências. Mas o afeto pode se manter; porém, é inexplicável para os outros (e, certamente, até para nós próprios). É só o sentimento que levamos conosco. Ou seja, não se pode sugar a vida de um instante (podemos, "apenas", vivê-lo): a vida de um instante só permanece (se permanece!) como lembrança e, como toda a lembrança, mutável. Isso mostra como o passado, ao mesmo tempo, foi (e não há nada que se possa fazer) e continua sendo, mas sempre se tornando, e diferente. Seria mais correto dizer: o passado está sempre sendo criado (tanto como o futuro).

Os ecos para o tratamento psicanalítico são muitos. Como vamos escutar todas as histórias “passadas” com pais, mães, etc.? Este é um ponto essencial (e imensamente amplo), mas há mais ainda: é comum numa sessão de análise não se conseguir dizer tudo, não por resistências, mas por incapacidade de falar tudo o que se quer mesmo; assim como, do outro lado, também não se consegue escutar tudo. Dependendo do contexto, isso pode ser fonte de grande angústia. É como não conseguir absorver toda a experiência numa foto. Qual a saída? Bom, não é, por certo uma solução, mas é o que temos: o afeto. Eu dizia nas orientações de estágio (e, vamos combinar, Freud já disse há mais de 100 anos) para que as terapeutas não se preocupassem em anotar nada, não se preocupassem com os dados objetivos do paciente: não é o importante (além de isso poder ser recuperado a qualquer momento se preciso). “Psicanálise é coisa de dois”, ou seja, é uma relação afetiva muito única, especial, que se estabelece entre aquelas duas pessoas. A nossa “cura” passa diretamente por aí. Como irei expor brevemente em um texto psicanalítico (se nada mudar, chama-se “Psicanálise Ontológica e Acaso - um prólogo”), o foco é menos em compreender, muito mais em escutar afetivamente.

Eu não posso deixar de pensar: como nós (eu, no caso) fazíamos antigamente? Quer dizer, não se fotografava ou filmava (menos ainda!) com a facilidade de hoje, era necessário aparatos caros e todo um procedimento para termos algumas míseras fotos. Eram poucas chances para registar um instante. Como eram nossos registros? Não estou, absolutamente, afirmando que “antigamente era tudo melhor”, acho uma besteira isso (até já escrevi uma crônica “sobre o nostálgico”).[2] Só estou dizendo que já vivemos (os mais velhos...) em épocas nas quais parecíamos nos contentar com tal registro emocional, com a memória (ou porque era só o que tínhamos mesmo!). E não é em razão de hoje hoje existirem formas em abundância de registro (e exposição para todos) que isso mudou: continua-se tendo o incessantemente fugitivo que domina nossas emoções. É impossível fotografar o afeto.




“My My Hey Hey (Out Of The Blue)”, de Neil Young, é uma canção que diz muito (e acabou permeando esta crônica). Eu procurei um vídeo com tradução, mas não encontrei (há outra, meio que homônima, com a letra manejada de lugares – o título é “Hey Hey My My (Into The Black)" –, mas é esta que eu queria. Também não coloco, como pensei em fazer, algum link para letra e tradução, pois as acho todas ruins (eu sou muito chato para traduções). Enfim, a música, como o que escrevi, é, acima de tudo, emocional; então, cada um pode fazer sua própria tradução...





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