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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

A morte de uma cidade


Uber/táxi é a morte de uma cidade. Eu sou (sempre fui) dramático (o que é diferente de fazer drama, algo que minha análise “consertou” muitos anos atrás), então, tenho de explicar esta frase que é, sim, dramática. Ah, e só para esclarecer: achei o Uber uma bela invenção, utilizo-me muito, assim como, ainda hoje também, do táxi; desta forma, tirando questões mais detalhadas, nada contra nenhum dos dois. Afinal, este texto não é sobre eles exatamente.

Eu gosto de viajar; para quem gosta, viajei pouquíssimo na vida, provavelmente qualquer pessoa que estiver lendo já viajou mais que eu, mas isso já envolve uma série de complexidades, e também não é o que quero abordar. Só pra constar: estou falando de viagem literalmente, a geográfica. Não é aquele outro tipo, como alguém ler um texto meu e pensar, o que é comum: “Juliano está viajando” (por mais que eu ache este outro tipo de viajem muito bem-vinda também).

Como todos, penso eu, o que gosto quando viajo é conhecer o lugar (isso é uma obviedade). Porém, existem maneiras de “conhecer o lugar”. Eu lembro que pouco antes de me mudar para o Rio, li vários blogs que falavam da cidade; um deles (não faço a mínima ideia de qual, é uma pena, gostaria de citar), era escrito por uma pessoa que não era daqui, mas morava aqui (como eu viria a ser), e perguntou, para pessoas como eu, se elas iriam morar no Rio ou viver no Rio. Acho que foram essas as palavras usadas, mas o sentido era claro: se se iria fazer do lugar (o Rio, no caso) seu CEP simplesmente, ou se iria, de fato, fazer parte, absorver a (e ser absorvido pela) cidade.

Quando eu cheguei aqui, fiquei umas duas semanas em um Airbnb para procurar um apartamento; visitei uns vinte, foi bem cansativo, apesar de eu ter uma ideia bem clara do que e onde eu queria. Nesse período, e mesmo logo depois de ter encontrado o lugar onde vivo, usava muito Uber, afinal, não conhecia a cidade. Mesmo assim, já desde o começo eu fazia muitas coisas (como visitas aos apartamentos) a pé, pois via no mapa que era perto. Aliás, na zona sul (disseram-me isso de início), eventualmente, tem-se tudo perto. (Eu também já ficava batendo papo com os porteiros do meu lar provisório e com o garçom do lugar onde almoçava às vezes – contou-me sua vida inteira!). Houve uma gradação: passei a usar ônibus (que é uma aventura aqui no Rio! Foi abandonado logo em seguida), depois o metrô, e a bicicleta que é meio de locomoção que mais tento usar, além das minhas próprias pernas: só uso Uber (ou táxi) para sair à noite e, algumas vezes, só para voltar. Ou quando a preguiça está demais, mas evito sempre que posso e não é por uma questão de dinheiro. No meu caso, é prazer mesmo. O metrô, apesar da incrível lotação em alguns horários, é porque eu nasci e me criei em uma cidade (Porto Alegre) que não tem metrô, então é sempre uma novidade muito legal para mim (e muito mais rápido e bem mais seguro também); a bicicleta, para além de ser saudável, é porque é maravilhoso poder ir pedalando para os lugares, ainda mais em uma cidade com vistas “pouco bonitas” como aqui, e equipada com uma grande ciclovia que é, na maior parte do tempo, respeitada (na zona sul, no resto da cidade é diferente).

Sei que estou falando de onde vivo, mas como não sou daqui, vale o mesmo para quando se viaja a passeio, o princípio se mantém: pode-se relativizar a experiência. Afinal, podemos vivenciar momentos breves que se eternizam. Desta forma, sinto a mesma coisa em uma cidade que estamos visitando. Conhecer o lugar, para mim, é ir nas “entranhas”. O que isso quer dizer? Não é ir nos pontos turísticos, por mais legal que possa ser. É ir naqueles lugares que guardam mais a “alma” do local (boa parte dos cariocas nunca foi no Cristo ou no Pão de Açucar!) e, principalmente, falar com as pessoas. Isso sempre foi o que eu mais gostei: conversar com quem é da cidade onde estou, eu adoro ouvir o sotaque diferente (mesmo que seja fora do Brasil), as ideias que têm sobre onde nasceram/vivem, etc. E como se faz isso? De uma maneira geral, andando pela cidade, descobrindo-a, com encontros ao acaso, suas peculiaridades, seus recantos (mesmos que não sejam escondidos), suas belezas. Só assim que isso aconteceu comigo aqui no Rio: o prazer de andar pelas ruas internas dos bairros, de ver, de repente, de surpresa, o Cristo ao longe no meio da tarde. Claro que isso cria hábitos (tudo antes da pandemia, agora há de se encontrar novos): na banca que eu comprava cigarro e na barraca que sempre ia na praia em Ipanema, as pessoas me chamavam pelo nome; mas não era banca nem barraca “famosas”, eram nas quais encontrei, por tanto andar, o meu lugar (a banca trocou de donos – e eu de banca –, mas a barraca da Marceli se manteve, que sorte!). Eu estou falando de se criar intimidade.

O Uber/táxi é a morte da cidade. Quando pego qualquer um deles, obrigatoriamente eu tenho de saber para onde vou (e, geralmente, é um lugar “turístico” e/ou com roteiro predeterminado); mesmo admirando a paisagem, que experiência eu posso ter de passar, por exemplo, por determinada rua de carro? Que novidade de sensações pode aparecer? Alguma, ok (no meu caso, sempre puxo papo com o motorista), mas pouco frente ao que o andar a pé pode oferecer, os encontros que poderemos ter. Estou falando de explorar a cidade mesmo. Eu não acho que passar de carro por algum lugar é o conhecer. Eu tenho uma “rua preferida” aqui, sempre ando por ela: nossa, que sensação boa que é! Difícil descrever. Há outras, ok, estou só pensando especificamente em uma. Não é necessário morar no lugar para isso: qualquer um que caminhasse ali poderia descobrir uma infinidade de coisas boas. Ah! E eu sei que muitas pessoas acham que correm perigo mortal se saírem caminhando pelo Rio de Janeiro (sempre destacando que estou falando da zona sul). Terei de escrever uma crônica só para isso.

Não muito tempo atrás, comprei uma cerveja num fim de tarde e fui andando pela praia aqui em Copacabana, molhando os pés na água; um homem, com aparência de morador de rua, cruzou correndo na minha frente e mergulhou no mar. Um vendedor daqueles drinks que parecem de plástico engatou ao meu lado e começou a conversar (eu não estava muito a fim de conversa...). Deu um verdadeiro discurso sobre como todos são filhos de Deus (referindo-se ao homem que mergulhou) e têm o direito de se divertir, de como coisas ruins acontecem e fazem com que tenhamos uma vida muito pior, mas nada disso é motivo para desistir, etc. Não falei praticamente nada, só concordei. Uma genuína aula. Depois de me abençoar, seguiu seu caminho. Eu fiquei pensando com um sorriso: onde mais se tem uma conversa aleatória dessas, se não no Rio? Faz parte daqui! E qualquer outra cidade têm estas exclusividades de comportamentos e eventos. E como poder vivenciar isso só andando de Uber?

Eu acho que esse tipo de coisa é o que faz nos sentirmos um tanto “cariocas” ou qualquer outro gentílico que for o caso de usar. Eu sou sim muito favorável de fazer programas turísticos, afinal, eles não o são por acaso, (quase) sempre valem a pena. Mas quando viajar, aqui para o Rio ou para qualquer outro lugar, não mate a cidade, deixe-se envolver por ela, assuma seus costumes, caminhe por aí e fale com as pessoas, absorva tudo que puder dessa nova cultura. Sinta a atmosfera única que está experenciando. Sei que isso é uma dica de uma pessoa não viajada, mas acredito firmemente que é isso, muito mais do que as fotos e vídeos feitos para postar em redes sociais (e para lembranças também), que vai ficar, a memória afetiva. Isso que faz valer a pena viajar: não só ver lugares bonitos, mas termos experiências que, de alguma forma, vão nos modificar e nos ajudar a continuar sempre em movimento (não é esta a alma do tratamento psicanalítico também?). Caminhando.



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