top of page
  • Foto do escritorJuliano Corrêa

O lugar que se amou


Eu adoro memes. É sério. Gosto muito! Não só, claro: também procuro o que me interessa e me mantenho informado através da internet. Eu também fico sempre muito desconfiado, como todos nós devemos ficar, não só com notícias, mas quando vejo alguma citação ou situação contada. Será que é isso mesmo? Sempre temos de conferir: é impressionante, ainda hoje, que pessoas engulam, sem nem engasgar, qualquer coisa que veem ou recebem pelas mídias sociais. Espero que você não seja uma dessas.

Fato é que, há pouco tempo, deparei-me com uma frase maravilhosa creditada a Rubem Alves. Desconfiei, claro, e fui procurar porque fiquei muito interessado mesmo! Encontrei um pequeníssimo vídeo dele falando a frase, mais completa ainda, então, deve ser verdade (não acho que a IA já atingiu esse tipo de assunto). Óbvio que deixarei o link do vídeo no final do texto, como sempre faço. Vou transcrever o que ele diz (é bem curtinho), pois cada palavra é valiosa.

“Um conselho: se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo. Porque você vai visitar pensando que você vai encontrar o tempo, mas o tempo não está mais lá. É melhor você ficar com a imagem na sua cabeça. Eu não pertenço a esse lugar, esse lugar não me pertence mais”.

Nossa... eu me arrepio. Isso é de uma potência, de uma verdade, de um assombro monumental! É lindo. Vamos refletir um pouco então (e tentar não estragar!).

Podemos pensar: “tá, mas então eu não posso visitar de novo um lugar que eu amei?”. Eu realmente acho que não é disso que se trata, e a continuidade da frase parece me dar razão: o tempo não está mais lá. Belíssimo isso, né? O tempo não está mais lá. Você pode visitar, fisicamente, o lugar, mas não o tempo. O tempo é algo para o qual podemos voltar?

Eu não vejo esta frase como algo concreto, de não voltar materialmente a um lugar (ou a um relacionamento, uma situação, seja o que for), mas em como podemos pensar esta volta, se assim for. É que eu acredito que, em boa parte das vezes, nós voltamos querendo encontrar o tempo justamente, e aí Rubem Alves está certíssimo: ele não está mais lá, eu não pertenço a este lugar, e este lugar não me pertence mais. Porque passou. É como diz a linda e famosa música nativista gaúcha, de Mário Barbará e Sérgio Napp: “mas o que foi, nunca mais será...”.

Esta volta tentando encontrar o tempo que não está mais lá é problemática por querer reproduzir uma história, e isso é impossível. É um desejo nostálgico, e a nostalgia, como já escrevi em outra crônica,[1] não tem um fim bom, pois o sentimento, a história, acima de tudo o instante, não estar mais lá. Este é fugitivo, só existe nesta realidade uma única vez, permanecendo como possibilidade em outro lugar.

A forçada para encontrar o tempo pode devastar a lembrança, o que poderíamos traduzir como terminar com o amor (pelo instante ou experiência que se viveu), como aludi na crônica anterior.[2] A lembrança é o que pode ser visitado com atualidade, sempre permanecendo, mas, acima de tudo, sempre se renovando. A tentativa de visitar o tempo mata o instante justamente por tentar o encontrar onde ele não mais existe.

Isso é importante para notarmos a constante mobilidade do tempo, o que quer dizer, de nós mesmos. O lugar, se for o caso, ainda pode estar lá; ele mesmo já não é igual (afinal, vamos pensar no sentido do espaço-tempo, como Einstein já ensinou), mas o que lhe dá vida, ou seja, as vivências, certamente não são as mesmas. Você é a mesma pessoa que dez anos atrás? Que há um ano? Que há uma semana???

Como muito bem disse The Flash no emocionante fim da “Liga da Justiça” (a verdadeira!), nós não fazemos só o nosso próprio futuro, mas também fazemos o nosso próprio passado. Tudo quebra, tudo muda, são frases do mesmo filme, mas do finado pai do Ciborgue. Ele completa: “o mundo não é consertado no passado, só no futuro, o ainda não, o agora”. Não é este o tempo psicanalítico? Eu já o chamei de “ainda-agora”, talvez querendo fazer oposição ao “só-depois” (après-coup) do entendimento francês da noção temporal de Freud, o Nachträglichkeit. Em inglês tem outra tradução, levando para um entendimento possivelmente distinto de acordo com criadores dessa escola (parece que nós, brasileiros, que ficamos só importando significados). Minha ideia do “ainda-agora” é errada, pois está de acordo com todas as noções de temporalidade da psicanálise. O correto é ser literal: not yet, ainda-não. Este é o tempo da psicanálise. Não remete, da maneira que for, ao passado/presente, mas sim ao futuro/presente. Seguindo uma ideia do universo em blocos, é como inúmeros pontos de uma realidade que está acontecendo e que podem ser acessados, mas apenas uma vez, seja do passado ou do futuro, todos juntos. Surge um paradoxo: o instante não pode ser revisitado, mas a lembrança sempre permanece de forma ativa, ou seja, sendo criada, uma lembrança tanto do passado quanto do futuro. Mas isso já é memória para outra (longa) discussão que ainda teremos em outro momento.

Se eu posso dar um conselho (Rubem Alves o dá, então eu arrisco também!), é que você pode, é claro, visitar um lugar (ou, como estou insistindo, qualquer outra coisa!) que amou, desde que seja para viver coisas novas, ainda que temperadas pelas lembranças. Agora, se for para reviver o instante, este está para sempre perdido, pois é incessantemente fugitivo. Aí, Rubem Alves tem total razão: não está mais lá, não nos pertence mais.



Julho, 2023.


Este é o pequeno vídeo de Rubem Alves falando a frase que transcrevi. Potentes palavras.



O LUGAR QUE SE AMOU
.pdf
Fazer download de PDF • 442KB


Comments


bottom of page