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UMA GRANDE PEDRA NO SAPATO - Os paradoxos de Freud, parte II

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • há 2 dias
  • 37 min de leitura

 

I want you to notice when I’m not around

You’re so fuckin’ special, I wish I was special

But I’m a creep, I’m a weirdo

What the hell am I doin’ here?

I don’ belong here

 

“Creep” – Radiohead

 

 

Freud era um homem dividido. É dramático dizer isso; porém, ele mesmo era dramático (é só o ver intitulando o seu próprio isolamento no início da psicanálise como “esplêndido”), então, eu me autorizo.

Formado firmemente nos moldes da ciência da sua época, Freud se identificava com esses ideais e os perseguia ferozmente em busca de reconhecimento dos seus pares. Conhecia profundamente os métodos vigentes, mas também percebia que eles não se encaixavam e/ou não bastavam para o que ele estava construindo. A relação da psicanálise com as outras escolas de pensamento contemporâneas a ela era só temporal, a começar por suas origens: a psicanálise no consultório; as outras, no laboratório. É um grande paradoxo: a referência científica na qual baseava o seu pensamento e através da qual ansiava por reconhecimento se tornou uma grande pedra no seu sapato. Talvez porque Freud, como ele mesmo referiu, não era um cientista, mas um conquistador, um aventureiro (CORRÊA, 2025).

Os paradoxos freudianos vão além da sua teoria: na sua vida pessoal eles também se fazem presentes, como nas suas relações afetivas e no tumultuado convívio com/em Viena. Freud mantinha, pessoal e teoricamente, uma postura vanguardista e conservadora ao mesmo tempo. Esta talvez seja uma das facetas que torna sua personalidade tão fascinante. Diferentemente de outras áreas do saber, Freud e psicanálise se misturam: não é possível contar a história de Freud sem contra junto a da psicanálise, como Gay (2012) destacou muito bem; igualmente, o estudo da psicanálise se empobrece se não entendemos quem foi e por onde andou o homem que a inventou.

Este texto psicanalítico é a sequência direta do último publicado neste espaço, “Um Freud positivista... mas nem tanto” (CORRÊA, 2025), e continua a explorar as contradições de Freud, como eu chamei inicialmente, mas hoje acho mais adequado chamarmos de “paradoxos de Freud”. Também se insere na “perna” do espaço no estudo inicial sobre o acaso na psicanálise, sendo o terceiro.[1] Neste “espectro espacial”, tentamos ter mais clareza do uso e do significado que a ideia de determinismo psíquico guarda no pensamento freudiano e, tão essencial quanto, como funciona o conceito de sobredeterminação na obra de Freud, aparentemente deposto do léxico oficial de Freud, mas muito mais essencial.

Dessa forma, compreender os caminhos pelos quais Freud formulou concepções tão capitais para a psicanálise se torna necessário para um justo questionamento e, quem sabe, ali na frente algumas propostas psicanalíticas sobre o acaso.

 

Em 1896, provavelmente dia 21 de abril, Freud proferiu uma conferência na Sociedade de Psiquiatria de Viena sobre a etiologia da histeria. Nesta apresentação, que foi transformada em texto, “A etiologia da histeria” (FREUD, 1896/1996), ele apresenta sua teoria da sedução, então ainda vigente. Faz uma bela analogia do terapeuta na histeria com o explorador de uma cidade antiga em ruínas cujo objetivo seria deixar que as pedras falassem, assim como o terapeuta faria com os pacientes para descobrir seus traumas. É uma ideia clássica para a psicanálise e de grande importância para o nosso estudo do acaso: há algo escondido que deve ser desvendado. Duas coisas, bem no início da exposição, são curiosas: a primeira, é que Freud diz que vai propor um método para o tratamento da histeria que fuja da anamnese e se pareça mais com uma avaliação médica, que é mais segura e objetiva (dá o exemplo de um dermatologista em ação), mas o que ele oferece, com o exemplo das ruínas, é o que viria a ser o método psicanalítico, que não se assemelha ao diagnóstico médico; a segunda questão, é que ele insiste ao longo do texto quanto ao número de casos estudados por ele para dar suporte para a sua teoria, mas sem apresentar nenhum dado quantitativo ou estatístico que poderia ser aceito pelos cientistas positivistas. Bom, a sua fala teve “[...] uma recepção gélida por parte daqueles imbecis [...]”. Só não foi completamente nula pela famosa opinião do psiquiatra e sexólogo Richard von Krafft-Ebing: “parece um conto de fadas científico”, avaliação que foi considerada “estranha” por Freud, pois ele julgava ter demonstrado aos ouvintes “[...] a solução de um problema de mais de mil anos, uma caput Nili (cabeceira do Nilo)!”. Encerra a apreciação quanto a acolhida de sua palestra escrevendo ao então amigo Fliess: “pois que vão para o inferno, para expressá-lo eufemisticamente” (FREUD, 1986, p. 185). Mesmo com essa experiência, que deve ter enfurecido Freud, ele continuou mantendo o mesmo estilo, inclusive metodológico, em seus ensaios clínicos.

Atentemos: 1896! A psicanálise estava sendo ainda rascunhada, todos os principais conceitos de Freud ainda estavam no forninho, sendo discutidos basicamente só por esta dupla dinâmica, mas a confiança no sucesso e, principalmente, o desejo de reconhecimento eram soberbos. Para a nossa discussão, este aparenta ser um ponto fundamental: o desejo de reconhecimento. Como Gay (2012) e Roudinesco (2016) muito bem demonstram, Freud tinha um grande desejo de vencer na vida, mas não no sentido burguês, ter bens ou muito dinheiro, até porque ele estava em uma situação muito confortável para seguir por este caminho e com uma grande chance de ser muito bem-sucedido. Queria mesmo era vencer como cientista. Tanto que situações como sua indicação para o prêmio Nobel ou sua nomeação para Professor Extraordinário na universidade de Viena causavam grande conflito interno (GAY, 2012). Vejamos rapidamente, só como exemplo, um pouquinho mais de perto essas duas conjunturas.

Freud era um “falso modesto”. Sobre a palestra descrita agora, Gay (2012, p. 109) escreve que “foi uma noite que Freud decidiu nunca esquecer; o resíduo traumático por ela deixado transformou-se num pretexto para entreter poucas expectativas e numa justificativa para seu pessimismo”. É a partir daí e de acontecimentos como esse que ele se retira para o splendid isolation, o “esplêndido isolamento” que Freud (1986, p. 413) descreve para Fliess, com a expressão em inglês, em uma carta de 7 de maio de 1900. É claro que Freud tinha suas razões, ele realmente foi alijado pela comunidade científica, é só vermos as ridículas vendas de “A interpretação de sonhos” nos primeiros anos,[2] a rejeição da sua teoria da sexualidade, como acabamos de ver, a grande resistência que do ambiente positivista impunha: a psicanálise sofria sim ataques, sofre até os dias de hoje; além disso, em um nível mais pessoal, ainda que a psicanálise fosse também algo muito pessoal, como Gay (2012) conta e Roudinesco (2016) reafirma, desde a infância, passando pelos primeiros anos de faculdade, Freud enfrentava fortes situações antissemitas, que culminaram na maior de todas, impedindo-o de morrer em casa, mas morrendo em liberdade, fugindo de Viena para Londres um ano antes de sua morte. Porém (e ainda veremos mais “poréns” neste artigo), como os mesmos biógrafos revelam, a “especialidade” de Freud já estava posta desde sempre na sua família: era the chosen one, o escolhido para fazer faculdade e ter grande sucesso, o filho preferido, aquele que tinha um quarto para estudos e iluminação diferenciada para os mesmos, aquele que não se podia atrapalhar em suas leituras (música não era muito bem-vinda na casa dos Freud). Então, parece que Freud já nasceu talhado para sua aventura conquistadora. Como conquistador, não bastaria a ele vencer simplesmente como um médico bem-sucedido, era preciso mais, era preciso criar, era preciso provocar uma ferida narcísica na humanidade do nível de Copérnico e Darwin. Este trecho é tão maravilhoso (e megalomaníaco, talvez) que vale sua transcrição na íntegra.


"Ao enfatizar desta maneira o inconsciente na vida mental, contudo, conjuramos a maior parte dos maus espíritos da crítica contrário à psicanálise. Não se surpreendam com isso, e não suponham que a resistência contra nós se baseia tão-somente na compreensível dificuldade que constitui o inconsciente ou na relativa inacessibilidade das experiências que proporcionam provas do mesmo. A origem dessa resistência, segundo penso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente" (FREUD, 1917a/1996, p. 292).[3]


Vejam bem: Freud não só coloca sua criação como o terceiro golpe narcísico na humanidade, como a coloca como o mais violento! Se juntarmos isso com a dúvida se haveria uma placa em sua homenagem por um sonho que teve (o sonho da “Injeção de Irma” que, segundo ele, revelou os segredos dos sonhos), quanta confiança em si! Ao mesmo tempo, é notório o estilo “newtoniano”, como disse Gay (2012), de uma pretensa modéstia ou, mais ainda, sentimento de pouco reconhecimento, o que coaduna a alta estima que mostrava ter, principalmente em relação a sua obra. Há algo de trágicono isolamento de Freud. Diria que este foi, simultaneamente, imposto e autoimposto, reclamado e desejado. Esse paradoxo está em várias situações da vida de Freud, como as duas que nomeei acima.

Como sabemos, Freud nunca ganhou um prêmio Nobel. Quanto a isso, vê-se claramente o tal estilo “newtoniano” de (falsa) modéstia. Ele sempre foi da opinião que nunca seria agraciado com o Nobel, por causa das resistências à sua obra, e também se mostrava um pouco incomodado quando esta possibilidade era aludida. Entretanto, houveram campanhas mais maciças em favor da premiação de Freud em 1920, 1928 e 1930, além de incentivos menores em outros anos, e, ainda que de fato não encorajasse, não havia uma reação contrária tão forte por parte dele. Como Gay (2012) mostra, Freud escreveu “nenhum prêmio Nobel 1917” (p. 377) em 25 de abril daquele ano, e “prêmio Nobel posto de lado” (p. 382) em 6 de novembro do ano seguinte. Posteriormente, lê-se em sua Kürzeste Chronik (“A mais curta crônica”, sua agenda de anotações muito concisas, geralmente apenas uma palavra ou pequena frase de assuntos mais importantes do dia, mantida a partir de 1929) “preterido para o Prêmio Nobel” (FREUD, 2000, p. 74) em 31 de outubro de 1929, e “definitivamente preterido para o Prêmio Nobel” (FREUD, 2000, p. 128) em 6 de novembro de 1930. Várias marcações do não recebimento do prêmio para quem não esperava ou não se interessava por ele. Gay (2012) conta que Heinrich Meng, psicanalista alemão, foi quem organizou as campanhas em 1928 e 1930, conseguindo um grande número de assinaturas de personalidades importantes. Thomas Mann aceitou assinar com uma condição: que o prêmio fosse de medicina. Meng sabia que isso era impossível: o psiquiatra destacado como autoridade pela Academia Sueca considerava Freud como uma fraude e uma ameaça, deixando o prêmio de literatura como a única opção. Já Einstein tinha posição oposta: por não poder dar um parecer da veracidade das teorias freudianas, negou-se a participar. Além disso, considerava estranho o psicólogo Freud ganhar um prêmio de medicina que, segundo o físico, seria o único viável.


"Freud deve ter acolhido, mas tentando desencorajar, todos esses esforços bem-intencionados. Declarando não estar a par das atividades de Meng, ele perguntou retoricamente a Ernest Jones: ‘Quem é tão tolo para se meter nesse assunto?’. A própria veemência da pergunta sugere que, se lhe fosse oferecido o prêmio, Freud o teria agarrado com as duas mãos" (GAY, 2012, p. 461).


Por que Freud inseriu a palavra “definitivamente” em sua anotação de 1930? Uma possibilidade é o recebimento alguns meses antes, em 3 de julho, da notificação oficial de que fora agraciado com o prêmio Goethe, anotado com aparente alegria em sua “Crônica”: “apareceu o Prêmio Goethe” (FREUD, 2000, p. 114). Apesar da felicidade pela proximidade com seu admirado Goethe, e também pelo dinheiro recebido, algo importunava Freud. Como escreve Michael Molnar, autor dos comentários das notas da “Crônica” de Freud, essa honraria colocava o pai da psicanálise ao lado de escritores e artistas, que sempre foram muito mais abertos para sua teoria do que os cientistas propriamente ditos, e com os quais sempre teve contato, “mas não gostava de ser descrito como um ‘artista’, sentia que isto depreciava a essência do seu trabalho – sua realização científica” (FREUD, 2000, p. 85).[4]

Realmente não me parece que o desejo, mesmo que não manifesto, de Freud por prêmios, principalmente o Nobel, o mais importante, era guiado por anseios narcísicos (ainda que ele os tivesse!). É isso que mostra Michael Molnar ao comentar a anotação de Freud (2000) de 1929 sobre o preterimento para o Nobel: desde 1915 este já era um tema que aborrecia Freud. Em uma carta para Ferenczi, ele escreve que a premiação remeteria ao respeito do público geral e aceitação internacional e oficial da psicanálise. Aqui, outro ponto interessante: julgo que Thomas Mann estava certo em não aprovar o prêmio de literatura para Freud, pois seu campo de atuação não era a literatura; também acho correta a opinião de Einstein, pois ainda que Freud tivesse cursado a faculdade, o que ele fazia não era medicina. O que ele fazia era algo diferente. A única solução seria se houvesse um prêmio Nobel de psicanálise. Não havia; não há até hoje. Desta forma, o reconhecimento tão desejado por Freud era dificultado pelo fato de sua invenção não ter um lugar predeterminado. A universidade, local da ciência por excelência, também foi um capítulo tortuoso em sua vida.

Desde 1885, Freud era Privatdozent, título que designava professores que receberam designação, mas não a cátedra de ensino ou pesquisa, logo, não recebiam a remuneração do governo (que viria a calhar com a família de Freud crescendo exponencialmente). A nomeação de Professor Extraordinário, ainda que não causasse tanta diferença financeira, trazia uma mudança considerável de status, podendo promover um vultoso incremento na sua clínica. Porém, os caminhos para a promoção eram complexos: não bastava originalidade e mérito apenas, eram necessários contatos e indicações.


"Ele [Freud] sempre fora atento à fama, mas ansiava por fama que não fosse comprada, o tipo mais doce de reconhecimento: a recompensa apenas pelo mérito. Não queria ser como o sujeito que prepara a própria festa-surpresa de aniversário, para que o mundo não esqueça a atenção que lhe deve" (GAY, 2012, p. 153).


  As resistências quanto a promoção de Freud passavam pelo antissemitismo e também pela sua teoria sexual das neuroses bastante escandalosa. Após 16 anos de espera, vendo colegas progredirem rapidamente na carreira, cansado de esperar e com sua clínica reduzida, ele resolveu tomar algumas atitudes. Solicitou ajuda a Elise Gomperz, amiga, ex-paciente e esposa de Theodor Gomperz (que contratou Freud para realizar as traduções de Stuart Mill) para descobrir o que acontecia com a demora de sua esperada promoção. Ela interpelou Hermann Nothnagel, que dirigia o departamento de medicina de doenças internas e Krafft-Ebing (do “conto de fadas científico”) para que reafirmassem a indicação que já haviam feito; assim o fizeram, mas nada aconteceu. Então, Freud recorreu a baronesa Ferstel, também amiga e ex-paciente, de posição social ainda mais elevada, que intercedeu diretamente com o ministro da educação, usando uma pintura de Emil Orlik como propina. Não demorou: em 22 de fevereiro de 1902, finalmente, Freud recebe o título de Ausserordentlicher Professor (Professor Extraordinário). Uma conquista, sem dúvida, mas os sentimentos de Freud eram controversos: sentia-se mal por não ter sido nomeado antes, caso tivesse procurado as influências, mas também se consternava por ter sido ele mesmo o articulador de sua nomeação, sem o tão desejado reconhecimento (GAY, 2012).

Apesar do narcisismo, parece-me que o desejo (altamente disfarçado) de Freud pelo Nobel, por exemplo, era relativo ao reconhecimento que ele (e, por consequência, a psicanálise) receberiam, por isso ele se frustrava com a possibilidade de ganhar a honraria pelo campo da literatura; quanto à universidade, para além de fama e remuneração maior, também não era a questão de uma carreira universitária, mas a aceitação do lugar da ciência por excelência: a academia.

 

Vejamos mais algumas questões que dão suporte ao que já foi exposto. Freud era um cientista formado na ciência de sua época. Por mais de redundância (e obviedade) que essa frase contenha, escrevo isso para marcar que não acho (como pode parecer) que Freud “fingia” o uso de alguns elementos: ele se utilizava de uma linguagem não apenas conhecida, mas a única que ele achava possível, a da ciência, e em nenhum momento se considerava fora desse espectro. No entanto, há flagrante estranheza entre o que ele dizia que a psicanálise era com o que ele mesmo descrevia da mesma. Como neste exemplo, que não é o único, em que Freud destaca o caráter experimental da psicanálise:


"[...] não devem, de modo algum, supor que aquilo que lhes apresento como conceito psicanalítico seja um sistema especulativo. Pelo contrário, é empírico – seja uma expressão direta das observações, seja um processo consistente em trabalhá-las exaustivamente" (FREUD, 1917c/1996, p. 252).


Muito embora não utilizasse tais premissas, Freud tentava calcar seus relatos em dados empíricos, os quais enfatizava, baseado em seu próprio método da interpretação, tentando assim justificar seus achados. Eu acredito que Freud “relaxa” um pouco mais nesse sentido depois de 1920, parece assumir mais sua posição única. Um marco desse processo pode ser a inserção da noção de construção (FREUD, 1937a/1996) na sua teoria. Ainda que esse pensamento seja justo, eu penso que é equivocado: que ele tenha insistido menos na sua justificativa empírica, isso parece verdade; agora, na prática, mesmo em textos iniciais, é extremamente difícil ver e entender onde está a base quantitativa que ele sugere.

A relação da psicanálise com a ciência[5] também se encaixa nesse mesmo modelo. Freud tinha sua concepção de ciência clara. O maior exemplo disso é a conferência sobre a Weltanschauung (FREUD, 1933a/1996).[6] Desde o momento em que a psicanálise se constitui e durante a sua evolução (fim do século XIX, início do século XX), há a grande “querela dos métodos”.[7] Esse debate dividia as paixões basicamente em duas frentes: as Naturwissenschaften, ciências naturais, de um lado, e as Geisteswissenchaften, as humanidades, ciências do espírito, de outro. Nas primeiras, o objeto é universal, o objetivo é explicar, estabelecer relações de causalidade entre os fenômenos, levavam a marca dos ideais do determinismo e do universalismo, o grande modelo é a física de Galileu e Newton; já nas outras, o objeto é irredutível, tendo uma individualidade própria, visa compreender, trabalhavam relações de significação no campo do discurso, eram marcadas por incertezas e pelo contexto, caracterizam a existência humana (como História, Economia, Etnologia) (ASSOUN, 1983; BIRMAN, 1994). Pois então, a posição de Freud (1933a/1996) sempre me soou bastante confusa de entender neste texto, pois ele define, sem dúvida alguma, a psicanálise como ciência natural, mas seus argumentos parecem não coincidir o estatuto dos tipos de ciência. O que acontece é que Freud não considerava essa oposição: para ele, as ciências da natureza eram as únicas possíveis e existentes, o que Assoun (1983, p. 45) chama de “fundamento monista”, parecido com o conhecimento de “uma única ciência” que Bezerra Jr. (2013) destaca. Um dos motivos para esta atitude são as fortes raízes de sua formação científica, do momento em que ela aconteceu. “Tendo iniciado seu percurso científico na pesquisa básica, nas áreas da anatomia e da fisiologia do sistema nervoso, Freud dominava perfeitamente a linguagem e as hipóteses hegemônicas no campo das ciências da vida” (BIRMAN, 1994, p. 31), daí ele ressaltar a cientificidade da psicanálise com base nos pressupostos dos paradigmas das ciências da natureza. Por isso Freud era tão avesso a considerarem a psicanálise como literatura ou coisa do tipo; não, a psicanálise é uma ciência, e, consequentemente, ciência natural (MEZAN, 2003).

A incongruência desse posicionamento é que parece óbvio que a psicanálise estaria mais afinada com as ciências do espírito nessa querela. Afinal, como Birman (1994) destaca, o lugar epistemológico do intérprete seria decisivo nas ciências do espírito, ao contrário da neutralidade do naturalista, o que fica patente se pensarmos na implicação do analista na transferência, enfim, em todo o cenário clínico psicanalítico. Então, Freud fazia força para mostrar como a psicanálise pertencia neste mundo científico único que ele concebia, mas ela não era aceita de forma alguma. É certo que “Freud nunca desistira da ideia de fazer da psicanálise uma ciência ‘pura’ comparável ao ‘cálculo infinitesimal’” (ROUDINESCO, 2016, p. 386); “contudo, se considerarmos o modelo de ciência dominante, no contexto histórico da constituição da psicanálise, é evidente que o saber psicanalítico não se inseria no discurso da ciência” (BIRMAN, 1994, p. 28). “O paradoxo da psicanálise é que nela se acede ao universal através do cuidado extremo prestado à natureza singular de cada experiência psicanalítica. Nisto ela se diferencia das ciências da natureza” (MEZAN, 2003, p. 51).

O ambiente que já não era em nada favorável a Freud, ficou ainda pior bem debaixo do seu nariz no fim da década de 1920: ganhou muita força o “Círculo de Viena”, precursor do neopositivismo (ou positivismo lógico), que confirmava a validade da linguagem matemática, balizava o saber científico por assertivas verificáveis, ou seja, fatos de ordem experimental e, consequentemente, abolia qualquer referência metafísica, visto que estas seriam proposições sem sentido (HAHN, NEURATH e CARNAP, 1986).

Desse jeito, nossa psicanálise ficava no campo das enunciações sem sentido; por mais que Freud se esforçasse para mostrar certo caráter experimental e verificável da sua teoria, claramente seus métodos não se encaixavam nas exigências. Ainda que se comparasse com a ciência física, a diferença era grande: além da busca pelo sentido via interpretação (não experimentação), ainda que não fosse arbitrária, a descoberta psicanalítica passa necessariamente pela subjetividade do investigador (MEZAN, 2003). O “Círculo de Viena” teve grande impacto em Freud no que se refere às obrigatoriedades normativas de delimitação do saber científico (ROUDINESCO, 2016; GAY, 2012).

Mas sendo Freud tão conhecedor dos métodos de pesquisa vigentes, por que havia esta dificuldade? A resposta é relativamente simples: ele estava criando algo novo. Gay (2012) conta que Freud nunca tinha ficado satisfeito com o procedimento de pesquisa corrente de seu tempo, talvez porque eles não davam conta do que ele precisava.


"Embora conhecesse a psicologia experimental, Freud não coletava dados a partir de experiências controladas nem fazia análises quantitativas dos seus resultados. Os dados que coletava e os modos como os interpretava estavam em discrepância com os métodos da psicologia experimental. E tinham de estar, dado o objeto de estudo escolhido por Freud" (SCHULTZ e SCHULTZ, 1992, p. 342) [Grifo meu].


Apesar disso, era necessário ser aceito e reconhecido por aquela comunidade científica (CORRÊA e HAUSEN, 2007). Este parece ser o ponto problemático.

Ora, a relação da psicanálise com as outras escolas de pensamento era apenas temporal: elas têm sua origem no laboratório, nas bibliotecas e salas de aula, na academia de forma geral, preocupando-se com percepção, sensação, aprendizagem, tentando ser ciência pura; já a psicanálise surge da clínica, suas preocupações e objetivos estão mais voltados para a psicopatologia, num primeiro momento, o comportamento anormal, relativamente negligenciado por outras escolas  (BIRMAN, 1994, 2017; GARCIA-ROZA, 1998; MEZAN, 1998; SCHULTZ e SCHULTZ, 1992). Foucault (1978) destaca a loucura como uma invenção do século XVIII: não estava latente e foi descoberta, mas sim inventada literalmente, historicamente construída. Aprofundando esses desenvolvimentos no campo da medicina em “O nascimento da clínica” (FOUCAULT, 1977), ele mostra um terceiro momento da evolução do estabelecimento da clínica médica, remontando a Bichat e sua reformulação da histologia, que terá grande impacto na medicina do século XIX: a anatomoclínica. Plenamente de acordo com o que era preconizado na época, “[...] foi estabelecida a relação entre o registro dos sintomas das diferentes enfermidades recenseadas pela clínica médica e as lesões corporais” (BIRMAN, 2003, p. 48). Castro (2017, p. 50) destaca a presença do cálculo laplaciano na investigação de Foucault para mostrar como a medicina se orientou para uma medicina dos órgãos a partir da anatomia patológica com o “[...] estabelecimento de constantes gerais e calculáveis”. Por isso a histeria enlouquecia tanto os médicos de então: não havia lesão orgânica para explicar o adoecimento. Foi exatamente por esta porta que Freud entrou, fazendo parte de um pequeno grupo de exceções que subverteram o campo da clínica. O nascimento da psicanálise não se deu por oposição a outra corrente de pensamento psicológico ou filosófico, mas pela posição ao contexto da loucura no século XIX, como bem demonstram Garcia-Roza (1998), Schultz e Schultz (1992) e Birman (2003).

A tradição epistemológica francesa de Bachelard (2016) se afigura um tanto útil para o entendimento desse imbróglio, através da noção de ruptura epistemológica. É a partir de um desenvolvimento que vai constantemente se transformando que se tece a trama conceitual para a criação de objetos científicos. Neste movimento, o erro é valorizado, pois é através dele que se pode, numa postura crítica, superar os obstáculos epistemológicos que surgem no trajeto. É uma concepção bastante afastada do positivismo, na qual o erro, ao contrário, é visto como falha que afastaria da verdade ao invés de aproximar dela. Essa ideia se ajusta ao circuito freudiano, que constantemente revia, questionava, avaliava criticamente suas descobertas e criações para, muitas vezes, transformá-las, acrescentá-las ou, até mesmo, descartá-las. É com referência a Bachelard que Althusser (1978) irá desenvolver uma de suas categorias centrais: o corte epistemológico. O que o filósofo francês sustenta é que Freud cria uma ciência com a psicanálise. Não obedecendo uma visão positivista para considerar uma matéria como científica ou não, marca que a psicanálise possui um objeto próprio e irredutível: o inconsciente. A partir deste, desenvolve-se uma técnica de investigação para tal objeto e uma teoria que o suporta e o explica, assim podendo transformar esse objeto em uma prática específica, que seria a cura analítica. Althusser (1985) reconhece a pré-história de uma ciência, afinal, esta não pode nascer do nada. Mas o interessante é que ele coloca que uma ciência reconhecida sempre se liberta de sua pré-história, e não só isso: continua se libertando constantemente.

Por isso que, frente ao desenvolvimento do pensamento ocidental, Garcia-Roza (1998) se pergunta: onde situar a psicanálise? Em nenhum lugar preexistente. Com esse novo objeto, o inconsciente, a psicanálise criou um novo campo do saber a partir do descentramento do sujeito consciente e do eu da filosofia, derrubando a razão e a consciência do seu lugar sagrado no qual se encontravam, ao fazer da consciência um mero efeito de superfície do inconsciente.


"A psicanálise teria, nesse caso, operado uma ruptura com o saber existente e produzido o seu próprio lugar. Epistemologicamente, ela não se encontra em continuidade com saber algum, apesar de arqueologicamente estar ligada a todo um conjunto de saberes sobre o homem, que se formou a partir do século XIX" (GARCIA-ROZA, 1998, p. 22).


Dada a característica de extrema novidade, Althusser (1985) diz que Freud foi uma “criança inesperada” do século XIX, pois não tinha mãe nem pai, ou seja, era algo inédito, independente. Ainda: sobre o “esplêndido isolamento”, que Freud (1986) fala nas cartas para Fliess, ele diz que a solidão do pai da psicanálise não era só humana, de ter sido deixado pelos seus pares, mas teórica.


"Pois, quando ele quis pensar, ou seja, exprimir, sob a forma de um sistema rigoroso de conceitos abstratos, a descoberta extraordinária com a qual deparava, a cada dia, nos encontros com sua prática, foi um trabalho vão procurar precedentes teóricos: ele quase não achou pais na teoria. Teve de sofrer e, ao mesmo tempo, arrumar a seguinte situação teórica: ser, ele mesmo, o seu próprio pai; construir, com suas mãos de artesão, o espaço teórico em que pudesse situar sua descoberta; tecer, com fios emprestados aqui e ali, por adivinhação, uma grande rede com a qual capturaria, nas profundezas da experiência cega, o peixe abundante do inconsciente, que os homens dizem mudo, porque ele fala mesmo quando dormem" (ALTHUSSER, 1985, p. 52) [Grifo do autor].


Afora a beleza comovedora dessa passagem, destaco os tais “fios emprestados” com que Freud teceu sua descoberta, pois justifica o uso, por vezes até exagerado, do vocabulário fisicalista, em parte, como se fosse um cacoete. Ainda que essa crença tenha se mantido, gradativamente Freud foi cultivando um linguajar mais psicanalítico: nos artigos de técnica do início da década de 1910, vemos em abundância a palavra “médico”, “doutor” (Arzt); já no final da década de 1930, toma lugar a palavra “analista” (Analytiker).[8] Só que, reforçando a ideia de Altusser acima, não foi apenas da sapiência de sua época que Freud se valeu para fazer falar sua cria nova. Sobre a nomeação de sua estrutura teórica com o neologismo “metapsicologia”, Gay (2012, p. 369) é da opinião que Freud tinha intenção “[...] de que o termo tivesse uma força polêmica: a metapsicologia devia enfrentar e vencer aquele grandioso e vazio devaneio filosófico, a metafísica”. Mesmo assim, é imediata a conexão que se faz justamente com o que Freud dizia querer se afastar. Além disso, parafraseava o “Fausto”, de Goethe, chamando a metapsicologia de “bruxa/feiticeira”, quase a confundindo com “fantasiar” e reafirmando a importância da especulação (FREUD, 1937b/1996, p. 241); dizia que seu conceito mais original, o instinto, possuía “[...] o caráter de convenções” (FREUD, 1915/1996, p. 145), uma qualidade intrínseca de inacabamento, provisórias, posteriormente relacionada a um “destino maligno”, “algum poder ‘demoníaco’” (FREUD, 1920/1996, p. 32); declarou que permanecia fiel aos princípios de Brücke (FREUD, 1925/1996), mas fazia investidas, ainda que um tanto envergonhadas e escondidas, no campo de investigação da telepatia (FREUD, 1941/1996; 1922/1996), das artes, e, o maior de todos, dos sonhos que, de acordo com Mezan (1998, p. 295), “[...] faria corar de vergonha o severo mestre Brücke...”. Como o próprio autor assinala em seu livro, “Freud, na verdade, não era tão monolítico em suas tendências positivistas, caso contrário não teria sido capaz de inventar a psicanálise” (MEZAN, 1998, p. 294). Isso leva Birman (1994) a afirmar que os enunciados da psicanálise mostram uma pretensão teórica de um saber construído na base da empiria e da verificação, mas uma leitura cuidadosa mostra mais especulação e bruxaria alquimista. Muito desse tipo de busca se deu justamente porque mesmo tendo construído modelos rigorosos de avaliação de consistência interna, mesmo com o esforço em separar conceitualmente a psicanálise da sugestão, seus críticos não viam um verdadeiro espaço experimental (e estavam certos!). As propostas freudianas remetiam a outro modelo epistemológico, não aceito como ciência naquele contexto histórico, não oferecendo o rigor de controle exigido que, por exemplo, o laboratório oferecia.

Freud também se colocava de maneira “oficial” contra os padrões da época, ainda que isso não se estabeleça com força e de maneira definitiva no decorrer da sua obra, parece sempre haver um movimento de “vai e volta”. Quando teve lugar toda a discussão sobre a análise leiga,[9] a saber, o movimento que pretendia tornar obrigatório a formação em medicina para a prática da psicanálise, Freud (1926/1996) se posicionou fortemente contra. Inclusive, desencorajava discípulos leigos, como o fez com Reik, a cursarem uma formação médica (GAY, 2012). Nesse texto consagrado ao tema, literariamente belíssimo, diga-se de passagem, ele coloca de forma clara e enfática a separação da psicanálise com a medicina, mostrando uma independência da psicanálise.


"A primeira consideração é que na escola de medicina um médico recebe uma formação que é mais ou menos o opostodo que ele necessitaria como preparo para a psicanálise. Sua atenção foi dirigida para fatos objetivamente verificáveis de anatomia, de física e de química, de cuja apreciação correta e influência adequada depende o êxito do tratamento médico. O problema da vida é trazido para seu campo de visão até onde nos tenha sido explicado pelo jogo das forças que também podem ser observadas na natureza inanimada. Seu interesse não é despertado no lado mental dos fenômenos vitais; a medicina não se preocupa com o estudo das funções intelectuais superiores, que se situa na esfera de outra faculdade. Supõe-se que só a psiquiatria lide com as perturbações das funções mentais; mas sabemos de que maneira e com quais finalidades ela o faz. Ela procura os determinantes somáticos das perturbações mentais e os trata como outras causas de doença" (FREUD, 1926/1996, p. 222) [Grifo meu].


Na conferência XXXIV, argumentando sobre críticas da falta de números dos atendimentos do Instituto Psicanalítico de Berlim, diz que essas estatísticas não têm muito valor, sendo o ideal focar na experiência do indivíduo, num claro reconhecimento da natureza da psicanálise; porém, mostra seu conflito ao refletir que o fim da luta contra a psicanálise aconteceria pela sua aceitação, por ser “[...] reconhecida como ciência e aceita como tema de ensino nas universidades” (FREUD, 1933b/1996, p. 137).

Todo esse movimento como que pendular de Freud nos possibilita entender melhor certas atitudes suas. “A interpretação de sonhos” (FREUD, 1900a/1996; 1900b/1996), apesar das parcas vendas inicias, tornou-se uma referência. Já “O mal-estar na civilização” (FREUD, 1930/1996) foi surpreendentemente popular, “[...] em um ano, esgotou-se a primeira edição de 12 mil exemplares, excepcionalmente grande para uma obra de Freud” (GAY, 2012, p. 554). Seus minguados seguidores da chamada “Sociedade psicológica das quartas-feiras”, foram aumentando progressivamente, e a psicanálise se espalhando rapidamente pela Europa, com muitos interessados, e também para outros continentes: Japão, Estados Unidos, Brasil, eram países que já faziam estudos e traduções das obras de Freud. A psicanálise não ocupava mais um lugar marginal.


"Em pouco tempo a psicanálise foi transformada numa das mais prestigiosas práticas encontradas pela burguesia para recuperar os seus resíduos; assim como, teoricamente, transformou-se num dos objetos privilegiados de análise e crítica do saber contemporâneo. Poucas foram as teorias que gozaram de popularidade igual à desfrutada pela teoria psicanalítica" (GARCIA-ROZA, 1998, p. 21).


Ainda assim, Freud mantinha uma posição de guerrilha, como se estivesse sendo constantemente ameaçado, mesmo quando a psicanálise já estava consolidada. Certamente isso tem a ver com sua personalidade, mas também podemos entender essa atitude porque ele não recebia o reconhecimento e a aceitação que ele mais queria: da psicanálise como ciência, e dele como cientista sério.

 

Até num nível pessoal Freud mostra uma dicotomia. De sua relação de amor e ódio com Viena às suas intensas amizades. A relação dele com Viena é um caso à parte devido a complexidade histórica e cultural da cidade onde morou a maior parte da sua vida.[10] É bem conhecida a aversão de Freud por Viena, a belíssima cidade na qual viveu desde os 4 anos de idade até um ano antes de falecer, ou seja, por 78 anos, cidade onde a psicanálise, assim como sua família e seus filhos foram criados, onde atendeu seus pacientes e escreveu suas obras vanguardistas no número 19 da Bergasse, o endereço mais famoso da psicanálise.

A correspondência com Fliess apresenta vários desabafos de Freud (1986) sobre sua cidade, como podemos ver algumas. Em 24 de maio de 1898, ao tentar combinar com o amigo o próximo encontro e aludir a possibilidade de o receber em sua casa, escreve: “[...] mas você realmente não sabe o quanto detesto a cidade de Viena” (p. 315). Em 22 de setembro do mesmo ano, após retornar de férias, admite: “[...] voltei há apenas três dias e todo o mau humor de estar em Viena já se abateu sobre mim. É um perfeito martírio viver aqui [...]” (p. 327). Em 11 de março de 1900, comentando do seu isolamento por causa da falta de acolhimento de “A interpretação de sonhos”, e também o fato de não poder sair de férias da maneira que gostaria devido a sua saúde, é ainda mais virulento: “odeio Viena quase pessoalmente e, ao contrário do gigante Anteu, acumulo forças renovadas no instante em que tiro os pés do solo materno” (p. 404). Logo em seguida, em 16 de abril, ao finalizar uma missiva que tratava de trivialidades, dispara: “à parte isso, Viena é Viena, ou seja, extremamente repulsiva” (p. 410). Claro, um ponto que podemos marcar como decisivo para todo esse ódio é a rejeição de sua teoria. Freud não gostava de Viena porque Viena não gostava de Freud/psicanálise (o que veio primeiro?). Só que este “não gostar” é bastante complexo.

Como Winograd e Klautau (2014) bem destacam, a relação de Freud com Viena era paradoxal, assim como a própria Viena também era. Impulsionadas pelos ideais iluministas, várias revoluções afetaram a vida cultural, política e social vienense desde 1806, com a queda do Sacro Império Romano-Germânico e o surgimento do Império Austríaco, passando pela revolução de 1848, com a ascensão de Francisco José ao trono, até o compromisso austro-húngaro de 1867 que estabeleceu uma monarquia dual, o Império Austro-Húngaro nas terras da Casa de Habsburgo, uma das mais importantes família nobre da monarquia europeia, que governou vastos territórios desde o século XIII. As sucessivas transformações tinham a direção contrária à aristocracia dominante, ainda arraigada ao sistema feudal e absolutista, e em favor do liberalismo e do capitalismo, elevação da burguesia e equidade de direitos e oportunidades para a grande variedade etnolinguística que compunha a população do Império. De fato, houveram mudanças para o povo a partir desse tipo de integralização germânica. No que tange à Freud e sua família, houve emancipação dos judeus, permitindo-os morar onde quisessem, participar da vida social, ter direito ao sufrágio masculino. São essas modificações que atraem seu pai, Jacob, à Viena, a oportunidade de uma vida melhor. A industrialização e o crescimento da burguesia propiciaram que o pequeno comerciante pudesse ir além desse limite que tinha estabelecido. Porém, os autores concordam sobre uma aparência, uma superficialidade nessas alterações. Do ponto de vista judaico, o antissemitismo apenas mudou de lugar, com o judeu podendo passar de pequeno comerciante sem importância ao status de banqueiro, por exemplo. “O judeu, o arrogante e favorito autoeleito de Deus, assassino de Cristo, tornava-se o judeu, o especulador inescrupuloso e cosmopolita corrosivo” (GAY, 2012, p. 37). O antissemitismo, que Freud sentiu desde jovem, foi crescente e cada vez mais violento. Como o biógrafo de Freud descreve muito bem, quando Viena é invadida por Hitler e seu exército nazista, em março de 1938, os vienenses explodiram em um ódio reprimido tremendamente mais feroz contra os judeus do que qualquer alemão faria. “[...] Eles revelaram ser mais adeptos de selvagerias contra os impotentes do que seus modelos nazistas. O fanatismo e a vingatividade sádica que muitos alemães levaram cinco anos para adquirir ou manifestar, os austríacos aprenderam a praticar em cinco dias” (GAY, 2012, p. 619). Contudo, o “jogo de sombras” da aparência de Viena não se restringia somente à questão judaica.

Não seria um exagero dizer que todo o contexto de Viena era uma grande encenação na segunda metade do século XIX e início do século XX (MEZAN, 1985;1998; 2003; GAY, 2012; WINOGRAD e KLAUTAU, 2014). O tipo de abertura liberal de autonomia reivindicada pelos movimentos era duramente combatido pela monarquia aristocrata, mesmo que de forma velada. Havia uma “mudança, mas nem tanto”. A arquitetura da cidade é um exemplo: entre as décadas de 1860 e 1880 houve uma grande profusão de construções de prédios públicos e edifícios celebrando a ideologia liberal, como o Parlamento, a Universidade, e a nova Ópera, ao redor da Ringstrasse, a avenida circular em forma de ferradura. “Tudo isso era absolutamente impressionante e absolutamente precário” (GAY, 2012, p. 35), “[...] uma arquitetura da máscara e da hipocrisia” (MEZAN, 1985, p. 34). Por que essas afirmações? Mezan (1985) refere que havia algo em comum em todas essas edificações, o prefixo “neo”: neoclássico, neogótico, neobarroco, neorrenascentista. Ou seja, ao homenagear vários períodos, Viena não se identificava com nenhum, não apresentava uma personalidade própria, mas apenas uma fachada, uma superfície que escondia seu verdadeiro interior. O imaginário da Viena do Danúbio e das valsas era aparente. Isso no sentido de que, apesar da ebulição cultural, ela era acrítica e conservadora até determinado momento. Todo cenário musical de Viena era antiquado: Mozart e Beethoven, por exemplo, não tiveram boa recepção na cidade. As artes em geral serviam mais para um processo de um tipo de alienação da realidade que se formava, procurando manter o retrato de um tipo de vida que não mais existia. “Tudo aquilo que possa perturbar esta imagem, de um acorde dissonante a uma greve operária, é rejeitado como signo de desordem” (MEZAN, 2003, p. 58). Como tal cidade, onde tudo era ilusório, reagiria frente uma teoria altamente revolucionária e incendiária? Tudo, incluindo o próprio Império Austro-Húngaro, iria desmoronar estrondosamente ao final da Primeira Guerra Mundial.

Esta era a Viena de Freud. Uma cidade que se mostra e se esconde, que mistura futuro e passado, dificultando a construção de um presente, tão contraditória quanto seu morador mais ilustre. O que justifica, visto suas várias declarações de desgosto pela cidade, dizer que Freud mantinha relação de amor e ódio com Viena? É que, além do ódio manifesto, havia outro sentimento implícito. Afinal, como ele mesmo ensinou (FREUD, 1914a/1996), o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. E se há algo que Freud não era em relação a Viena, como estamos tendo a oportunidade de ver, era indiferente. No seu último texto, sobre Moisés, Freud escreve: “mas a psicanálise, que no decurso de minha longa vida, foi a todas as partes, ainda não possui um lar que possa ser mais valioso para ela do que a cidade em que nasceu e se desenvolveu” (FREUD, 1939, p. 68). Mezan (1985) aponta uma interessante diferença: enquanto a raiva exalada nas cartas para Fliess era em tom pessoal, aqui, muito tempo depois, ele fala da psicanálise tendo lar em Viena, não ele próprio. Porém, como o autor também lembra, é impossível dissociar um do outro, estudar psicanálise sem estudar Freud. Esta nota preambular de “Moisés e o monoteísmo” não é a única, uma segunda foi escrita alguns meses depois quando ele já estava “foragido” em Londres, assim, esta primeira é um dos derradeiros suspiros no seu consultório na Bergasse. Desta forma, poderíamos relativizar a conteúdo da nota devido a, quem sabe, um momento mais emotivo de Freud. Seja como for, eu vejo outro evento muito mais impactante para o que estou tentando mostrar: a saída, ou melhor, a demora da saída de Freud da tão odiada Viena.

Além da já citada vida inteira sofrendo com o antissemitismo, Freud já havia, juntamente com toda a população mundial, aterrorizado-se com a Primeira Grande Guerra que trouxe um nível de violência nunca visto antes. Ou seja, Freud não era, e eu penso que nunca foi, ingênuo em relação a isso. Na sua própria teoria o desenvolvimento do conceito de instinto de morte mostra isso. Mesmo ainda crendo num possível triunfo da ciência como solução para o mundo, como demonstra em “O futuro de uma ilusão” (FREUD, 1927/1996), ele deixará bem claro, poucos anos depois, a potência da virulência do instinto de morte quando externalizado. O fim de “O mal-estar na civilização” é exemplar nesse sentido: Freud está encerrando sua escrita dizendo que nosso futuro depende de como conseguiremos lidar com nossos impulsos agressivos e violentos, tão fortes, íntimos e incontroláveis. Sua aposta é que “agora só nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’, o eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário” (FREUD, 1930/1996. p. 148).[11] O interessante para nós é que, um ano depois, ele irá acrescentar ainda uma última frase após esta transcrita acima: “mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado?” (FREUD, 1930/1996, p. 148). Não por coincidência, ele altera um final possivelmente otimista, ou neutro, no mínimo, por outro mais desalentador após a ameaça do nazismo de Hitler estar mais evidente. Em 12 de março de 1938, escreve em seu “Diário”: “Finis Austriae” (FREUD, 2000, p. 314), um epitáfio em latim, “fim da Áustria”, registro lançado sem data (ainda que se saiba que foi no sábado referido), como quem está dizendo que foi um dia “maldito”, não o identificando como os outros. Como escreve Michael Molnar, esta entrada “[...] indica o fim de uma cultura muito específica. Embora o Império de Habsburgo tivesse acabado com a Primeira Guerra Mundial, Viena continuou sendo um próspero centro cultural. Finis Austriae não significava apenas a absorção política pelo Reich alemão, mas a destruição da vida intelectual vienense” (FREUD, 2000, p. 314). Nos dias seguintes, aponta a celebrada chegada de Hitler em Viena, assim como a invasão da Bergasse 19 pela Gestapo e o sequestro de Anna Freud para interrogatório.

Freud tinha a experiência, o conhecimento, a realidade nua e crua na sua frente, todos os seus amigos insistindo para que ele fosse embora de Viena frente a ameaça iminente do nazismo. Então, por que ele resistiu tanto para ir embora? Gay (2012) pondera que Freud, em idade avançada e com a saúde debilitada, queria apenas poder morrer em paz e em casa. Justo e verdadeiro: há tempo ele havia deixado de viajar por causa da saúde, nem para a cerimonia do prêmio Goethe ele foi, enviou Anna Freud para ler seu discurso, como também fazia nos congressos da IPA.[12] Mas não estamos falando de uma viagem simplesmente, mas de uma fuga da morte. Sabemos que ele acabou cedendo, mas para alguém que odiava tanto o lugar onde morava, surpreende tanta resistência para ir embora. Mesmo considerando o seu estado de saúde, é notável seu desejo de “morrer em casa”. Como já disse, escolheu morrer me liberdade.


"As relações entre Freud e Viena eram estreitas. O que não significa que fossem boas. Viena não gostava de Freud. A hostilidade a seus trabalhos provinha não apenas dos meios acadêmicos, científicos e médicos, como também das esferas oficiais e, durante muito tempo, de grande parte do público. Por sua vez, Freud detestava Viena, em parte certamente por conta dessa recusa obstinada de suas ideias. Mas esse ódio de Freud por Viena, expresso tantas vezes em cartas à sua noiva e a Fliess, era singular. Ele jamais realizou seus projetos de imigração, demonstrando pela cidade uma inesperada fidelidade" (WINOGRAD e KLAUTAU, 2014, p. 209).


Freud, na verdade, assemelhava-se a Viena que descrevi brevemente. Na década de 1890, Mezan (1998) aponta que houve uma revolução cultural: os acríticos citados acima foram dando lugar a uma cultura da interrogação, do questionamento ao positivismo reinante, no sentido de criticar a ideia do entendimento do comportamento humano análogo às ciências naturais, assim como uma “dissolução paulatina dos códigos expressivos herdados da tradição renascentista, barroca e clássica” (MEZAN, 1998, p. 289). Porém, Freud, como sua Viena de criação, era conservador e assim se manteve. Geralmente, tinha aversão pelos movimentos artísticos novos, como o expressionismo e, posteriormente, o surrealismo. Desta forma, o homem que tanto reclamava da não aceitação de Viena da novidade que ele trazia, agia do mesmo modo em relação às novidades ao seu redor. Freud não influenciou essa produção cultural da época e também não foi influenciado por ela, seguiram de forma paralela, o que é um indicativo, a meu ver, da unicidade da psicanálise. E também do lado conservador que ele manteve em sua psicanálise.

Sobre suas amizades, a situação não era muito diferente: “minha vida afetiva sempre insistiu em que eu tivesse um amigo íntimo e um inimigo odiado. Sempre me foi possível reabastecer-me de ambos, e não raro essa situação ideal da infância se reproduziu tão completamente que amigo e inimigo convergiram numa só pessoa” (FREUD, 1900b, p. 515) [Grifo meu]. A lista desses “amigos duplos” é longa, de Breuer a Ferenczi, passando por Fliess, o mais emblemático de todos. Então, apresentava uma obra revolucionária, que serviu como inspiração para movimentos transformadores inclusive, mas tinha aversão pelas mobilizações novas (MEZAN, 1998). Um homem na vanguarda e ao mesmo tempo conservador. “Portanto, se por um lado pertencia à tradição do ‘Iluminismo sombrio’, por sua capacidade de se deixar enfeitiçar pelo demoníaco, o oculto, o pharmakon ou ‘a inquietante estranheza’ (Unheimlich), por outro se distanciava de tudo isso ao invocar o ideal da ciência”, escreve Roudinesco (2016, p. 249), situando Freud num “[...] jogo dialético entre sombra e luz [...]”.


"Freud era efetivamente um positivista, e seu projeto era o de introduzir as concepções e os métodos da ciência no território da alma, até então reservado aos poetas, romancistas e filósofos. Mas a psicanálise vai além das intenções do seu criador, e, por caminhos que ele não poderia prever, vem inserir-se no conjunto de idéias (sic) e de práticas novas que tomaram forma entre 1890 e o início deste século" (MEZAN, 1998, p. 293).


O autor usa a expressão “positivismo temperado” no intuito de entender a posição freudiana. Freud tentou estabelecer teorias, conceitos e métodos racionais para com o que trabalhava (como observação, a lógica do inconsciente, e as causas existentes); porém, seu próprio trabalho revela e valoriza processos mentais completamente estranhos ao pensamento comum (como a realização de desejos no sonho, a repressão, o a posteriori). Era um positivista clássico, mas o território que desbravou trouxe variados argumentos justamente para os que lutavam contra o mesmo positivismo: a própria noção de inconsciente forneceu ferramentas para tendências que ele não estava (e nem precisava estar) de acordo.

Isto tudo posto, Birman (1994) descreve o que seriam dois tipos de discursos freudianos: um, adequado à retórica fisicalista, linguagem a qual Freud dominava desde seus tempos de estudante universitário, que apareceria mais fortemente em seus escritos de metapsicologia; e outro, pertencente aos textos clínicos e culturais, que apontariam para outra racionalidade, onde esta retórica fisicalista está ausente e opaca.


"Desta maneira, existem os enunciados freudiano explícitos sobre a cientificidade fisicalista da psicanálise e os enunciados freudianos formulados em linguagem não-fisicalista. Estes últimos revelam a constituição de outra retórica e outra modalidade do saber. Portanto, se considerarmos positivamente esse outro universo de enunciados, é possível empreender a leitura crítica do universo de enunciados apresentados na retórica fisicalista e retirar deles a evidência dos conceitos psicanalíticos" (BIRMAN, 1994, p. 32) [Grifo meu].


Ou seja, há algo por trás dos enunciados explícitos, algo, por assim dizer, contraditório ao discurso fisicalista que seria o mais “oficial” de Freud. Não penso que seria o mais “verdadeiro”, até porque isso significaria encontrar um “tesouro escondido” na letra freudiana, e, como este texto faz parte do início do estudo sobre o acaso, estamos absolutamente contra tesouros escondidos. Julgo, então, que Freud se encontrava em uma encruzilhada, e que nunca foi resolvida: ele havia criado algo novo, sabia disso, orgulhava-se disso, havia desejado isso desde cedo; porém, não admitia ser colocado fora do panteão científico, e sua criação original estava bastante afastada do ideal positivista dominante. Como bem colocou Sandler (2002, p. 1): “Freud, positivista? Historicamente, sim; definitivamente, não”.

Que não tenha acontecido aqui um entendimento completo da questão (seria necessária uma tese inteira para esse tema!), mas espero ter oferecido elementos suficientes para termos maior aprofundamento para seguir o rastro do determinismo freudiano, questão essencial para se investigar a possibilidade do acaso na psicanálise. Estaria essa noção de determinismo psíquico incluída na parte do discurso mais “opaco” de Freud? Verdadeira em suas intenções e crenças, como vimos (CORRÊA, 2024), mas, no mínimo, questionável quanto sua execução de fato? Veremos ainda. Freud “oficializa” o determinismo psíquico, mas o operante real dos processos anímicos parece ser a sobredeterminação. Isso talvez indique uma crítica nem tão disfarçada ao determinismo positivista.

 



REFERÊNCIAS


 

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[1] O estudo sobre o acaso se divide, em sua parte inicial, em dois “braços”: tempo e espaço. Além deste, pertencem ao espaço os dois seguintes já publicados:

Referente ao tempo, um artigo sobre a regressão está publicado:

[2] Vendeu 361 exemplares nos primeiros seis anos da sua publicação (Gay, 2012; Roudinesco, 2016). Teria levado oito anos para esgotar a primeira tiragem, que foi de apenas 600 cópias.

[3] Em “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, Freud faz uma análise mais demorada dos golpes narcísicos contra a humanidade, em especial ao que ele chama de “golpe psicológico” que mostrou que “o ego não é o senhor da sua própria morada” (FREUD, 1917b/1996, p. 153), o que seria uma das justificativas para a grande resistência que a psicanálise enfrentava já nos seus inícios.

[4] Sobre alguns aspectos da relação da psicanálise com a arte, gravei um episódio sobre o tema: https://youtu.be/rRtMfmnuzAM

[5] Por mais importante e interessante, dependendo da abordagem, que esse tema seja, não vou entrar nessa discussão, não interessa no momento. Há grande abundância de material muito instigante sobre o assunto: os livros de Assoun (1983) e Birman (1994) são algumas boas indicações.

[6] Com orgulho, Freud destaca que Weltanschauung é uma palavra exclusiva da língua alemã e de difícil tradução. Nas palavras do próprio, seria “[...] uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo” (FREUD, 1933a/1996, p. 155). Geralmente, é traduzida por “visão de mundo” ou “cosmovisão”. Freud deixa claro que a psicanálise se recusa a funcionar como uma Weltanschauung.

[7] Assoun (1983, p. 45-48) fornece o panorama dessa discussão e, na sequência, analisa em maior profundidade a posição de Freud.

[8] Essa informação está na introdução do editor inglês das obras de Freud, James Strachey, para os artigos reunidos sob o nome de “Artigos sobre técnica”, no volume XII da edição standard brasileira das obras completas de Freud (1996).

[9] Esse debate envolveu o processo sofrido por Theodor Reik, discípulo admirado por Freud desde 1911, por prática ilegal da medicina em 1925 (GAY, 2012).

[10] Para maior aprofundamento e detalhamento da formação de todo o contexto social, político e cultural de Viena durante a juventude de Freud e posterior, algo que não farei nesse nível aqui, indico o primeiro capítulo da tese de Mezan (1985), assim como o resto do livro é uma ótimaleitura. O leitor também pode se remeter ao artigo de Winograd e Klautau (2014) e à biografia de Gay (2012).

[11] De forma gradual, o instinto de vida, apresentado em Além do princípio de prazer (FREUD, 1920/2006), vai ser cada vez mais denominado por “Eros” nos textos de Freud.

[12] A International Psychoanalytical Association (Associação Psicanalítica Internacional), IPA, foi fundada em 1910, a partir do Congresso de Nuremberg, e teve Jung como seu primeiro presidente. Viena não foi escolhida como sede, mas Zurique (FREUD, 1914b/1996). Tanto a escolha do presidente, como da sede têm origem na ideia de Freud de não fazer da psicanálise um tipo de ciência de “gueto judaico”, isso está bem claro. Porém, não deixa de chamar a atenção que a primeira sede escolhida não tenha sido Viena, que tinha contra si a hostilidade à psicanálise, mas era, como Freud escreveu anos depois, o lar mais valioso onde nasceu e se desenvolveu.






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