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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

"Mas sozinho... é sozinho..."


“História de um casamento” (“Marriage Sory”), filme de 2019, dirigido, produzido e roteirizado por Noah Baumbach, estrelado lindamente por Scarlett Johansson, Adam Driver e Laura Dern, foi um dos melhores filmes que eu vi nos últimos anos. Profundo, sensível, forte, necessário, tudo no ponto certo através de atuações maravilhosas (“só” Laura Dern ganhou o Oscar pela magnífica advogada que interpreta, mas Johansson e Driver foram indicados, assim como o filme também foi para melhor roteiro original e filme).

A obra trata de um casal, Charlie (Driver) e Nicole (Johansson), que estão se divorciando e têm um filho pequeno. Acompanha toda a dor da separação, o amor ainda envolvido, as escolhas de cada um, tanto do presente/futuro (como mudança de cidade) quanto do passado (acusações mútuas por perda de parte da vida). Como já disse, mas nunca é demais repetir isso quanto a este filme, as atuações são sublimes, e penso que são elas que o fazem tão bom. Não é (quase) sempre assim? O argumento é comum, batido, há centenas de filmes sobre; mas a maneira que se realiza... ah, isso faz toda a diferença. A cena em que Charlie e Nicole brigam sobre o seu já acabado casamento, com todas as mágoas, mas também amores, presentes, é maravilhosa. Quando Laura Dern, a advogada de Nicole, dá seu discurso sobre como uma mãe tem de ser prefeita, mas o pai pode ser descuidado... nossa, isso tem de ser aplaudido em pé! (Eu acho que ela ganhou o Oscar por causa desta cena!). O final, quando Charlie lê para o filho a carta que Nicole escreveu sobre ele, dizendo que o amor acabou, mas não todas as admirações que sente por ele... e depois, ela o chamando quando ele está indo embora com o filho no colo, para amarrar seu sapato que estava com os cadarços desamarrados. Esta última cena do filme me marcou tanto: é uma silenciosa (e estrondosa, como muitas vezes o silêncio é), sutil, linda demonstração de cuidado, de amor, mesmo quando a amor não está mais lá. (Colocarei link de todas essas cenas e outras coisas também que falarei; esta é uma crônica cheia de links!).

Eu poderia ficar descrevendo estas (e outras!) cenas do filme por muito tempo, mas não levaria a lugar algum (isso é falta de bar!). E eu não sou entendido de cinema, sou só um entusiasta, então não vou, obviamente, fazer uma crítica. Dentre todas as belezas deste filme, meu foco é uma delas: quando Charlie está em um bar com amigos e pega o microfone do lugar para cantar a canção do musical “Company”, cena muito forte e significativa para toda a história.

“Company” é uma peça musical em dois atos de 1970, vencedora de vários Tony Awards, com música e letra de Stephen Soundheim e libreto de George Furth. Meu fascínio pelo que vou falar é curioso, porque, não sei se você se identifica, eu odeio musicais! Muito! Quando eu visitei minha irmã em Nova Iorque, poderia ter ido em uma peça na Broadway, mas a escolha era: um musical (qualquer) de umas três horas (e relativamente caro), ou uma noite num bar nova-iorquino de Manhattan? É claro que optei pelo bar! Sem pensar duas vezes, zero de culpa. A exceção, para a qual não tenho explicação, é “Hair”, o filme de Milos Forman. Eu amo! Mas é só; qualquer outro musical eu passo longe e se, por engano, acabo vendo, detesto! Bom, mas apesar dos vídeos que irei deixar aqui de “Company”, não é exatamente a peça que me encanta, ainda que tenha a ver, claro, com seu enredo, mas a canção “Being Alive”.

O musical segue a vida de Robert, um solteiro convicto, com os amigos, todos casados, na comemoração de seu aniversário de 35 anos e, interessante, sem linearidade temporal. A música que me interessa surge bem no fim do espetáculo, quando Robert se exalta questionando “o que se ganha” ao se estar em um relacionamento amoroso, com seus amigos o encorajando para que ele pense no tal “o que se ganha”. Então, começa a canção. Robert vai listando: “alguém para te abraçar apertado demais, para te machucar profundamente, para te conhecer bem demais, para te infernizar, etc.”. São todas coisas normais de um romance. Só que há o uso repetido de “too”, que é “demais” em inglês, mas tem, geralmente, a conotação de um demais ruim, para além da conta. Assim, é interessante que em suas questões no início da música, muitas são com o too, dando a impressão de estar destacando as desvantagens de estar com alguém (e, então, justificando ele estar sozinho). No entanto, seus amigos, como já disse, ficam o instigando, dizendo que ele está certo, mas que há mais que isso: “você tem tantos motivos para não estar com alguém, mas, Robert, você não tem um bom motivo para estar sozinho”, diz um amigo; “ei, amigo! Não tenha medo de que não será perfeito; a única coisa a se temer é que não seja”, aconselha outro. Mais um ainda pergunta como ele pode saber tanto disso (ou seja, de intimidade) quando ele nunca esteve lá, o que é uma ótima questão, né! “Não pare agora, continue”, é o incentivo geral para que ele pense sobre sua solidão. Então, em meio de tantas coisas boas e ruins de se estar com alguém, ele parece chegar a uma conclusão de tudo o que cantou: “alguém que sempre estará lá, tão assustado quanto você, de estar vivo”. Being alive. Estar vivo.

Além de um momento belíssimo, parece ser uma descoberta: do desastroso ao sublime, estar verdadeiramente com alguém, dividir a vida com alguém, é imensamente assustador, mas nos dá a sensação de estarmos vivos. Adiante na canção, expondo pontos “ruins”, como alguém nos deixar confusos, zombar-nos (talvez pelas nossas peculiaridades), sermos usados, termos os dias bagunçados (não posso colocar a letra inteira aqui! Os vídeos abaixo darão conta disso), ele canta o que dá título a esta crônica: “mas sozinho... é sozinho... não é vivo” (“but alone... is alone... not alive”). Tanto que, depois disso, Robert, ao ser incentivado a fazer um pedido de aniversário, de algo que ele deseje, repete as mesmas frases (“alguém para me segurar muito perto, alguém para me machucar demais”, etc.), só que conclui disso: “e me fazer consciente de estar vivo”. E ainda depois vem o “me dar suporte” e “me fazer” vivo! Há uma mudança de perspectiva (o uso do “too” permanece, mas parece perder o peso). É muito lindo.

Óbvio que eu não estou declarando que se deve, para sermos felizes, estar casado, com filhos, etc. Não tem nada a ver com isso (que é uma posição moralista que eu detesto!). Assim como, consequentemente, não é o simples “estar sozinho” que é não estar vivo (tanto quanto o estar com alguém seria). Pode-se estar com alguém e profundamente infeliz e sozinho, como se pode estar sozinho e ser completo e feliz. A questão é outra e muito mais intrincada.

Remetemo-nos a Winnicott e suas noções de solidão essencial, capacidade para estar só, e o prazer de estar escondido, mas o desastre de não ser encontrado. Claro que não irei tratar profundamente destes conceitos aqui e agora, são bastante complexos, exigem desenvolvimentos específicos, e que serão feitos no seu tempo; porém, indicações são importantes, até para conectar com a canção, meu singelo objetivo nesta crônica.

De início, chama-me a atenção que Winnicott utiliza a palavra alone (“essential aloneness” para “solidão essencial”, e “capacity to be alone” para “capacidade para estar só), e não lonely. Mas não são sinônimos? Não exatamente, há nuances relevantes aí. Alone significa o estar sozinho sem ninguém em volta, engloba o estar só fisicamente (ele mesmo deixa bem claro que não é sobre isso); lonely também é estar sozinho, mas há uma conotação mais deprê, de uma tristeza por esta posição, dando a impressão que não é uma escolha, mas um fracasso, um sentimento de solidão. Numa visão panorâmica da obra que Winnicott produziu, parece-me que esta escolha de termos não é ao acaso, pois tem muita relação com o tipo de solidão da qual ele nos fala. Eu vejo uma diferença entre o estar sozinho, das várias formas que Winnicott propõe, e isolamento (ele não está usando a palavra isolation para estas concepções, esta parece estar reservada para a agonia primitiva do isolamento completo pela perda da capacidade de se relacionar com objetos). O sozinho (alone) de Winnicott é, paradoxalmente, como toda esta área de sua obra, estar sem ninguém por perto (mesmo que internamente), mas sem se achar (ou se sentir), de fato, sozinho (lonely).

Assim, Winnicott fala da noção de solidão essencial no 5º capítulo da parte 4 de “Natureza Humana”, que tem um título já sugestivo: “um estado primário de ser: estágios pré-primitivos”, ou seja, é algo muito do início. Eu questiono seriamente se há, de fato, um início, e talvez sua concepção possa me servir de apoio, afinal, pré-primitivo seria ainda antes do início, não?

A solidão essencial é um tipo de paradoxo (mais um dele!), pois é uma solidão sem sujeito (próprio). Isso tem a ver com o momento inicial do desenvolvimento, a dependência absoluta: o bebê (ou feto) vivencia coisas, mas não tem noção de que há algo externo (é a experiência de onipotência); como ainda não há realidade do ponto de vista do bebê, ele está só. É uma noção muito sutil, por certo, pressupõe a ideia de Winnicott centrada no (vir a) ser, não na vida instintual, ou seja, o ser não vem do inorgânico (como na visão clássica/freudiana): antes do ser vem o não ser, está-se sozinho, isso é a solidão essencial. Continua a se expressar por toda a vida de várias maneiras.

Já a capacidade para estar só é diferente. Note que Winnicott usa a palavra capacidade. Isso quer dizer que não estamos falando de algo inato, mas de uma competência adquirida no desenvolvimento (e uma das mais importantes), muito sofisticada, aponta para o amadurecimento, está diretamente relacionada com a introjeção dos cuidados maternos; o estado não sofisticado de estar sozinho é quando a criança se sente desamparada, angustiada, invadida. Leia, é lindo, o pequeno texto que tem o nome da noção no título (está no livro “O ambiente (facilitador) e os processos de maturação”). Ali, Winnicott nos diz que não se trata de medo ou desejo de estar sozinho, mas habilidade para tal. É a capacidade para estar sozinho (sem ser solitário) na presença de outra pessoa. Ele dá o significativo exemplo do paciente que fica em silêncio numa sessão analítica. Sabemos que existem tipos diferentes de silêncio, mas neste caso não se trata de resistência (bem ao contrário). Este estar sozinho não tem nada a ver com não ter ninguém a sua volta, mas sim com o atributo de relaxar, estar tranquilo e em silêncio, e na presença de outrem, porque este alguém está presente sem fazer exigências, não há perseguição ou invasão – não é esta a tarefa primordial de um analista? É um bom sinal!

Tudo isso envolve o gesto espontâneo (não reativo): não se é invadido pelo ambiente, pode-se ficar à vontade para o descobrir/criar do seu jeito. Assim, o verdadeiro self, baseado no gesto espontâneo, que é reconhecido pelo outro, pode se fazer mais presente do que o falso, encontrando uma razão, um lugar para si no mundo (mesmo que haja, e sempre há, sofrimento). Desta forma, o nosso trabalho como analistas é ajudar a reparar, fortificar, incrementar, inventar as inúmeras maneiras de ser no mundo das pessoas que atendemos, sempre tentando se adaptar de modo a que o verdadeiro self não seja perdido. Eu concebo (veja as minhas referências...) como a Fortaleza da Solidão do Superman: local onde ele ficava sozinho para se (re)encontrar consigo mesmo, suas origens, etc. (até ele tinha suas fraquezas...), como Winnicott diz: redescobrir o impulso pessoal, pois (olha que lindo isso) “é somente quando sozinho (quer dizer, na presença de alguém) que a criança pode descobrir sua vida pessoal própria”.[1]

Além de sofisticado, posterior ao relacionamento a dois (pré-edípico) e a três (edípico), por ser uma relação do sujeito consigo mesmo, Winnicott abre outra hipótese, também paradoxal, mas que faz muito sentido (pelo menos na minha maneira de conceber o tempo): refere-se a um estágio muito inicial. Ele aponta que isso teria de ser mais estudado, já que seria a base para esta capacidade de estar só. Podemos ver isso remetendo ao verdadeiro self, ao núcleo não-comunicável (do “desastre de não ser encontrado” que citei lá acima); eu relaciono esta outra hipótese também com a solidão essencial, pois a vejo como componente importante do núcleo não-comunicável. Assim, tanto a capacidade adulta de relaxar, como o prazer de assistir a um concerto (exemplo do que Winnicott diz dar um colorido para vida), cruzam-se como manifestações também da solidão essencial. Trata-se da nossa constante tentativa de (continuar a) ser no mundo, de encontrar, sempre se adaptando, um lugar no mundo que faça a vida ter sentido.

E a canção de “Company”, como fica? Eu não dei toda essa volta por acaso. O meu olhar aqui é que o alone da música talvez seja diferente do de Winnicott em muitos aspectos (e nem por isso menos interessante, afinal, fez eu escrever esta crônica!). Quando Robert canta sobre ser usado no possível relacionamento, aparentemente de uma forma ruim, é isso mesmo? Depende, né? Winnicott diz que o maior elogio que um analista pode receber é ter sido encontrado e usado por seu paciente. Claro, esse uso não é invasão ou agressão: é uma troca espontânea, uma relação íntima. Veja este belo trecho: “uma vez eu arisquei o comentário: ‘não há tal coisa como um bebê’ – querendo dizer que se você tentar descrever um bebê, você descobrirá que está descrevendo um bebê e alguém. Um bebê não pode existir sozinho, mas é essencialmente parte de um relacionamento”.[2] Ou seja, a própria definição de bebê só faz sentido em relação a outra pessoa. Muda se falarmos de um adulto? De nós mesmos?

Nós estamos sempre, mesmo que sozinhos, em uma interação com o outro, seja do jeito que for (a independência é um processo, nunca conquistada plenamente). Então, o alone da linda canção pode ser entendido, por um lado, como isolamento, mais relacionado ao falso self (Robert passa a impressão de se sentir invadido), pois aí sim não se está vivo. Aí faz sentido a “descoberta” de Robert: “mas sozinho... é sozinho... não é vivo”.

Como é, de forma muito emocionante ao longo da música, enfatizada na expressão being alive (estar vivo), talvez, em uma transição que Robert possa estar passando, o alone possa se aproximar desse estar sozinho mais verdadeiro, ou seja, mais vivo: parece que é nesse caminho que a canção vai. E aí, pode-se ficar materialmente sozinho, casado, com filhos ou sem, não interessa: estamos na trilha do gesto espontâneo.

Como de praxe, estendi-me em explicações (e de qualidade duvidosa); faz parte. Ainda assim, faltou o terceiro elemento que mencionei junto da solidão essencial e da capacidade de estar só: o prazer de estar escondido e o desastre de não ser encontrado, com seu núcleo incomunicável. Eu acho que tem tudo a ver. Tem de ter continuação, então, né? Logo, logo.


Maio – Setembro, 2023.

[1] “It is only when alone (that is to say, in the presence of someone) that the infant can discover his own personal life” (p. 56). WINNICOTT, Donald W. The capacity to be alone. In: ______. The maturational processes and the facilitating environment: studies in the theory of emotional development. Abingdon/New York: Routledge, 2018. [Livro digital]. [2] “I once risked the remark, ‘There is no such thing as a baby’ – meaning tha if you set out to describe a baby, you will find you are describing a baby and someone. A baby cannot exist alone, but is essentially part of a relationship” (88). WINNICOTT, Donald W. Further thoughts on babies and persons. In: ______. The child, the family, and the outside world. Cambridge: Perseus, 1987.



De todos que irei deixar aqui, este vídeo talvez seja o principal (pensando que você irá ver todos!). Não é a peça encenada da maneira mais completa, mas é, além de uma belíssima interpretação de Raúl Esparza, um vídeo que têm todos os diálogos do processo de Robert para pensar na sua solidão. E, mais importante, com legendas!


Este vídeo é da cena com encenação completa da música na peça (e linda interpretação de Neil Patrick Harris). Não há legendas, mas se você viu o anterior e leu a crônica, vai entender tudo!


Este, já entrando no filme, é o discurso de Laura Dern sobre a visão da nossa sociedade sobre os papeis de mãe e pai. Magnífico. Com legendas.


Esta é a emocionante cena da discussão entre Nicole e Charlie. A cena toda é maior, começa antes, mas escolhe esta, que é mais para fim, por causa das legendas.


E, por fim, a cena que me levou a escrever esta crônica: Adam Driver cantando “Being Alive” no filme. Há antes (um tipo de paralelo com a peça, de ele na mesa com os amigos), mas este vídeo está com legendas.


(Eu ainda tinha separado um vídeo da cena final – leitura da carta e ela amarrando os cadarços dele –, mas o vídeo não existe mais... que pena... Enfim, veja o filme! Não vai se arrepender).



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