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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Me? I'm touchy!


Eu conheço muitas histórias de não gostar ou não comprar música por vergonha, de todos os tipos (ainda vou escrever dessas histórias aqui). Uma dessas é clássica (ao menos para quem nasceu na minha época): não poder gostar do que seria “música de menina”. E eu nem estou falando do Menudo, que talvez tenha sido o esplendor disso lá na década de 1980.

Eu adorava muito o RPM, achava Paulo Ricardo um gato (depois virou inveja por ele ter namorado a Luciana Vendramini...) e assumia: tinha o disco Rádio Pirata Ao Vivo, e eu ouvia sem parar. RPM já era perigoso: um amigo meu conta que brigou com sua namoradinha da época porque ela era fã, e ele não admitia isso! (Vejam só...). Não sei o motivo dessa conexão, provavelmente é porque muitas gurias adoravam o RPM, porque Paulo Ricardo era lindo, ou porque eles tiveram um sucesso absolutamente fora do comum, muito mais que qualquer sertanejo que veio depois (de ter “Globo Repórter” sobre eles!). No fim das contas, eles eram ótimos músicos. Mas o que me marcou mais nessa “divisão de gêneros” musicais foi o A-ah, a banda norueguesa que teve seu auge naquela época (eu li uma vez que o show deles no Maracanã, no Rock in Rio II em 1991, foi o maior público já registrado em um show na história!). Pois nesse mesmo ano de 1991 (após o Rock In Rio) eu fui num show do A-ha em Porto Alegre. Um amigo, muito fã (e sem problemas com isso), comprou o ingresso para mim, para irmos juntos. Eu passei por momentos de muitos conflitos terríveis, tentei até vender, alguns dias antes, meu ingresso na sala de aula! Eu gostava secretamente do A-ha, tinha até o disco Stay on these roads, terceiro da banda, de 1988. Secretamente, porque não era permitido para meninos gostar de A-ha! Eu fui no show, fiquei o tempo todo fazendo cara de contrariado, olhando de lado para as meninas na minha frente que enlouqueciam e dançavam o tempo todo. Mas o show foi maravilhoso! Eu nunca vou esquecer deles encerrando o espetáculo com “The Living Daylights”, que foi música de um filme do 007, e, mais ainda, do bis com Morten Harket chegando em alturas sublimes cantando o fim da música que dava título ao disco que eu tinha. Eu amei. Demais! Mas por dentro. Por fora, eu continuava com a mesma pose de menino-homem.

Ainda antes disso, eu lembro quando tocava “Touchy!” (também do disco que eu tinha kkkkkk, e sim, o título é com ponto de exclamação!) nas reuniões dançantes (para quem não sabe o que é uma reunião dançante, eu não vou explicar agora). Essa era a música mais “menina” deles e, claro, elas adoravam! Juntavam-se para fazer dancinhas coreografadas que estariam bombando no Tik Tok se fosse hoje. Nós, os meninos, eu entre eles, ficávamos sentado olhando e fazendo diversas piadas daquilo, desprezando completamente. Havia “só” um problema: a música é boa pra caralho! Hoje, que já não tenho mais de me mostrar menino-homem para alguma afirmação, eu escuto “Touchy!”dançando muito mais do que aquelas guriazinhas faziam nas reuniões dançantes. A-ha é muito bom! Claro, se eu fosse fazer uma lista das minhas, digamos, vinte bandas preferidas, certamente eles não estariam entre elas, mas isso não impede que eu adore!

Acontece que, apesar de engraçado, eu fico pensando: que coisa triste isso né? O gosto musical definir se tu és homem ou mulher, e ainda em uma época em que nenhum de nós era nem um nem outro, éramos todos crianças (pré-adolescentes que seja, mas a gente começava mais tarde naqueles dias), somente tentando ser, e com fortes imposições culturais. Ser homem. O que isso significa? Acho que era (é) bem mais uma coisa de “ser macho”. Mas ainda, o que isso significa? Tipo, menino joga bola e não brinca de boneca? Sei lá, mas qualquer um que seja um pouquinho mais informado sabe que existe um monte de jogador de futebol gay e um monte de estilistas que comeram as mulheres mais maravilhosamente estonteantes do mundo. Né?

Eu não atendo crianças. Atendi no meu estágio de clínica na faculdade, adorei, preparei-me para o atendimento infantil logo depois que me formei, mas uma série de circunstâncias (e acasos!) me levaram ao atendimento adulto e nunca mais voltei. Também, como diria o grande Machado, “não tive filhos...”. Então, não sou especialista de forma alguma sobre crianças, ou sua criação. Ainda assim, eu sempre pensei que “ser homem” deveria ter a ver muito mais com caráter, ser uma pessoa legal, respeitar os outros, tratar bem as pessoas, preocupar-se com o seu entorno, ser um sujeito que pode, de acordo com sua capacidade, enfim, contribuir para que possamos viver melhor em sociedade, já que é nossa única alternativa. Uma vez eu vi um post (não lembro onde) de um cara, pai de menina, dizendo algo do tipo: “você que é pai de menino, ensine seu filho a ser respeitoso com as mulheres, a as tratar bem; porque eu estou ensinando a minha filha a baixar a porrada em macho escroto”. Achei sensacional isso. Talvez eu ensinasse uma filha minha assim também?

E agora ainda vem (em pleno século XXI, quando se achava que as coisas teriam evoluído um pouco) essa gente falando de “menina veste rosa, menino veste azul”! Porra! Que menina se vista de rosa e de princesinha, e os meninos de azul (não sei da onde essa é a cor de macho), mas não pode ser o contrário? Não dá pra escolher, para vestir o que se quiser? Por que isso incomoda tanta gente? Da minha parte, há tempos eu só visto preto, então estou de fora desta contenda (mas já vesti camiseta rosa no passado). Eu uso brinco, e na orelha direita (que é a “orelha gay”), propositalmente fiz isso lá nos tempos de faculdade (é sempre esse espírito que tenho de ser “do contra”... se todo mundo usa na esquerda, vou usar na direita...). É só um brinco! Por que isso é “coisa de mulher”? Eu sei que há toda uma questão cultural, mas também eu sempre achei (continuo achando) que quem tem dificuldades com esse tipo de coisa é que porque têm sérios problemas com a sua própria (homo)sexualidade.

Mais um último exemplo (e que também não lembro onde vi). Uma guriazinha de uns 4 anos de idade foi questionada sobre um casamento entre dois homens, o que ela achava disso. Depois de refletir seriamente alguns segundos, perguntou: “vai ter docinho?”. É disso que se trata (ou deveria), não? De simplesmente gostar de uma pessoa. Por que o que os outros fazem da sua vida (sexual) incomoda tanto?

Ainda com a minha já referida falta de experiência no assunto, eu vejo, por contatos próximos, que parece haver uma boa parte desta nova geração (de adolescentes) que estão transcendendo essas questões, muito mais preocupados com o afeto, com o gostar/desejar alguém, para muito além se este alguém está de rosa ou azul. Estes estão evoluindo. Estes dançariam efusivamente ao som de “Touchy!” sem problema algum; com certeza, são touchy! Ou melhor, talvez não dançariam, mas por outros motivos: já é música de velho... ainda que eu acredite piamente na intemporalidade musical. Mas isso já é outra conversa.



“Touchy!” - os clipes dos anos 1980 eram assim...



“Stay On These Roads” no Rock In Rio de 1991 - Esta é a versão do show histórico do Rock In Rio; não acho que é a sensacional que eu ouvi em Porto Alegre. Mas enfim, a memória é imbatível.




ME? I'M TOUCHY!
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