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O instante eterno

  • Foto do escritor: Juliano Corrêa
    Juliano Corrêa
  • 19 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Alice perguntou para o coelho: “quanto tempo dura o eterno”; o coelho respondeu: “às vezes, apenas um segundo”. Há uma grande chance de você já ter lido (e se encantado, assim como eu!) essa passagem de “Alice no País das Maravilhas”. Eu não quero ser um destruidor de ilusões, mas esse diálogo simplesmente... nunca aconteceu. Lewis Carroll nunca escreveu esse trecho em nenhum dos dois livros da Alice (se existe em algum filme mais recente, eu não sei, mas aí tu estás exigindo demais de mim!). Existe na criação de alguém inspirado pelas aventuras de Alice. Isso basta, pois o seu alcance é profundo.

Dostoiévski é dos meus autores preferidos; eu amo profundamente suas obras. Eu deixei a porta aberta em uma crônica recente[1] para o que eu quero falar agora, que é um ponto bem específico da sua vasta literatura.

O primeiro livro de Dostoiévski que eu li, lá na minha adolescência, foi “Noites Brancas”. Até hoje é dos meus preferidos. Eu lembro de ter me arrepiado no fim do livro (o que é raro, acontece mais com os seus livros). A história é um romance, mas um romance “à la” Dostoiévki, ou seja: solidão, melancolia, desejo (desajeitado) por conexão e amor e, é óbvio, sem final feliz. O narrador e personagem principal é conhecido apenas por, veja só, “O Sonhador”. Nome bem sugestivo, né? O Sonhador, solitário e... sonhador, passeia pelas noites brancas de São Petersburgo. As chamadas noites brancas são o fenômeno no qual o sol não se põe completamente em certas regiões da Terra, fazendo com que noite (escuridão) completa nunca aconteça (dizem que é um inferno para o relógio biológico de gente, por exemplo, daqui, nem um pouco acostumada com isso). Agora, certamente esse título tem uma capacidade imensa de criar significados: dizem que há, para aquelas bandas, o entendimento de uma “noite branca” ser uma noite que não se dormiu. Também se poderia pensar que as noites eram brancas pelos encontros que definem a história do livro, com o Sonhador voltando para as suas “noites escuras” ao retornar para a sua solidão, alienação, e afetos imaginários. Justamente, o livro é marcado pelo encontro, o encontro do Sonhador com Nastenka, uma jovem que está passando por maus bocados. A conexão é imediata: a dele, romântica; a dela, nem tanto. Mesmo assim, eles combinam de se encontrarem ao longo das noites brancas. Trocam confidências e experiências em um cenário lírico, onírico, quase de devaneio (eu ficava imaginando as imagens). É claro que o livro é triste (não é tão trágico como outros dele), mas é (como todos dele) lindo! E, na boa né, se tu estás procurando historinha feliz, vai ler... sei lá o que! Afinal, eu já disse que ficar feliz no fim não é coisa séria![2] Se tu queres final feliz, tu não vais ler Dostoiévski né!

O livro (na edição simples e bem antiga que eu tenho) é dividido em capítulos nomeados com as noites dos encontros: primeira noite, segunda noite, etc. As exceções são o capítulo “A história de Nastenka”, e o epílogo, “Manhã” (que eu acho um título perfeito). Eles se encontram por quatro noites, quando a relação se desfaz... Apesar de toda a beleza infindável deste livro, o que nunca saiu da minha cabeça, e é o motivo desta crônica, é a sumária do Sonhador em “Manhã”: “Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para preencher a vida inteira de um homem?...”.

Neste ponto, O Sonhador se junta com a conversa apócrifa da Alice com o coelho. Um instante pode ser eterno? O que é o eterno?

Eu diria que a maioria de nós pensaria o eterno como aquilo que fica como lembrança (boa ou ruim) e, dessa forma, dura para sempre. Compreensível (eu também pensava assim!), mas errado: o tempo não é linear, não funciona resgatar ou “voltar” a um evento, pela simples razão de que é impossível voltar,[3] a única direção possível é “para frente”.[4] Então, o que seria essa lembrança? Não são acontecimentos “reatualizados” ou “ressignificados” (expressão que psicanalista gosta), são eventos que aconteceram, mas, acima de tudo, continuam ocorrendo eternamente, só que em outro lugar. Quebra-se a barreira linear de passado, presente e futuro: todos os tempos, para bem além desses três, estão acontecendo, vivamente, agora. Só que, com exceção do presente, os outros todos são virtuais.

Gilles Deleuze, na sua tese de doutorado “Diferença e Repetição”, e o filósofo contemporâneo Pierre Lévy fornecem os fundamentos dessa relação (e diferença). O virtual é uma possibilidade que não teve realização concreta, logo, não se opõe ao real: é tão real quanto qualquer evento físico, só não foi atualizado; o contraponto do virtual é o atual. Outra menção literária para exemplificar: quando o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, é assolado por uma série de lembranças vivas de Combray, sua cidade natal, a partir de uma simples madeleine, o que emerge não é uma reminiscência básica, mas algo novo, uma Combray totalmente inédita. Assim, a memória, além de involuntária, surge sob a forma de um passado que nunca foi presente, um em-si do lugar ou da situação. Ainda no primeiro volume da obra de Proust, temos o amor de Charles Swann pela cortesã Odette de Crécy. O interessante é que, ao contrário da maneira que somos naturalmente inclinados a abordar em psicanálise, esse amor do Sr. Swann não está determinado por um amor inicial (que seria pela mãe). Não termo último, os amores não remetem a mãe, porque esta ocupa simplesmente um lugar em relação ao objeto virtual na série constitutiva do nosso presente. Quer dizer, não é o amor de Swann por Odette que atualiza o amor dele pela mãe, mas é justamente o contrário! Odette (ou qualquer amor de hoje) é o que é atual; o amor à mãe é virtual (pois não está aqui, é passado). A natureza, a existência do passado é que se torna dependente do presente, e não o oposto como temos a tendência de pensar.

Então, é dessa forma, e somente assim, que um segundo pode ser eterno ou que um minuto de felicidade pode preencher uma vida inteira. Não é a simples lembrança de um momento ou de uma relação, é muito mais que isso: é a convivência, mesmo que “inconsciente”, com esse evento que está eternamente ocorrendo, sempre de forma inédita, só não atual no sentido de concreto, de estar acontecendo agora, o que de forma alguma o coloca na posição de passado, nostálgico, etc. Nada disso!

Por isso é uma besteira, por exemplo, toda a concepção de “elaboração do luto”, aquela mesma postulada por Freud, se ela significar esquecimento, ou “superação”, ou seja lá o que for desse tipo. É um contrassenso! A começar por um tempo para o luto que, direta ou indiretamente, geralmente se determina: deve-se “ir adiante” porque se passaram dez anos? Porque faz um ano? Que porra é essa? A dor (assim como o amor) simplesmente não obedece ao tempo linear, não existe tempo predeterminado para nada. O sentimento da “passagem” do tempo é a única coisa que vale, pois é pessoal e afetivo, é de verdade. O tempo não é “contado” em dias, meses, anos. Além disso, não “se livra” desse tipo de coisa, mas se abarca, pois é parte essencial da nossa existência, faz parte da nossa história de vida que não está seguindo do passado para o futuro, mas sendo criada (o passado também) constantemente a cada instante. Como se “supera” algo que está ocorrendo de forma inédita? Como se remete algo novo a um elemento de uma série anterior, se, sendo novo, não há anterior (e muito menos alguma série)? Rompe-se um totem da psicanálise e um vício (não sem razão) dos psicanalistas: encontrar a causa do sofrimento (e que normalmente remete ao elemento primeiro que, surpresa, geralmente é a mãe). Não que não existam causas, claro que existem (principalmente em casos de trauma), mas nem tudo tem uma causa! E também, a causa não é imperativa, causa e acaso existem concomitantemente, uma coisa não elimina a outra. Esse é o ponto (e que é tão difícil para qualquer um entender! Não concordar! Só entender...). Simples assim.

O fato de o instante ser eterno dessa maneira não significa, absolutamente, que seja algo estanque, petrificado (já que fica para sempre); muito pelo contrário: estamos falando da maior mobilidade e plasticidade, uma constante mudança, o que vem ao encontro do que quer que se diga psicanalítico. Afinal, quem acredita que as pessoas/situações não mudam, está completamente apartada de qualquer coisa minimamente psicoterapêutica...

Alguma coisa é eterna quando se está receptivo no instante a algo como o gesto espontâneo, tal qual Winnicott descreveu, ou seja, um evento que se dá ao natural e poderá ser utilizado quando ambos estiverem prontos, um encontro no espaço potencial se quisermos dizer assim. Dessa forma, esse encontro não tem causa primeira, não tem razão inicial de ser/acontecer: é um encontro ao acaso.

Como Alain Badiou explicou no belo livro “Elogio ao Amor”,[5] esse evento/encontro de aparente insignificância, mas de proporções radicais na vida microscópica, não se encaixa na lei imediata das coisas, e deve ser regado e trabalhado para que alcance o estatuto de verdade. Ele diz assim: “e o que começa a partir daí não raro dura tanto tempo, é tão carregado de novidade e experiência de mundo, que, retrospectivamente, não parece nem um pouco contingente e casual, como no princípio, mas praticamente uma necessidade. Assim o acaso é fixado: a absoluta contingência do encontro com alguém que eu não conhecia acaba por assumir ares de destino”. (Lindo, né?). A importância do instante (ou dos instantes!) que se tornou eterno é que nos faz o colocarmos em uma posição de origem ou “destino”; originalmente, não tinha a menor necessidade de acontecer. É de se aproveitar dos acasos para transformar algo sem finalidade nenhuma em uma necessidade.

Claro, eu penso que existem “exigências” para acessar estas “zonas estrangeiras” da eternidade. Uma pessoa fria, oca de sentimentos de uma maneira que a torna incapaz de empatia, esta não cria memórias dessas que estamos falando: no máximo, terá suas lembrancinhas de vida (também boas e ruins) de acordo com o tempo linear, uma mera recordação, vazia de verdade, que não estará viva e virtualmente acontecendo agora. (O mais comum é o esquecimento vazio de afeto). Talvez aí se possa “elaborar” ou “superar” qualquer coisa. Isso vale para a vida e, obviamente, para a psicanálise também: afinal, o tratamento psicanalítico não é baseado na relação afetiva estabelecida entre os envolvidos? Se não se tem a disponibilidade e a sensibilidade para um envolvimento íntimo, profundo e verdadeiro, é impossível isso acontecer.

Portanto, minha querida, tanto Dostoiévski como o “imitador” de Lewis Carroll estavam “certos”, mesmo eles não falando sobre o que eu estou abordando: o eterno, o “para sempre”, não só pode, como tem mesmo a duração de um segundo ou minuto. Melhor ainda seria dizer que ele não tem duração, visto que o instante está sempre acontecendo, mesmo que em outro lugar...

Sejam bons ou ruins, os instantes eternos só se configuram com base no amor genuíno. Interestelar nos ensinou: o amor é a única coisa que transcende o espaço-tempo. Isso sublinha quase tudo o que eu escrevi. É por essa transcendência que o instante permanece vivo, e isso, longe de ser um defeito que deve ser “trabalhado”, é o que preenche o âmago do nosso ser. Pode preencher uma vida inteira, porque é uma vida inteira. Deve ser aceito, cuidado e vivenciado.

 

 

Julho-Dezembro, 2025.



[4] No 4º capítulo do seu livro mais recente, Thomas Ogden discorre sobre o tempo na psicanálise. Ele nomeia o tempo linear de diacrônico; e de sincrônico, o tempo do sonho, do brincar, de quando se está sendo criativo, o que seria o tempo analítico mais adequado. Eu tenho um episódio sobre este capítulo no meu canal do YouTube (e também no Spotify):




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