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Riscar ou não riscar... eis a questão?

Foto do escritor: Juliano Corrêa
Juliano Corrêa
há 3 horas
5 min de leitura

Pessoas especiais, daquelas bem raras, que se encontra (se tiver muita sorte) uma vez na vida, trazem, além de outras tantas coisas, reflexões peculiares, das que parecem bobas, mas que, para alguém como eu, assumem outro tamanho, levam para novos horizontes. Eu tenho uma pessoa assim, e, mais uma vez, uma simples conversa com ela (que nunca é “simples”) me fez pensar sobre algo que eu sempre fiz em modo automático e, por isso mesmo, nunca me dei conta.

Nós somos dois leitores de verdade. E um dia, por ela dizer sobre o ato comum de escrever, sublinhar, enfim, riscar os livros que lia, notei uma diferença que eu tenho (para ela, mas acho que para outras pessoas também): eu risco e anoto muito em todos os livros técnicos; porém, nos livros de literatura em geral é diferente: para mim, eles têm de ficar intocados, é uma heresia eu riscar um livro desses. E aí é curioso: por que riscar livros técnicos e ser proibido riscar romances?

Eu realmente não sei. Eu poderia pensar em um tipo de divisão: livros de estudo, tenho de “memorizar” alguma coisa, então eu vou marcando os pontos importantes; já os de literatura, estou “aproveitando”, logo, não preciso me preocupar com isso. Só que há algo mais “profundo” e, o que eu acho ser consequência, menos lógico do que isso. Para os livros que eu estou chamando de técnicos, eu sinto que se eu não riscar, sublinhar, escrever, eu não estou “estudando de verdade”, não estou me aprofundando, algo assim. Já os de literatura em geral, eu tenho um sentimento de que eles devem ficar imaculados no sentido da escrita (já que as marcas de manuseio fazem parte, é até estranho quando não tem!), parece que eu estou cometendo um crime, estragando o meu livro se eu começar a fazer qualquer tipo de rabisco. Isso é realmente sem sentido, não é?

Bom, mas eu não estou aqui para tentar “encontrar o sentido” disso; na verdade, estou pouco me lixando para isso, todos temos as nossas manias. Só que essa minha, ao pensar nela, apareceu para mim como infrutífera. Eu tenho livros totalmente riscados, mas isso não fez com que eu tivesse uma memória melhor deles; eu tenho outros (como um que estou relendo agora e irei falar sobre em breve), que estão só com o amarelado do tempo, virgem de riscos, e dos quais eu sei passagens praticamente de cor, lembro vividamente momentos e situações. Eu sei, ou imagino, que destacar de qualquer forma no texto que se está lendo pode ter uma função importante para muitas pessoas; porém, acho que eu acabei de descobrir que para mim é uma mera convenção: algo que, de alguma maneira, eu “aprendi” que se deve fazer, e faço sem questionar. Até agora.

Faz um tempo, eu comecei outro procedimento, e já li pessoas falando que ele pode ter bastante êxito. O livro que estou lendo (geralmente é mais de um), seja de psicanálise ou de literatura, eu escrevo. Trechos, ideias que eu entendi, ideias para além do texto que eu pensei (o que eu acho que é ainda mais rico), sentimentos que eu tive, por aí vai. Mas é escrever mesmo, nada de computador ou celular: escrevo à mão, com caneta, em um caderno. (No início, quase tive uma tendinite, pois a gente não está mais acostumado né! Mas depois, acostumei novamente). Não sei se a diferença no resultado será tão grande, pois a situação me parece mais complexa, envolvendo outros contextos: há coisas que li há não muito tempo e não lembro de quase nada; há outras que li quando tinha 16 anos e conservo claras imagens de cenas, podendo até citar trechos literalmente. Em um ponto que eu creio que vá ajudar sim são os livros digitais: tenho vários e não tenho mais problema em ler no computador, mas “riscar” ali simplesmente não é a mesma coisa! Pelo menos, sacia um grande prazer que tenho de comprar (e usar!) canetas e cadernos (e, ainda, lápis, apontador e borracha para os livros de psicanálise!).

Só que eu sou um eterno insatisfeito que sempre questiona mais e fica pensando (ou tentando) além. Então, eu ainda acho que essa questão esconde algo mais essencial, no sentido de elementar. Algo tão potente e íntimo, que fica simples.

Se você tem um verdadeiro apreço por literatura em geral (ou música, cinema, qualquer tipo arte que seja) e, consequentemente, por livros, saberá do que estou falando. Há um ponto, ou talvez seja um limite, no qual algo nos atravessa e, melhor, suplanta qualquer possibilidade de expressão: estamos no universo do puro sentir. Por isso, eu penso que as estratégias de destacar algo no texto, ou o meu novo (e velho) hobby de escrever o (e sobre o) texto não são apenas para ter um material de consulta mais rápido (o que é uma grande vantagem, acredite em mim), e também não são para se lembrar. Um texto técnico, ok: talvez seja mesmo importante ter uma memória boa para poder utilizar posteriormente; agora, qual a diferença se você esquecer de um romance que leu? Você já viveu aquela leitura, vai dar uma palestra sobre ela? Vai citar em algum trabalho? Vai precisar disso para conversa com amigos? Se não (e para muitos a resposta é não), por que a preocupação de lembrar?

Eu acho que o que vem disfarçado com este “lembrar” é algo parecido com o que eu falei em uma crônica sobre tentar captura um instante em uma fotografia.[1] É um esforço quase desesperado (estou falando de mim!) de fazer com que aquele sentimento, aquele indizível, aquilo de mais puro e verdadeiro dentro de nós (estou pensando no core de Winnicott), aquele instante dure para sempre. Uma agonia que riscar, escrever, falar com alguém (a não ser raríssimas exceções, se for com uma pessoa única como a minha que falei no início) não consegue aplacar. Para a nossa sorte, é um paradoxo: ao mesmo tempo que o instante se vai e deixa apenas as páginas marcadas ou cadernos escritos, nós sabemos que instante dura para sempre.[2] Só que a sua duração é num outro tipo de lembrança que ultrapassa infinitamente as páginas escritas ou riscadas. Confie: está lá, já faz parte de você e, mesmo sem você perceber, será usado. Não com eloquências acadêmicas (que, geralmente não valem de nada!), mas com alma, o que é muito mais rico e significativo.

Então, o riscar/escrever ou não, ou como se vai fazer (ou não!), talvez não tenha tanta importância assim, talvez não seja a questão. O que não tira, para mim, a diversão (e, vai saber, a utilidade) de escrever os (e nos) meus livros.

 

 

Agosto, 2026.






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