A moda que vai (e não volta!)
- Juliano Corrêa

- há 48 minutos
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Eu acho que não preciso dizer que não sou um especialista em moda... Da minha parte, eu não tenho dificuldade em me vestir e me sentir bem; quem me conhece, sabe. Eu até já fiquei impressionado e desconfiado (com razão!) com algumas almas perdidas que já disseram que gostavam do “jeito que eu me vestia”! Enfim, cada um com as suas... Mas mesmo que a gente não seja especialista, a gente tem os nossos gostos, acha isso e aquilo bonito ou feio e, ainda mais nos dias de hoje, opina! Opinar sobre o que não se tem a menor ideia parece que virou o legal hoje, né? Então, eu faço a minha parte.
Nem se trata de preferência estética, do que eu gosto ou não gosto nas vestimentas e estilos das pessoas, não imagino como isso poderia ser interessante. É sobre outro fenômeno: a moda que efervesce por algum período restrito de tempo (como toda a moda), fica obsoleta, e logo depois, aparentemente sem mais nem menos, volta a ser cool de novo. Curioso, né? E eu nem estou me referindo ao motivo de tal moda voltar, o que seria muito interessante, ainda mais pelo que eu publiquei aqui recentemente.[1] Eu estou pensando mais no que volta; não como ou por que, mas o que.
Os exemplos do que volta são vários. O estilo dos hippies dos anos 1970 tiveram seu revival com as calças boca de sino (eu namorei uma guria que as usava!) e lenços. Épocas anteriores com gravatas borboleta e suspensórios também tiveram (e têm) seus lugares atuais. A minha geração mesmo, que já é antiga (e já tinha uma mistura do punk que era mais antigo), tem seus retornos através dos tipos de tênis e calças. Sempre há essa tendência vintage, pessoal que gosta de coisa antiga, muitas vezes nem para usar, mas para colecionar ou enfeitar. Enfim, como esclareci no início, não vou fazer inventário disso, pois não sou especialista! Só que isso que eu percebo é geral, qualquer olho não treinado vê. E também pode ver facilmente um fato interessante: todas as épocas retornam nas suas modas, menos uma: a década de 1980. Por que será?
A década de 80 é conhecida como “a década perdida”, que eu acho um epíteto lindo, forte, um título grandioso. Só que ela leva esse nome por causa da inflação descontrolada (quem viveu, sabe!) e economia à deriva daquela época no Brasil e na América Latina. Pois eu acho que, apesar de maravilhas que a década de 80 possa ter trazido, ela merece essa nomeação também pela moda.
Era um verdadeiro show de horrores! E que todos achavam lindo e sofisticado!!! Cabelos (de mulheres e homens também!) gigantes, esvoaçantes e ondulados; roupas (inclusive as formais, ternos e afins) muito coloridas da forma mais forte possível: verde, amarelo, laranja, tudo naquele tom daquelas canetas marca-texto que eram o maior sucesso para molhar os cadernos dos estudantes. Tivemos o tremendo sucesso da mais nociva invenção da humanidade (depois da bomba nuclear e dos grupos de WhatsApp): a pochete! Uma bolseta (às vezes até meio grande) que se usa na cintura (pelo lado de fora, claro), e na qual se carrega tudo que é tipo de tralha que couber. Uma coisa completamente hor-ro-ro-sa. E os caras (eu inclusive...) se achavam o máximo combinando suas pochetes com suas calças bag gigantes que mais pareciam uma bombacha, suas camisetas verde-limão e seus óculos de sol espelhados (e, claro, super coloridos). Como é que alguém cresceu saudável numa época assim? (Não estou falando de mim...).
E há o pior de tudo, o mais inexplicável evento: as ombreiras. Quem foi que teve essa ideia de jerico??? Mulheres, homens, meninos e meninas: todos usavam ombreira em tudo que é tipo de roupa. Detalhe: quanto mais alta fosse a ombreira, mas chique era! Parecia um jogador de futebol americano uniformizado (pode olhar fotos, era isso mesmo!). Eu lembro que eu, com uns 10 anos de idade, tinha o meu blazer, só para ocasiões especiais (nas quais eu me sentia super adulto), mas a ombreira dele era pequena, e eu me sentia mal por isso, eu me achava menor (literalmente, já que as ombreiras legais mesmo passavam da orelha da pessoa). Essa é uma ocasião na qual eu me senti menos, mas olhando em retrospectiva, eu penso que tive sorte! Como o tempo muda a nossa percepção das coisas, né!
Interessante: absolutamente nada dessa década maldita voltou! Não é por acaso, né! Ela é a única década que ficou no seu lugar. Ao contrário de as vestimentas trazerem saudades, estas trazem vergonha. Já ouvi de várias pessoas que andavam super na moda nos anos 80 dizerem: “como eu tive coragem de usar aquilo?”. Que força de mau gosto que supera até o fortíssimo desejo nostálgico que boa parte das pessoas têm! Pode sentir falta daquela época, ouvir as músicas, ver os filmes, lamentar a perda das dificuldades que haviam em contraste com as facilidades de hoje (cada um com seus problemas, né!); mas voltar a usar aquele estilo? Nem pensar!
Agora, para ser sincero contigo, eu admiro a década de 80. Eu até entendo e posso gostar de um tipo de renovação, de um novo uso de algo, como uma moda, do passado; porém, eu geralmente torço o nariz para isso. Porque é bem comum essa volta ser uma coisa mais nostálgica, tipo usar uma flor no cabelo e achar que está no verão de 1967 na Califórnia. Disso eu não gosto, não me agrada em um nível pessoal, e também acho perigoso num nível mais geral, é só ver toda essa onda conservadora burra e insana da atualidade: simplesmente não tem como dar bom essa velha tentativa de transpor algo de um determinado contexto para outro, de outra época.[2]
Claro que a maioria das coisas não são “purinhas”, desde a moda até a nossa própria personalidade, vai-se catando influências aqui e ali; contudo, há muito de original nessa construção e que não funciona se for tirado do seu lugar no tempo.[3] Nesse sentido, os anos 80, mesmo sem isso ter sido planejado, são um ótimo modelo a seguir: funcionou (ou não, depende do ponto de vista), foi bom (para muitos, vergonhoso para quase todos), e é isso. Fica lá, onde teve cabimento. Serve para lembranças boas e ruins, para contar piada (que, aqui, é um prato cheio), mas não há motivo para voltar, segue-se adiante[4] (até porque seguir para trás é impossível, ao contrário do que muita gente pensa).
Nesse caso, em especial, seguiu-se para os anos 90 que, vamos combinar, foram bem melhores...
Julho/Agosto, 2026.



