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O novo

Foto do escritor: Juliano Corrêa
Juliano Corrêa
7 de ago.
5 min de leitura

Mais de uma vez eu falei aqui sobre a dificuldade que eu vejo que a maioria das pessoas têm com o novo, aquilo que é absolutamente novo (assim como o desejo de retornar a formas anteriores, o que meio que dá no mesmo).[1]Semana passada, ao abordar outra dificuldade, a de aceitar algo sem explicação,[2] eu deixei a porta aberta para esse tema correlato que há muito tempo ocupa a minha mente, desde uma forma mais geral, até uma mais específica.

A parte mais geral tem inúmeras variantes, minha maior lembrança é discutir isso sobre a música, mas vale para qualquer outro assunto. É o caso de um artista (não vou nomear exemplos) ter criado um tipo de som, uma corrente musical, etc. Sempre têm aquelas pessoas (e elas são várias!) que rastreiam a origem: já existia antes, tal músico já fazia isso, por aí vai. Eu sempre fiquei puto com isso. É claro que, na maior parte das vezes eu diria, existem as conexões, afinal, as pessoas têm as suas influências, não se trata, obviamente, de uma geração espontânea! (Lembra de Pasteur e as aulas de química? Nada nasce de uma matéria não viva...). Só que se formos pensar assim, nada de novo foi feito musicalmente desde que se começaram a bater paus e pedras há 50 mil anos! É por isso que a conexão que tantas e tantas vezes me foi dada como justificativa é uma conexão falsa, pois está em nome de dizer que não nunca há nada de novo.

Ora, o fato de se ter tido influências, até de usar o que já foi feito, não significa que o que se está produzindo não seja verdadeiramente novo. Um exemplo: nas minhas tantas orientações de Trabalho de Conclusão de Curso na universidade, muitas vezes alunas, no intuito (que eu acho muito nobre!) de escrever algo “original”, rechaçavam certos temas porque muitos trabalhos já haviam sido escritos sobre. Eu sempre dizia: não é o tema inédito que vai fazer o teu trabalho original (se o tema for inédito, ótimo, mas não se trata disso), é o teu olhar sobre esse tema. Porque o teu olhar é só teu, e isso é o mais original que existe. Quer dizer, pode-se criar em cima de algo que já existe (um tema ou certa sequência de notas musicais!) e mesmo assim estar sendo completamente original. Claro que há risco em fazer por si: sai-se de um lugar seguro para se jogar no desconhecido e no incerto. Esse é um medo central do novo. Só que eu me pergunto: não é a vida, a arte, a ciência assim também?

Neste ponto, eu vejo uma grande diferença entre as pessoas. Existem as como eu, que valorizam e reconhecem o simples movimento de se fazer algo original, até independentemente do resultado; e há as outras, que eu julgo serem a maioria, que não apenas não dão esse valor, mas são frontalmente contra qualquer novidade, geralmente disfarçada nessa ideia de falsa conexão, o famoso “já estava lá”. Se jogarmos nosso olhar para o campo mais restrito da psicanálise, eu diria que a situação até piora.

Há, penso eu, vários caminhos para se pensar esse “problema do novo”, a repetição talvez seja o mais óbvio (e muito rico) para verificar as entranhas desse pensamento. Uma importante figura de repetição aparece no famoso artigo de Freud “O estranho”, texto é que leva a vários desenvolvimentos, principalmente estéticos. Nele, há o entendimento do “estranho familiar”, pela análise da própria palavra em alemão, Unheimlich, e seu possível oposto, heimlich. O que Freud afirma é que o novo causa terror em algumas ocasiões, mas não sempre: o que seria responsável por esse sentimento é o que retorna, repete-se, mas se apresentando de forma diferente. Isso remete para o que ainda nos interessará muito em textos psicanalíticos, a repetição e a compulsão à repetição (no nível instintual) que já estava dobrando a esquina.[3]

O saudoso professor Garcia-Roza nos diz, em um de seus livros, que o absolutamente novo não pode ser temido, somente é apavorante (Unheimlich) esse repetido diferente; contudo, em outro livro ele assevera que a cultura sempre teme o novo e tenta o reinscrever em um saber já constituído. É nesse segundo ponto que nos encontramos no que estou discutindo. Assim como o que escrevi sobre o novo na música, da mesma forma acontece na psicanálise: nem precisa pegar o exemplo de um tipo de lacaniano para o qual tudo começa e termina ali, como se a obra de Lacan englobasse tudoo que existe e o que ainda está por vir. Isso ocorre com Freud, qualquer outro autor maior e até menor: “já está lá”. Através de interpretações forçadas, inventa-se um Unheimlich que assusta e, ao mesmo tempo, atesta-se a falta de novidade, pois é apenas algo que já existe “retornando” em uma outra forma. Com isso, vão sendo criados verdadeiros monstrengos conceituais cuja única utilidade é não se mover nem um centímetro, manter tudo como está. É um enclausuramento de pensamento.

Há, na psicanálise, uma resistência ao novo que, para mim, é surpreendente e constrangedora, para dizer o mínimo. Tem de ser resistência, porque não se trata de uma avaliação de que uma ideia nova não tem lógica ou não funciona; não, a questão está bem antes de um julgamento de ela ser boa ou ruim, ela é desprezada já de início por ser diferente. Na verdade, ela é negada justamente sob o pretexto de não ser nova! “Já está lá”. Essa estreiteza de espírito é assustadora, e eu fico impressionado com o número de pessoas que banca isso de boa.

O acaso, meu tema, é um ótimo exemplo. É, por si mesmo, uma novidade, uma “surpresa” e, logo, provoca a mesma “explicação”, tal qual o exemplo da música, para sua não existência: um insano rastreamento das causas. Ora, querida, não é que as causas não existam (isso não teria base factual), mas elas coexistem com o acaso, ou seja, não são universais. Essa é a ideia, simples assim. O apequenamento mental é tal que torna isso impossível de entender?[4] Por isso que eu tenho de escrever que é resistência: eu me recuso, ao menos até agora, aceitar que seja uma simples inteligência muito tímida.

Essa resistência é por causa do medo? Parece que sim. Medo do que? De mexer no status quo tão bem estabelecido e tão confortável p muitos, até p aqueles que não estão confortáveis (ainda), mas estão lutando desesperadamente para estar nesse lugar. Evoluir terapeuticamente, adequar-se aos tempos atuais? Isso não importa: o que importa é manter as coisas fechadas do jeito que estão.

Essa forte reação contra qualquer originalidade é o que me causa mais desânimo. Na vida em geral, eu sempre penso: mas que coisa chata! Ainda assim, vá lá: as pessoas são diferentes, cada um vive sua vida como se sente mais feliz (além do medo intenso que uma mudança, mesmo para melhor, provoca); então, não há problema em ser feliz na mesmice (pode haver muita beleza nisso, dependendo da mesmice que estivermos falando). Especificamente na psicanálise, é muito mais alarmante: como quer ser ciência se se mostra como uma estrutura fechada, pretensamente já completa e definitiva? Certamente existem as pessoas e as suas tentativas de inovações, mas estas tendem a serem silenciadas, pois ficam à margem das instituições psicanalíticas e até da academia: ali parece predominar um dogma religioso.

É no mínimo curioso: a psicanálise mesmo foi vanguardista, e atacada por isso; agora, ela passa a se agarrar ferrenhamente ao obsoleto.

 

 

Outubro, 2023... – Agosto, 2026.



[3] Um texto já publicado versa sobre a regressão: https://www.julianocorrea.com/post/a-regressão

[4] Muitos materiais no meu site e no meu canal no YouTube/Spotify tratam do meu tema e dessa questão específica.







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