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  • Foto do escritorJuliano Corrêa

Winnicott, o sucinto


Esta crônica é só para falar do meu assombro e imenso prazer ao ler Winnicott.

A simplicidade é insuperável. Ser sucinto e ser consistente, dizer algo de fato em pouco tempo e espaço. Eu tenho enormes dificuldades nisso, preciso de muito espaço para desenvolver uma ideia (e que, por muitas vezes, nem é interessante!), então, repito demais, reafirmo, falo de outro jeito. Estes textos curtos que publico aqui são um verdadeiro desafio para mim (eu os considero curtos, podem haver diferenças de concepções). Talvez por isso eu sempre tenha sido fascinado por livros gigantescos (tinha muito de narcisismo, dizer ter lido tal livro de 800 páginas, exibi-lo na estante, etc.), mas eu não acho bonito necessariamente. É um estilo, ok, mas será que é o melhor? Sempre achei que o fácil é que é o verdadeiramente difícil de dizer. Eu acho lindo ser sucinto, mas sou prolixo. Não estou me referindo a um tipo de necessidade, como o jargão jornalístico do “menos é mais”: um jornalista (de um tipo) tem de passar as informações de forma clara, direta e em um curto espaço. Não, eu estou falando de quem tem esse talento inato.

Eu lembro de Ferenczi, o enfant terrible da psicanálise, talvez o autor mais injustiçado, que foi (re)“descoberto” há apenas algumas décadas, com quem eu vejo muita relação com Winnicott. Pois Ferenczi, falando de sua técnica mais “elástica” que foi, num primeiro (e talvez segundo e terceiro também!) momento tão criticada, cunhou a expressão tato. Explicou da seguinte maneira: “Mas o que é o tato? A resposta a esta pergunta não nos é difícil. O tato, é a faculdade de ‘sentir com’”.[1] É a famosa “empatia”. Ele a descreve como sendo o analista saber (seria sentir) o quando e o como dizer algo para seu paciente, reagir a algo dele, respeitar o silêncio ou interromper, etc. É uma noção tão larga, tão poderosa, tão importante, e ele consegue resumir em uma palavra autoexplicativa: tato.

Nos meus tempos de formação em psicanálise, eu tive o privilégio de poder estudar Winnicott por alguns anos em um grupo de estudos coordenado pelo querido Frederico Seewald. Estudamos muito, publicamos artigo, apresentamos trabalho em congresso; grupo altamente “rentável” em todos os sentidos. Claro que cabe a pergunta (muito mais para eu mesmo!): por que não segui completamente neste “caminho winnicottiano”, visto ter sido sempre o meu maior guia para clínica? Que seja! Por vários motivos, tanto para um lado como para outro. Parece que agora, finalmente, eu estou making amends. Uma coisa que era dita por vezes durante o nosso estudo era de que algumas pessoas (psicanalistas) tinham Winnicott pela expressão “psicanálise light”. Que horrível, né? O motivo disso, se minha memória não falha, e a memória sempre falha, é um atributo dela, é pelo fato da falta de metapsicologia em Winnicott (lembro de muitos de nós reclamarmos disso na época, muitas vezes sem nem saber direito do que estávamos falando – eu mesmo era o maior exemplo). É interessante que falávamos da falta da metapsicologia como se fosse quase um crime, como se sem ela ficássemos sem direção. Eu penso que crime deve ser o tom desse questionamento: quer dizer, então, que a metapsicologia é o “dever”, o “destino” da psicanálise e do psicanalista? Esse ponto abre para uma vasta (e muito importante!) discussão que este pequeno texto não comporta, deve-se ter mais cuidado e espaço para isso como ainda pretendo.[2] Uma coisa que sempre me agradou em Winnicott é sua preocupação incansável com a clínica, com as pessoas que atendemos. Sua obra é toda derivada da, e direcionada para a prática. É uma ideia com a qual compartilho muito e julgo bem complexa: se uma construção teórica não tem aplicação clínica, qual seu valor? Aí, podemos pensar a tal “falta” de metapsicologia não no sentido de uma falha, mas sim: qual a necessidade/utilidade dela para a clínica?

Além disso, eu acrescentaria o fato da simplicidade (aparente, já chegaremos aí) dos textos de Winnicott, geralmente curtos, diretos, e sem grandes floreios conceituais e intelecualoides, também como fonte deste certo preconceito. Talvez este “ranço”, ou até mesmo desmerecimento que alguns têm por Winnicott, tenha a ver com a necessidade meio geral de falar difícil, dominar termos que ninguém conhece (mesmo que não os domine de fato), enfim, diferenciar-se dos outros por uma pretensa sabedoria que poucos têm (escrevi uma crônica abordando um pouco este tema[3]). É triste isso. Mas é muito verdade. Winnicott não dá essa oportunidade de “aparecer pela grande e restrita sabedoria intelectual” em sua obra; porém, é um engano mortal tomar seus escritos como fáceis só porque ele não usa palavras difíceis ou construções mirabolantes. Até porque, de que isso adianta para o nosso trabalho clínico? Afinal, fazemos psicanálise, não filosofia, não é?

Desta forma, “Medo do colapso”, “A capacidade para estar só”, “Comunicando e não comunicando levando ao estudo de certos opostos”, só para ficar em escritos nos quais me debrucei mais profundamente recentemente: nossa, são todos explosivos! E tem muito mais do que estes poucos exemplos, todos altamente complexos. Geralmente, os textos de Winnicott são curtos: o “Medo do colapso” que citei é curtíssimo, parece com “A negativa”, de Freud, pelo tamanho e pela quantidade assustadora de coisas a se encontrar neles.

Winnicott é desse tipo de autor que merece ser estudado linha por linha. Sua escrita “simples” suscita tanta coisa! Cada frase permite e, mais ainda, força-nos com que lutemos para pensar significados, acho que não entender, mas criar (e eu acredito muito que esse era um de seus objetivos). Thomas Ogden, que faz análises ótimas sobre artigos de Winnicott[4](queria que tivesse mais!), destaca como ele muda o significado de palavras que usa, mas não por falta de técnica ou conhecimento: é o seu estilo para se fazer compreender. Ogden afirma que Winnicott está trabalhando com o se sentir vivo e estar vivo para a experiência com o outro, desta forma, ele pensa enquanto escreve, ou usa a escrita como uma medida do que ele pensa. Ou seja, tudo está em movimento. Eu vejo que, portanto, estabelece-se uma relação muito íntima (não é/deve ser assim também a relação clínica analítica?) na qual ele convoca seu leitor a inventar o texto junto dele. Winnicott não nos dita regras ou ensinamentos; ele nos intima a conceber o que ele mesmo está escrevendo. Uma criação conjunta (como é/deve ser a da dupla no tratamento psicanalítico). É um “jogo do rabisco” na prática que ele constantemente nos propõe! Tanto que eu vou destacando quase tudo quando o estudo: é difícil deixar algo de fora por não ser importante, é tudo importante! Eu penso que pelo fato, que julgo extremamente relevante, de o seu foco ser sempre a prática, a clínica psicanalítica, é que ele é conciso, pois não há mumbo jumbo, uma expressão inglesa para dizer sobre algo que tem uma expressão intrincada (e, assim, confusa), mas que não tem sentido nenhum (alguém vê alguma semelhança com alguns textos psicanalíticos?).

Há uma ideia sobre grandes músicos, que eu acho bastante correta, de que eles não desperdiçam notas: tudo é uma necessidade (não anterior, mas criada) em suas composições. Beethoven é um exemplo: o grande maestro Leonard Bernstein disse numa entrevista, analisando a maravilhosa 7ª Sinfonia, que cada nota seguinte é absolutamente necessária; e no fim, a forma (que é o que o maestro destaca como a grande qualidade de Beethoven, maior do que qualquer outro, visto ele não ser bom compositor de melodias) que se constrói é que como se ele tivesse um telefone falando diretamente com Deus que lhe passava o formato final: toda a nota seguinte é inevitável (ainda que imprevisível!), não poderia ser nenhuma outra. É lindo isso! Tem uma história (que acho que é lenda, mas diz muito) de que, ao ouvir a interpretação da ópera “O rapto do serralho” (acho que era esta), o imperador José II disse que ela era “bela demais para nossos ouvidos”, que tinha “notas demais”, que Mozart deveria “tirar algumas”, ao que Mozart teria respondido: “peço perdão à vossa excelência, mas há tantas notas quantas são necessárias”[5]). Claro que ele estava certo! Nesse sentido, eu acho que Winnicott é o músico da psicanálise. O compositor, o maestro, enfim, não sei o adjetivo que me deixaria satisfeito. Winnicott não usa nenhuma nota a mais (desnecessária) nas suas canções.

Dentre tantas coisas, algumas que falei aqui, outras que não consigo, porque não sei, acho que me atrai em Winnicott o fato de ele me deixar à vontade. Freud, por exemplo, não deixa? Ah, eu acho que sim, originalmente. Não é a questão da metapsicologia (neste caso), a de Freud é fabulosa; é só que eu acho que a leitura de Freud está altamente poluída com concepções preestabelecidas que, certamente, têm o seu valor, mas não são a letra freudiana, o que ele “realmente quis dizer”. Isso faz com que tenhamos um esforço muito maior para ler Freud de forma livre, pois temos de tentar (e é bem difícil) colocar à parte “verdades” que estão postas de forma absolutista. Com Winnicott, eu sinto liberdade. Alguns poderiam dizer que é a minha liberdade do momento; ok, pode ser, mas tem tudo a ver com ele, como ele construiu sua teoria. Faz bem mais sentido pensar assim.

Alguns autores refutam a ideia tão difundida de que Winnicott não criou uma escola, e nem seguidores, porque não tinha esse objetivo; destes questionamentos que já li, acho-os muito frágeis. Eu realmente acredito na sua posição de não criar escola, está perfeitamente de acordo com toda a sua vida e obra. Seu posicionamento no Middle Group (“grupo do meio”) nas Controvérsias da Sociedade Britânica na década de 1940 entre Anna Freud e Melanie Klein (onde ele não tomou lado algum) não pode ser visto como falta de posicionamento, como ficar “em cima do muro” (é bem diferente do não ser “nem de direita, nem de esquerda”!). Sua escolha foi pela liberdade, de poder pensar e produzir sem ter compromisso com nenhuma linhagem para, justamente, poder criar, formular seu pensamento original. Como F. Robert Rodman escreveu no prefácio da edição inglesa de “Brincar e realidade”: “ele sempre acreditou que os analistas tinham de encontrar seu próprio caminho, na verdade, redescobrir por eles mesmos o que outros encontraram da sua maneira”.[6]

Winnicott nos ensina, ou melhor, permite-nos encontrar o nosso próprio caminho. Não é o mesmo que fazemos/queremos para os nossos pacientes psicanalíticos, que possam ser livres para encontrarem seu próprio caminho?


[1] FERENCZI, Sandór. Elasticidade da técnica psicanalítica. In:______. Psicanálise IV – obras completas. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 27. [2] Leopoldo Fulgencio escreveu um ótimo artigo explorando este tema em maior escala: FULGENCIO, Leopoldo. Pode haver uma ciência psicanalítica sem uma metapsicologia especulativa? Scientiae Studia, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 491-510, 2013. [3] https://www.julianocorrea.com/post/as-notas-de-rodapé-e-a-transmissão-do-conhecimento [4] OGDEN, Thomas H. Reclaiming unlived life: experiences in psychoanalysis. London/New York: Routledge, 2016, p. 52. ______. Coming to life in the consulting room: toward a new analytic sensibility. London/New York: Routledge, 2022. [5] Esta história (e tantas outras) pode ser encontrada em: STENDHAL. Don Giovanni/A vida de Mozart. Porto Alegre: L&PM, 1991. [6] “He always believed that individual analysts had to find their own way, in effect to rediscover for themselves what others had found in their own way.” WINNICOTT, Donald W. Playing and reality. London/New York: Routlege, 2005. [Livro digital].




Como curiosidade, esta é parte da entrevista de Leonard Bernstein (não encontrei com legendas) na qual ele fala da 7ª Sinfonia de Beethoven...





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