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O livro e o vinho

Foto do escritor: Juliano Corrêa
Juliano Corrêa
há 10 minutos
3 min de leitura

A minha paixão por literatura começou quando eu estava no colégio. Eu havia lido livros clássicos e importantes, lembro de “Vidas Secas” e “Feliz Ano Velho”, mas era diferente: por mais que eu tenha gostado, que tenham me impactado, que eu guarde até hoje lembranças vívidas, eram livros que eu fui obrigado a ler. A “virada de chave” aconteceu no segundo grau (hoje chamado de ensino médio), quando comecei a ter disciplina de literatura. Odiei o romantismo (e antes, o Barroco, Arcadismo, etc.), os José de Alencar da vida. Aquele dualismo de personagens mocinhos e vilões, de começar tudo bem, ficar tudo mal e, no fim, ter final feliz, tudo isso me desagradava imensamente (eu já disse que história com final feliz não pode ser levada a sério![1]). Eu acho que exatamente aí, eu já era um psicanalista sem saber ainda...

  Aí veio o Realismo, o “grande Machado”, como um professor meu chamava, e literalmente (e literariamente!) mudou a minha vida. Não havia mais bom e mau, todos os personagens eram complexos, ou seja, reais. O fim da história não era “de fadas”, feliz. Veja, eu não tenho nada contra final feliz! Eu gosto! Desejo para os outros (não para todos, claro) e para mim também; é só que a vida real não funciona assim. O tal “final triste” não significa devastação e ranger de dentes: é somente que a felicidade no fim não é total, pode ser melancólica, e pode não ter felicidade nenhuma![2] Não é assim a vida sem a romantizar? Eu tinha “Memórias Póstumas de Brás Cubas” em casa; fui direto. E me atropelou, no melhor dos sentidos. O livro não é longo, então, quando se aproximou do fim, eu voltava algumas páginas toda a vez que retomava a leitura: não queria que acabasse. Fui comprando todos os romances de Machado de Assis na sequência e os devorando (“Dom Casmurro” é um dos grandes livros da literatura mundial, ainda vou dedicar momento especial a ele), seguido pelos seus livros de contos (“Missa do Galo”, as chinelinhas de alcova de Conceição... ainda vai ter capítulo especial também). Enfim, daí para os Dostoiévski, Kafka, e um mundo maravilhosamente aberto e rico, foi uma descida. Uma descida maravilhosa, e que continua até hoje.

Esse mesmo professor que falava “o grande Machado”, uma vez disse como se deveria ler poesia. Ele rechaçou veementemente pessoas que pegam um livro de poesia e, simplesmente, leem. Não! Poesia, dizia ele, tem de se criar todo um ambiente, um lugar especial e confortável, pegar uma taça de vinho, e aí sim ler o poema. Exagerado, né? É, eu não acho que precise de todo esse aparato para ler um poema ou seja lá o que for. Mas o professor falava de algo que, ao menos para mim, sempre foi importante: degustar o livro. Se vai fazer todo o esquema, beber vinho ou sei lá o que, não sei (e não importa), cada um tem o seu jeito; porém, não pode faltar sorver genuinamente o livro.

Quer dizer: não se lê a toque de caixa, para colocar no currículo (currículo para quem esse né!); não, tem de se apreciar, vivenciar verdadeiramente, adentrar todas as emoções que estão ali para serem sentidas, e isso não pode ser conquistado de forma burocrática.[3] E eu acredito piamente que isso só acontece com um envolvimento real, quando deixamos o livro tomar conta de nós: nunca se sai o mesmo de uma experiência como esta. Para mim, há muita semelhança com a experiência psicanalítica...

Então, agora você pode entender a minha reivindicação da vida inteira: um livro não é só um livro! Não se trata de um apego materialista (não tem nada a ver com isso!). Não são só “coisas”, têm alma.[4] Por isso que cada livro que eu perdi na vida (para ser mais claro, que me roubaram!!), não é só um item que, talvez, possa se pegar de volta. Não, é um pedacinho da minha alma que me foi tirado. É uma história/sentimento/ideia que alguém escreveu, mas que, ao eu ler, tornou-se minha da minha maneira, mais um tijolinho daquilo que eu sou. Por isso, para mim, nunca fez sentido brigar para pegar de volta: no que me foi tirado, aí sim virou coisa; aquela parte de mim se foi para sempre.

Esta é a metáfora do vinho: não é literal, é sobre somente se deixar capturar. Geralmente, eu leio um livro em bem mais tempo do que a minha limitada capacidade intelectual permitiria; é que eu simplesmente não consigo ler algo sublime, que me toca tão profundamente, e seguir lendo. Não! Eu tenho de parar, refletir, sentir, dar uma volta, fumar um cigarro...

Beba vinho, ou faça o que for que seja o teu “ritual” de leitura. Mas nunca deixe um livro se transformar em algo ordinário.

 

 

Agosto/Setembro, 2026.






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