top of page

JULIANO CORRÊA PSICANALISTA


Noites, estradas e estrelas
Vou falar apoiado em um tema que não me convém: a pintura. Eu não entendo nada de artes plásticas e nunca tive interesse nelas. É claro que existem exceções: há obras que eu gosto, acho belas, ainda que não me causem a afetação emocional que, por exemplo, uma música ou um livro podem me causar. Dentre essas poucas exceções, está Vincent van Gogh. Seus quadros produzem algo forte em mim (como não tenho conhecimento técnico, não sei dizer o que é, mas talvez não precise, pois n

Juliano Corrêa
29 de mai.


O instante eterno
Alice perguntou para o coelho: “quanto tempo dura o eterno”; o coelho respondeu: “às vezes, apenas um segundo”. Há uma grande chance de você já ter lido (e se encantado, assim como eu!) essa passagem de “Alice no País das Maravilhas”. Eu não quero ser um destruidor de ilusões, mas esse diálogo simplesmente... nunca aconteceu. Lewis Carroll nunca escreveu esse trecho em nenhum dos dois livros da Alice (se existe em algum filme mais recente, eu não sei, mas aí tu estás exigindo

Juliano Corrêa
19 de dez. de 2025


Invisíveis
Eu estava na metade do curso de psicologia quando iniciei meu primeiro tratamento psicológico. Digo “o primeiro” porque outros vieram depois: Freud mesmo dizia que todo o psicanalista deveria, de tempos em tempos, retornar ao tratamento para uma “reciclagem”. Mas este que estou me referindo foi com uma psicóloga que não era psicanalista. Até hoje não sei o que ela era (se “era” alguma coisa nesse sentido de linha teórica). Engraçado que, mesmo na época (estudantes de psicolog

Juliano Corrêa
22 de nov. de 2025


Os limites do corpo
“Amadeus”, do genial cineasta Milos Forman, é um dos melhores filmes que eu vi na vida. Conta a história de Mozart e a relação/rivalidade que Antonio Salieri tinha com ele. Salieri era o compositor da corte de José II, arquiduque da Áustria, foi bem famoso em sua época. Parecia satisfeito com a sua vida até o aparecimento de Mozart gerar uma inveja doentia que conduz os acontecimentos do filme. Essa história é fictícia: deriva das peças de teatro de Alexander Pushkin e de Pet

Juliano Corrêa
26 de set. de 2025


A época insana
Eu já fui aconselhado, e aposto todas as minhas fichas que você também já foi, a não fazer algo ou tomar determinada decisão de “cabeça quente”, no “calor do momento”, a deixar “a poeira baixar”, isto é, a pensar com mais calma para, daí sim, agir da maneira que fosse. É um conselho delicado, não acha? Há um texto de 1912, “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, que é delicioso (e essencial!) como todos os do grupo de “Artigos sobre técnica”[1], no qual Freud,

Juliano Corrêa
2 de ago. de 2025


Verdade sem amor
Cazuza cantava: “mentiras sinceras me interessam”. Também interessavam “raspas e restos”, “migalhas dormidas (do teu pão)”, “pequenas porções de ilusão”. Claro, fazia parte do contexto da clássica canção (e eu diria também da época) do Barão Vermelho “Maior Abandonado”. Mas eu não estou nem um pouco interessado em mentiras (mesmo as sinceras) agora. Por mais que as mentiras, ainda mais as sinceras, tenham uma vantagem paradoxal: elas não enganam. Como assim? Não são para enga

Juliano Corrêa
24 de jan. de 2025


Acrobata dos sonhos
Eu escrevi, há algum tempo, uma crônica[1] baseada (e modificada) de um texto que havia publicado no Boletim Interno da instituição onde fiz minha formação psicanalítica. Esta crônica aqui vai pelo mesmo caminho, mas é um pouco diferente. Trata-se de uma fala que escrevi para um evento que acontecia (a “Terça Científica”, naquela época estavam chamando alunos em formação para participar e, como eu era muito ativo e exibido, era um alvo fácil), e que fui convidado para falar

Juliano Corrêa
5 de nov. de 2024


As quatro notas
Uma vez, estava falando para o meu analista sobre um tipo de encruzilhada que eu me encontrava. Tinha a ver com a produção da minha tese: eu estava meio perdido, sem saber exatamente por onde ir, que tom usar, etc. A sensação era que eu precisava de algo novo que me desse rumo novamente, pois eu me sentia sem nenhum. Então, ele disse mais ou menos assim: “você tem que encontrar as suas quatro notas”. Parece estranho, né? Mas foi uma intervenção muito importante, tinha relação

Juliano Corrêa
24 de set. de 2024


Não era o planejado
The Godfather, “O Poderoso Chefão” para nós, é uma obra-prima do cinema. Dirigido por Francis Ford Coppola, que também assina o roteiro juntamente com Mario Puzo (que escreveu o livro que inspirou o filme, e que também roteirizou os dois primeiros filmes do Super-Homem, ou seja, é o meu herói pessoal!), e a sublime trilha sonora de Nino Rota, além de um elenco recheado de talentos, é uma trilogia de, acho que poderia se dizer, uma tragédia familiar. Claro, essa família é da m

Juliano Corrêa
13 de set. de 2024


O colorido da vida
Eu andei lembrando de algumas coisas que se conectaram. Anos atrás, eu tive a oportunidade de participar da elaboração de um trabalho terrível. O “terrível” aqui tem de ser explicado: ele era ótimo, mas difícil até de ler por causa da extremidade das dores envolvidas (no fim, era mesmo o objetivo inicial da autora!). Era sobre luto, mas um luto diferente, que é a perda de um filho. Mais ainda, era sobre o luto da perda de um filho na qual os próprios pais estavam envolvidos

Juliano Corrêa
7 de set. de 2024


O trabalho sobre música que ninguém escreveu
Bom, esclarecimentos iniciais: em primeiro lugar, eu realmente não sei se, de fato, esse trabalho nunca foi escrito. Eu, ao menos, nuca vi ou ouvi falar, mas minha procura não foi profunda, na verdade, eu mal procurei (inclusive, se você, por acaso, souber que esse trabalho existe, por favor me avise!). Em segundo lugar, é óbvio que eu não estou (agora pelo menos...) escrevendo esse trabalho, eu estou só lamentando ele não existir (ou eu nunca ter visto). Há pouco tempo, rec

Juliano Corrêa
31 de ago. de 2024


O desastre de não ser encontrado
Winnicott é realmente espetacular. Há um artigo maravilhoso e muito importante de sua obra, de 1963, “Comunicando e não comunicando levando ao estudo de certos opostos” (fiz uma tradução própria – e tosca, mas com sentido – por não achar a “oficial” boa – note a petulância...), está no livro “O ambiente (facilitador) e os processos de maturação. Existem belas e profundas análises sobre este texto, como a do professor Fábio Belo e, principalmente, a de Thomas Ogden em seu mais

Juliano Corrêa
13 de out. de 2023


"Mas sozinho... é sozinho..."
“História de um casamento” (“Marriage Sory”), filme de 2019, dirigido, produzido e roteirizado por Noah Baumbach, estrelado lindamente por Scarlett Johansson, Adam Driver e Laura Dern, foi um dos melhores filmes que eu vi nos últimos anos. Profundo, sensível, forte, necessário, tudo no ponto certo através de atuações maravilhosas (“só” Laura Dern ganhou o Oscar pela magnífica advogada que interpreta, mas Johansson e Driver foram indicados, assim como o filme também foi para m

Juliano Corrêa
6 de out. de 2023


A espera
“Estou apaixonado? – Sim, pois espero. O outro não espera nunca. Às vezes quero representar aquele que não espera: tento me ocupar em outro lugar, chego atrasado; mas neste jogo perco sempre: o que quer que eu faça, acabo sempre sem ter o que fazer, pontual, até mesmo adiantado. A identidade fatal do enamoramento não é outra senão: sou aquele que espera”. (Foi assim que eu comecei este texto, “A espera”, publicado em 2006 (veja só...) no Boletim Informativo do CEP (onde fiz

Juliano Corrêa
29 de set. de 2023


Encontrando um analista
Não, é claro que isto aqui não é nenhum guia sobre como encontrar o profissional ou mesmo a psicoterapia perfeita; tal coisa não existe: nem o perfeito, nem o guia. Tanto que o título original desta crônica era “como encontrar um terapeuta?”, mas achei que dava mais ainda a impressão de manual, e tenho o costume de fazer títulos que dão a ideia errada do texto (e é muito interessante como um escrito vai se criando/modificando no que vai sendo produzido, como se tomasse vida p

Juliano Corrêa
15 de set. de 2023


A cidade e o escritor
Eu realmente não lembro do nome (e nem da história!) de um filme que vi uma vez, há tempos, mas uma cena nunca me saiu da memória (foi só esta cena que vi, na verdade, talvez por isso eu não lembre de nada!): um escritor jovem, lutando contra as dificuldades de escrever, trava um diálogo com um escritor mais experiente e (parecia ser) seu mentor. O mais velho aconselha o mais novo a investir nas angústias contraditórias que sente em relação a cidade onde nasceu (e vivia?), po

Juliano Corrêa
1 de set. de 2023


O que é uma boa sessão de análise?
Como outros, este é um daqueles textos que o título é uma pergunta, mas esta não será respondida. Não deveria ter dito isso assim, logo de início, né? Pois é, tenho de trabalhar melhor o marketing... O que me levou a escrever esta crônica foi um pensamento aleatório que me ocorreu frente a algo que já ouvi muitas vezes: a pessoa dizer, geralmente no fim da sessão, que a achou ruim (isso, quase sempre, mais no sentido de ter sido ruim para mim, por a pessoa estar se achando c

Juliano Corrêa
18 de ago. de 2023


Por que fazer análise?
Por que se analisar? Por que procurar uma pessoa (de confiança) para fazer psicoterapia? Pode ser uma pergunta sem sentido aparente, mas eu acho que existem elementos importantes a se pensar sobre isso. Em uma das minhas primeiras aulas na faculdade, uma colega perguntou para a professora se seria interessante para nós, agora estudantes de psicologia, iniciarmos um tratamento psicoterapêutico. Ela respondeu que todo mundo deveria se tratar, no sentido de que a psicoterapia t

Juliano Corrêa
7 de jul. de 2023


Winnicott, o sucinto
Esta crônica é só para falar do meu assombro e imenso prazer ao ler Winnicott. A simplicidade é insuperável. Ser sucinto e ser consistente, dizer algo de fato em pouco tempo e espaço. Eu tenho enormes dificuldades nisso, preciso de muito espaço para desenvolver uma ideia (e que, por muitas vezes, nem é interessante!), então, repito demais, reafirmo, falo de outro jeito. Estes textos curtos que publico aqui são um verdadeiro desafio para mim (eu os considero curtos, podem hav

Juliano Corrêa
30 de jun. de 2023


Fotografias da alma
Antes de qualquer coisa: adoro títulos bonitos/marcantes, mas nunca fui capaz de os criar; contudo, continuo tentando. Aqui de novo. Neste caso, pode ser desastroso: alma dá uma ideia mais espiritual, e isso não pode estar mais longe do que quero falar. Eu estou pensando no sentido do “aparato anímico” de Freud, Seelenapparat. “Alma” (Seele) não tem essa acepção mais mística e espiritual em alemão como tem em português (então, vai escrever em alemão né!). O que eu tenho em me

Juliano Corrêa
23 de jun. de 2023
bottom of page